14 de abril de 2011

A demanda social pelos temas da ditadura

A minissérie da Globo de 1992 abordava o período da ditadura
Rio de Janeiro


A novela Amor e revolução, atualmente exibida pelo SBT, é bastante frágil do ponto de vista estético, reproduz estereótipos e comete “erros” históricos que poderíamos listar aqui. Mas o notável é sua existência em si, expressão do interesse social que os temas relacionados à ditadura militar despertam. Isso nem sempre foi assim. Lembro-me de que, em 1994, quando do registro dos 30 anos do golpe de 64, poucas pessoas foram atraídas pelos eventos então programados.


Em 1992, a minissérie da Globo, Anos Rebeldes, também foi ambientada no período da ditadura militar, mas a abordagem foi mais "delicada", por assim dizer. As cenas fortes de violência, que a novela do SBT mostra hoje, são  o indicativo de alguma mudança. Na verdade, aos poucos a sociedade brasileira vai despertando para o fato de que tivemos um período de muito arbítrio e violência durante o regime militar. Não devemos esquecer que, na época, o regime valeu-se de rigorosa censura política e de uma propaganda política idílica, ocultando, cuidadosamente, as barbaridades que perpetrava.

Isso começou a mudar no governo de Fernando Henrique Cardoso, quando foi decretada, em 1995, uma lei que reconheceu como mortas as pessoas desaparecidas durante a ditadura. A morte de mais de 100 “desaparecidos” foi imediatamente reconhecida e uma comissão foi criada para examinar outras denúncias.

A partir de então, certos temas passaram a ter maior repercussão na mídia, alguns em uma chave negativa, já que o pagamento de indenizações às vítimas foi questionado por uma parte da opinião pública, especialmente a fórmula adotada para seu cálculo, que levou ao pagamento de valores excessivos.

Outras questões, por seu caráter dramático, chamaram a atenção para a violência da repressão. Refiro-me às buscas dos restos mortais dos militantes que foram mortos durante a chamada “Guerrilha do Araguaia”, tentativa de levante popular na região central do Brasil, na primeira metade dos anos 1970. O Exército brasileiro, que reprimiu a guerrilha, até hoje não fornece informações sobre a localização dos corpos das vítimas e alguns familiares acalentam a esperança de que documentos sigilosos possam trazer essa informação. Assim, a luta pela abertura dos documentos da ditadura, que em um primeiro momento mobilizava apenas alguns poucos historiadores, passou a ser assumida por outros setores e a ter repercussão na imprensa. Infelizmente, dificilmente alguém deixou por escrito esse tipo de informação.

Desse modo, paulatinamente, foi aumentando o interesse pelos temas da ditadura. Eu diria que o debate sobre as indenizações, a questão da abertura dos arquivos, a contestação da Lei da Anistia de 1979 e a recente proposta de instalação de uma Comissão da Verdade são os tópicos que mais chamaram a atenção para o assunto.

O conhecimento histórico certamente tem um papel importante a cumprir no que diz respeito a essa demanda por conhecimento, por memória. Mas o alcance da pesquisa histórica é muito limitado: ela não tem a capacidade de mobilização que, por exemplo a TV possui. Portanto, é fundamental que a própria sociedade discuta seu passado, confrontando testemunhos, reconstituindo sua memória, ainda que seja através de uma perspectiva algo estereotipada como a da novela do SBT.

Falta, entretanto, um amplo debate político sobre aquele período. Por isso, é tão importante apoiarmos a proposta governamental de constituição de uma Comissão da Verdade, que ora tramita no parlamento brasileiro. Não é uma iniciativa desprovida de riscos, já que muitas vozes conservadoras têm levantado a proposta de que, havendo a comissão, também sejam debatidos o que eles identificam como “os dois lados” – como se as vítimas já não tivessem sido suficientemente julgadas. Mas devemos correr o risco porque essa espécie de “catarse” é indispensável: na verdade, tendo em vista o modelo brasileiro de transição pactuada, a Comissão da Verdade não é apenas uma opção, uma alternativa entre outras: é o único caminho que nos restou.

3 comentários:

  1. OLÁ CARLOS.

    SOU SEU MAIS NOVO SEGUIDOR.

    SEU TEXTO É ABSOLUTAMENTE PROFISSIONAL E PEDAGÓGICO, ABORDANDO TEMA QUE , DE FORMA INTERMITENTE VOLTA A MÍDIA, COMO A EXCELENTE NOVELA DA RECORD, "AMOR E REVOLUÇÃO".

    PORÉM, PERMITA-ME NÃO ELEVAR MAIS AINDA MINHA PRESSÃO ARTERAIL AO PENSAR NAQUELES ANOS DE EXCEPCIONALIDADE DEMOCRÁTICA, E PROPONDO-LHE UMA ALTERNATIVA.

    ESTOU LHE CONVIDANDO PARA CONHECER MEU BLOG DE HUMOR:

    “HUMOR EM TEXTO”.

    A CRÔNICA DESTA SEMANA É:

    “DADINHA, DADIVOSA”

    OH, EXEMPLO DE MULHER! (RS).

    É DE HUMOR ...E DE GRAÇA

    UM ABRAÇÃO CARIOCA.

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  2. Excelente texto! Simplesmente fantástico.

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  3. A luta contra o esquecimento tem que fazer parte sim do dia a dia da sociedade brasileira, para que este fato lamentavelmente obscurecido até hoje, seja desmascarado e a população tenha acesso a sua história!Gostei muito de sua analise!

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