8 de fevereiro de 2011

Videopalestra “Operação Brother Sam”: mais perguntas

O porta-aviões Forrestal liderou a Brother Sam em 1964


Rio de Janeiro - Por Carlos Fico

Nesta última segunda-feira, o Café História e o Brasil Recente transmitiram a videopalestra “Operação Brother Sam”, quando pude abordar alguns detalhes dessa controvertida operação militar norte-americana de apoio ao golpe de 64. A videopalestra foi transmitida ao vivo, com o recurso do Twitcam, e muitas perguntas puderam ser respondidas na hora. Como prometido, respondo, agora, as perguntas que não puderam ser abordadas durante os 40 minutos da transmissão. Agradeço, mais uma vez, a grande audiência, a qualidade das perguntas e ao Bruno Leal do Café História, que deu a idéia e cuidou de tudo. A gravação pode ser assistida na seção Vídeos do blog. Logo teremos outras videopalestras.

Vamos às perguntas:

1. Welton (CE): gostaria de saber se João Goulart tinha algum contato mais estreito para que houvesse todo esse pânico estadunidense e qual seria o tipo de relação entre Brasil, URSS, Cuba na época.

Carlos Fico: João Goulart não tinha vínculos com os comunistas. Ele tornou-se popular desde que atuou com muita habilidade junto aos trabalhadores durante o governo Vargas na montagem da corrente política conhecida como trabalhismo. O pânico norte-americano a que você se refere decorria da decisão dos EUA de não admitirem uma “segunda Cuba” no continente e, por isso, avaliações equivocadas (como a de que Goulart levaria ao comunismo) foram admitidas pelo governo da grande potência.


2. Ana Paula Santana (Santo André/SP): Se a operação Brother Sam realmente acontecesse, será que a URSS mandaria ajuda? E, caso mandasse, ajudaria “explicitamente” com soldados ou apenas com dinheiro?

CF: Em História nós tentamos evitar o condicional contrafático (“se isso”, “se aquilo”), mas, em termos de especulação, caso houvesse o desembarque de tropas, provavelmente a URSS faria muito “barulho”, pelo menos em termos de declarações no contexto da diplomacia. A hipótese do desembarque é tão chocante que fica difícil prever um desdobramento.


3. Arlindo Montenegro: Nos que vivemos naqueles dias, já sentíamos que a ação dos comunistas no Brasil mantinha Jango como refém. O propósito declarado em tantos documentos, jornais de esquerda, livros, era de colocar o Brasil na órbita soviética. Professor, os militares agiram errado aceitando a “ajuda” americana, naquele instante, naquele cenário mundial?

CF: Em História, nós tentamos evitar o julgamento moral (“certo” ou “errado”), mas aceitar o apoio norte-americano foi um “erro”, pelo menos do ponto de vista estritamente militar (já que a Brother Sam foi desnecessária). Além disso, do ponto de vista político, sua descoberta prejudicou a imagem de todos os envolvidos. O próprio embaixador Gordon, em 1964, dizia que, no futuro, quando a operação fosse descoberta, a repercussão seria ruim. Entretanto, é preciso entender que muitos militares e civis estavam genuinamente convencidos de que o Brasil corria o risco de se tornar comunista. Isso não justifica o golpe, nem ações como a do general Ulhoa Cintra, mas ajuda a entender aquela época.


4. Ana Paula Teixeira (Rio de Janeiro): A Operação Brother Sam incluía ações ou planejamento de ações em outros países da América Latina? Li uma vez uma entrevista com um cineasta chileno falando do ressentimento pelo apoio dos EUA ao golpe no Chile (que foi em um fatídico 11 de setembro de 1973) cedendo caças (aviões) que ajudaram no bombardeio ao Palácio de La Moneda!

CF: Não a Brother Sam destinava-se apenas ao Brasil. Curiosamente, dois anos depois, os EUA tentaram evitar um golpe semelhante na Argentina, em 1966. Mas a decisão de não aceitar “outra Cuba” prevaleceria, como no exemplo do Chile que você menciona.


5. Andreia Pantoja: Será que o professor poderia falar um pouco mais da ajuda do Brasil no golpe na República Dominicana?

CF: Em 1965, o governo brasileiro do marechal Castelo Branco, já à frente do regime militar, atendeu à solicitação dos EUA e enviou tropas para a invasão da República Dominicana contra um movimento de restauração da presidência de Juan Bosch. Os Estados Unidos, tendo como desculpa a prevenção ou o combate ao comunismo, sentiam-se no direito de intervir militarmente em um país latino-americano. A participação do Brasil, nessa ação militar, permitiu que a Casa Branca sustentasse que a invasão contava com o apoio da Organização dos Estados Americanos. Mas, exceto a Costa Rica, o apoio à invasão proveio apenas de ditaduras: Brasil, Paraguai, Guatemala e Honduras.  Era como se Castelo branco estivesse “pagando” o apoio de uma anos antes. Veja documento que descreve o embarque de tropas em um twitter de janeiro: “Leia relato dos EUA do embarque de tropas brasileiras para República Dominicana em 1965 e pouso de emergência em Trinidad http://migre.me/3PZxx


6. @airtondefarias: A falta de resistência de Goulart teria sido motivada pelo risco de invasão dos EUA com a Operação Brother Sam.

CF: Airton, só para deixar mais preciso: o presidente Goulart foi avisado pelo San Tiago Dantas – por solicitação do Afonso Arinos de Melo Franco – sobre a decisão norte-americana de apoiar os golpistas, mas ele não soube da Operação Brother Sam especificamente.


