22 de dezembro de 2010

Wikileaks: Perspectiva Histórica

Jules Assange: criador da Wikileaks
Rio de Janeiro - Por Carlos Fico

Nas duas últimas semanas, estive nos Estados Unidos pesquisando nas bibliotecas dos ex-presidentes norte-americanos Gerald Ford, em Ann Arbor (MI), e Jimmy Carter, em Atlanta (GA).

Embora sejam chamadas de “bibliotecas” (libraries), funcionam como arquivos e museus reunindo os acervos dos antigos presidentes norte-americanos e estão espalhadas pelo país nas respectivas cidades de nascimento. Essas bibliotecas, em geral, são construídas com recursos privados e, posteriormente, sua administração é transferida para o governo através do Arquivo Nacional (National Archives and Records Administration – NARA).

Entre os funcionários, o tema predominante esses dias era o Wikileaks. Eles acham que Julian Assange cometeu um crime, mas que seria uma forma de censura impedir que, agora, a imprensa publique o que vazou. Entretanto, o pior resultado poderia ser a propagação de um sentimento de desconfiança entre aqueles que são responsáveis pela paulatina liberação de documentos históricos classificados.

No Brasil, ainda não temos uma sistemática organizada de desclassificação de documentos históricos sigilosos. Seria preciso que houvesse mais pessoal especializado nos setores envolvidos, tanto no Arquivo Nacional quanto nas agências governamentais que produzem documentos classificados (comandos militares, Itamaraty etc.). Em conjunto, essas equipes cuidariam da desclassificação paulatina dos documentos.

Também acho que o Wikileaks ajuda pouco na abertura de arquivos sensíveis de antigos regimes autoritários para fins de pesquisa histórica ou reparação por causa do mal-estar geral que causou. A imprensa tem todo o direito de publicar, mas a banalização dos pequenos escândalos mostra que um conhecimento profundo do que se passa não decorre da publicação, a conta-gotas, de documentos curiosos. Por exemplo, supor que os diplomatas (norte-americanos ou outros) passam seu tempo fazendo comentários ácidos é uma visão tão ingênua quanto aquela que prevalece, no Brasil, segundo a qual a comunidade de informações do regime militar era composta de “arapongas” trapalhões.

Lula defendeu Assange, talvez principalmente motivado por antiamericanismo, mas ele (e, agora, Dilma Roussef) deveria abordar, em termos institucionais, a questão dos documentos da ditadura militar e dos governos democráticos que se seguiram, criando uma rotina conhecida e legal de paulatina desclassificação. Muitos documentos foram liberados por Lula e Dilma (quando era chefe da Casa Civil), mas de um jeito bastante parecido com os massivos vazamentos do Wikileaks: em grandes blocos, despejando “tudo” no Arquivo Nacional, sem maiores tratamentos ou cautelas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário