20 de maio de 2011

A luta contra a hiperinflação

Livro aborda com leveza tema árido

Rio de Janeiro - Por Carlos Fico


“Países fracassam”. A frase que afligiu a jornalista Miram Leitão é do embaixador Rubens Ricupero: o Brasil realmente esteve à beira do fracasso total quando conviveu, recentemente, com a hiperinflação. Em seu livro Saga brasileira: a longa luta de um povo por sua moeda, Miram Leitão reconstitui, com muita qualidade jornalística e histórica, o incrível processo de combate à inflação, de negociação da dívida externa e de aprimoramento das instituições brasileiras responsáveis pela moeda.

Descrito assim o livro poderia parecer monótono, em função da aridez das questões, que muitos economistas tornam incompreensíveis quando usam o “economês”. Mas isso não acontece com Saga brasileira, cuja leitura é muito agradável, já que Miriam Leitão explica com clareza e simplicidade assuntos extremamente complexos.

Algumas passagens são reveladoras de aspectos essenciais da história brasileira. A descrição das reuniões do Conselho Monetário Nacional, nos anos 1970/1980 – órgão que praticamente substituiu o Congresso no que diz respeito ao orçamento e às decisões de gastos –, torna quase palpável a noção de patrimonialismo. O Conselho, na ditadura militar, radicalizou algo que havia surgido no regime autoritário anterior, o Estado Novo do final dos anos 1930. Representantes dos bancos, das indústrias, os grandes comerciantes, exportadores e fazendeiros decidiam quanto seria emprestado a eles próprios, quais subsídios beneficiariam a eles mesmos, quanto de isenção fiscal favoreceria aos seus: “Ali, instalados no coração da emissão primária de moeda, os ricos contratavam a inflação, que os enriqueceria ainda mais”.

As partes mais importantes do livro são, como não poderia deixar de ser, a descrição dos planos econômicos que tentaram debelar a inflação, a análise do processo de negociação da dívida externa e a reconstituição da lenta construção institucional que envolveu a criação de órgãos – como a Secretaria do Tesouro – ou a aprovação de leis fundamentais, como a Lei de Responsabilidade Fiscal. No caso dos planos econômicos, destaca-se a violência cometida por Fernando Collor, que confiscou a poupança: é essencial relembrar aqueles momentos terríveis, que afetaram dramaticamente a vida das pessoas. Mas Miriam Leitão também presta um grande serviço ao trazer à tona fatos bastante desconhecidos, embora tão importantes, como foi o criativo processo de negociação da dívida externa brasileira, que teve em Pedro Malan um personagem central. Vale à pena conhecer os detalhes dessa negociação, a proposta inspirada no Plano Brady de trocar a dívida por títulos, a estratégia secreta brasileira de comprar títulos do Tesouro norte-americano e a negociação do acordo com o Senado brasileiro.

A atuação discreta dos negociadores da dívida externa brasileira chama a atenção para um personagem importante do livro de Miriam Leitão: são os injustiçados técnicos, burocratas, “tecnoburocratas”, expressão que possui uma forte carga pejorativa. Mas a verdade é que o Brasil deve muito a uma certa elite de funcionários públicos de alto nível, que, ao longo de sucessivos governos – alguns dos quais bastante instáveis – apresentaram e conseguiram em algum momento aprovar propostas racionalizadoras de aprimoramento institucional. Esse foi o caso, por exemplo, do fim da chamada “conta-movimento”, um mecanismo que permitia ao Banco do Brasil gastar irresponsavelmente porque sempre seria coberto pelo Banco Central. É muito interessante ver, em Saga brasileira, como a permanência desses técnicos e de seus projetos ao longo de diversos governos possibilitou um processo continuado de aprimoramento institucional e de superação de problemas imensos.

As pessoas comuns também são um personagem importante do livro, sobretudo as mulheres, donas de casa que conseguiram administrar com sofisticação o caos da economia doméstica, com os preços mudando a cada dia, com os planos econômicos estabelecendo regras confusas, “tablitas”, cálculos infernais. Além disso, a convivência com o machismo da sociedade brasileira, de homens, “chefes de família”, que cobravam-nas com a frase humilhante: “o que você fez com meu dinheiro?”

Outros aspectos também recomendam o livro, como a descrição do processo de privatizações, inclusive por causa da constatação de que nem todo o setor privado era favorável às privatizações, já que muitos se beneficiavam dos baixos preços, por exemplo, do aço estatal brasileiro. Enfim, muito se aprende com Saga brasileira. O ensinamento principal é o de que a estabilização é uma conquista brasileira. Não há mais ambiente político para aventuras. Ademais, não deixa de ser supreendente e emocionante constatar que, afinal, foi possível superar o caos da hiperinflação, que os mais jovens não conheceram. Sorte a deles.

4 comentários:

  1. Um livro que não pode faltar em nenhuma biblioteca deste País!

    Bravo a nossa escritora, que outros títulos, de sua autoria, nos cheguem sem demora!

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  2. RENATO BEBEDOURO SP23 de maio de 2011 22:54

    CREIO EU QUE O CONTROLE DA CRISE SOMOS NOS CLASSE MEDIA BAIXA PORQUE É SÓ TER CRISE NO PAIS QUE JA CORREM CORTAR GASTOS E DEMITIR EM MASSA COM ESSAS DEMISSÕES EM MASSA É QUE ESQUENTA O MERCADO INTERNO FAZENDO GIRAR A ECONOMIA PORQUE NA VERDADE OS FUNDOS SÃO PARA SEGURAR AS EMPRESAS GRANDE ABRAÇO MIRIAM

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  3. Além de todos os méritos do livro, super bem apontados pelo autor, queria apontar mais um: ele mostra como o comportamento do povo brasileiro foi fundamental para vencermos a inflação. Que a mensagem fique de alerta para as próximas gerações.

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  4. Parabéns pelo livro Miriam, estou ansioso para apreciar mais uma bela escritura sua, assim como todas as suas escritas, parabéns mesmo.. Te acompanho nos tele-jornais e adoro seus comentários, você é ótima: Miriam, acesse meu blog e de uma olhadinha, tenho uma matéria interessante a respeito da Super Televisão, é muito interessante essa tecnologia: http://edivaldodecarvalho.blogspot.com/

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