7. Rainer Sousa: a Operação Brother Sam não foi rearticulada ou reavivada com a ação da guerrilha?

CF: Quando a luta armada no Brasil se avolumou, em 1969, o governo norte-americano, já sob a orientação de Richard Nixon e Henry Kissinger, havia feito uma avaliação crítica da “excessiva proximidade” anterior com a ditadura brasileira. A decretação do AI-5 chocou o Congresso e a opinião pública dos EUA. Uma campanha internacional de denúncia da tortura também colaborou para piorar a imagem do Brasil. Então, nesse momento, embora Nixon e Kissinger não tenham “abandonado” a ditadura brasileira (até porque era época do “milagre econômico” e os EUA precisavam fazer negócios com o Brasil), eles buscaram uma relação menos próxima e algo como a Brother Sam tornou-se impensável.


8. Natália Reis: Havia uma tendência peronista no governo Goulart?

CF: Não. O trabalhismo brasileiro, de que Goulart foi um dos líderes, distinguia-se muito da corrente argentina, aliás multifacetada ao extremo (há diversos peronismos). A acusação de que ele buscava implantar no Brasil uma “república sindicalista” fazia parte da campanha de desestabilização de seu governo e, na verdade, ninguém saberia definir o que seria isso.


9. Gabriel Carvalho: Tenho uma pergunta (sugestão) para o professor Carlos. Gostaria que ele comentasse este artigo do jornal eletrônico Mídia Sem Máscara que traz novas provas de que os EUA não tiveram participação física no Golpe de 1964.

CF: Li o artigo, mas ele não apresenta evidências empíricas sobre o que afirma. A participação dos EUA no golpe de 64 foi bastante efetiva. Além da Operação Brother Sam, a arrogância da embaixada norte-americana, naquele momento, chegou ao ponto de enviar o embaixador Lincoln Gordon em uma viagem para “colher os louros da vitória” no Rio Grande do Sul, estado natal de Goulart. A viagem foi filmada e, brevemente, divulgaremos o documentário no Brasil Recente.


10. Wasington Neves (@wasmneves): O senhor sabe qual foi o destino dos “generais do povo” no pós golpe de 1964?

CF: Os generais mais ligados a Goulart eram conhecidos dessa maneira. A maioria foi punida pelos vitoriosos de 1964 ou caiu no ostracismo e foi para a reserva.


11. Nathana Reis (@nathnareis): Por que demorou tanto tempo pra alguém falar sobre essa operação?

CF: A Operação Brother Sam era secreta, ninguém sabia, só o embaixador norte-americano no Brasil, Lincoln Gordon, e as autoridades de primeiro escalão do governo norte-americano, além de poucos militares brasileiros, como o general Ulhoa Cintra. Os documentos sobre a Operação Brother Sam foram para o arquivo do presidente da época, Lyndon Johnson, na cidade de Austin, no Texas, e foram descobertos em 1976 pela estudante Phyllis Parker.

12. Ale Brito (@Alex_Brito): Houve participação de anarquistas na resistência contra o golpe?

CF: Não. Não houve qualquer tipo de resistência significativa.


13. Carlos Tadeu (@cstadeu): A ação não foi um mal necessario, visto que o Brasil poderia ficar mais próximo da URSS?

CF: Não me parece. Não havia esse risco, de modo algum. As propostas de Goulart não eram radicais, mas os poucos benefícios que trariam para os mais pobres assustaram a elite e a classe média. No fundo, essa é a razão do golpe.


14. Márcia Cunha Ferreira: E o povo? Através de plebiscito optaram por regime presidencialista, mesmo com as articulações de Brizola que propôs regime parlamentarista pra abafar os ânimos da oposição militar que acusava Jango de ser comunista, por estar em viagem à china. Então porque não houve resistência por parte do povo? Por conta da mídia? A mídia nesta época já tinha todo o poder de manipulação como o tem hoje?

CF: Goulart tinha altos índices de popularidade na época do golpe, mas isso não levou a uma resistência popular. Também é preciso lembrar que havia uma grande campanha contra ele, com o apoio da imprensa, da Igreja e da classe média. A mídia sempre influencia, claro, e, em 1964, praticamente todos os jornais apoiaram o golpe.


15. Alessandra Morais: Por que João Goulart se rendeu tão rapidamente? Você acha que houve acordo entre ele e a direita?

CF: Não houve acordo com a direita. Acho que ele não resistiu por três razões: para evitar derramamento de sangue (teria de mandar metralhar as tropas que vinham de Juiz de Fora), por falta de apoio militar (as tropas dos generais mais próximos aderiram aos golpistas) e porque foi avisado por San Tiago Dantas do apoio dos EUA.


16. Egon Felipe Pessoa: Quais seriam as consequências geradas pela Operação Brother Sam para a atual realidade brasileira, levando-se em consideração as dificuldades de abertura dos arquivos da ditadura militar brasileira até hoje? A Operação Brother Sam teria alguma influência nessas dificuldades de acesso aos arquivos militares?

CF: Não, a Operação Brother Sam foi uma ação norte-americana e seus documentos estão no National Archives and Records Administration, em College Park, perto de Washington, e também na Biblioteca Presidencial de Lyndon Johnson, em Austin (Texas). Os documentos sigilosos, tanto nos EUA como no Brasil, são liberados aos poucos. Por isso, as descobertas de Phyllis Parker, em 1976, foram completadas pelas minhas pesquisas, em 2004. Certamente, novos documentos surgirão nos próximos anos. Para pesquisar nos EUA basta ir lá (ter um visto comum já basta)

17. Fernanda Magalhães: Pode-se dizer que houve influencia norte-americana na educação brasileira durante a Ditadira Militar?


CF: Houve sim. Algumas das principais reformas educacionais brasileiras nos anos 1970 (como a universitária e a da pós-graduação) inspiraram-se nos modelos norte-americanos.

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