18 de janeiro de 2011

Oswald de Andrade, quem diria, acabou no discurso da presidenta

Galerias da Biblioteca Nacional
Juiz de Fora - Por Ronald Polito



Li com atenção o longo discurso de posse da presidenta Dilma, pois não pude assistir à cerimônia de 1o de janeiro. Enfadonho, o texto fica bem aquém dos discursos de seu carismático antecessor, mas nem por isso deixa de trazer proposições curiosas. Assim, foi com espanto que, chegando ao final do texto, encontrei a seguinte passagem, em que a presidenta menciona a literatura, campo de meu interesse:


"Vamos investir em cultura, ampliando a produção e o consumo em todas as regiões de nossos bens culturais e expandindo a exportação de nossa música, cinema e literatura, signos vivos de nossa presença no mundo".

Imediatamente, ocorreu-me verificar se os discursos presidenciais anteriores (inclusive o de Tancredo Neves) fariam referência direta à literatura. Para isso, li todos os discursos presidenciais a partir de 1964 supondo que dificilmente tratariam do tema, o que confirmei. Em seguida, busquei saber pela internet se alguém tinha comentado essa passagem, mas, novamente para meu espanto, não encontrei nada.

É não apenas inusitada a referência à literatura, mas principalmente nos termos em que se deu, pois almeja expandir (de onde se deduz  já existir) a sua exportação. Não há dúvida de que a maioria dos escritores só teria a aprovar, num primeiro momento, uma iniciativa desse tipo. É mesmo louvável que, afinal, após 120 anos de República, a literatura em sentido estrito tenha alçado a essa posição de prestígio. É como se, cerca de 80 anos depois, o projeto de Oswald de Andrade se insinuasse em um discurso presidencial, ainda que ele não estivesse falando a mesma coisa. Mas diversos problemas podem ser indicados nesse contexto.

O primeiro deles foi a relação, no mínimo, conflituosa, desastrosa e lamentável que o governo Lula, mais especificamente o Ministério da Cultura, estabeleceu com os escritores do país. Foram várias as manifestações e movimentos para que os escritores tivessem um espaço no âmbito do ministério, o que não aconteceu. Tratando-se agora de uma orientação partida da representante máxima da nação, haveria então um projeto político-cultural que será encaminhado à atual ministra da Cultura? Será que se imagina uma reunião para discussão de propostas entre a ministra e os escritores ou seus representantes?

Claro, o documento cita “literatura”, alguém pode sublinhar. O que não é a mesma coisa que “escritor”, e aqui não há ironia. É possível uma política que contemple os textos escritos e nada mais. Não parece ser outra coisa a afirmação do discurso presidencial, que se orienta para o ponto terminal do processo: exportar pressupõe o já produzido e, talvez, legitimado.

Mas é função do Estado a exportação de literatura? Ou melhor: isso é o mais importante agora? Sabemos que países ricos desenvolvem projetos dessa natureza, mas não é exatamente o nosso caso. E exportar literatura é fazer com que obras como as de Chico Buarque ou Jorge Amado sejam publicadas no exterior? Projetos implantados pela Biblioteca Nacional nos últimos anos seguiram um pouco nessa direção. Mas isso não seria mais da competência da iniciativa privada, das editoras que ganham muito dinheiro com esses autores e detêm, inclusive, a prerrogativa de negociar seus direitos autorais no exterior? E o que pensar sobre o fato de que diversos títulos fundamentais de nossa literatura já se encontram traduzidos para mais de uma língua? Enfim, quais os critérios para se definir o que deve ser exportado?

Com a Biblioteca Nacional literalmente em estado lamentável (a presidenta está informada do galpão na região do porto do Rio de Janeiro que “abriga” periódicos e coleções do século XIX?), dispensando-nos de comentar as demais bibliotecas do país, com os preços escorchantes praticados pelas editoras, com a mais completa ausência do hábito da leitura entre nós, será exportação a política que interessa ao livro? Como exportar se a quase totalidade da população brasileira não tem acesso a livros, mesmo na maioria das poucas bibliotecas brasileiras, situadas abaixo do medíocre?

Prefiro dar um voto de confiança à afirmação inaugural da presidenta e imaginar, sonhar, que quem está preocupado com exportação já previu cuidar de todas as etapas anteriores, e não fazer mais uma política de cartão-postal. E que em breve a Presidência, ou o Ministério da Cultura, divulgue projeto minucioso esclarecendo a fundo essa ideia tão curiosa e inusual em discursos presidenciais, ou reúna pessoas que livremente o redijam, o que seria melhor. Os escritores e suas representações também deveriam com urgência manifestar-se nesse sentido, já antecipando diversos desejos acumulados em tantas décadas de descaso do Estado em relação à cultura e à educação.

Um comentário:

  1. Texto muito bom, Ronald. Parabéns. Eu também li o discurso da Dilma e esta importante observação me passou batida. Fico pensando se a exportação de bens culturais, como a literatura, é algum tipo de estratégia do governo brasileiro para marcar ainda mais a sua presença no exterior, algo como um "softpower". Enfim, apenas algo que me ocorreu. Estive nas duas últimas semanas entre Buenos Aires e Santiago e senti que a literatura brasileira na A.Latina ainda é muito pouco conhecida. Os principais nomes são Jorge Amado, Paulo Coelho e Augusto Boal. Muito pouco para o Brasil, não acha? abs!

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