31 de maio de 2011

Sequestro da história



Collor e Lindberg se cumprimentam na posse no Senado

Carlos Fico
Rio de Janeiro


Um dos pontos turísticos de Brasília é um corredor, o “Túnel do Tempo”, passagem subterrânea que liga o plenário do Senado aos gabinetes dos senadores. Lá ficam expostos bustos e painéis retratando momentos da história do Brasil. O espaço, recentemente, passou por uma reforma e os antigos painéis foram refeitos. Um deles sumiu: o que assinalava o impeachment do ex-presidente (e hoje senador) Fernando Collor de Mello.

Questionado sobre o motivo da retirada do painel, José Sarney, presidente do Senado, disse que o afastamento de Collor não tinha grande importância: “Eu não posso censurar os historiadores que foram encarregados de fazer a história. Mas acho que talvez esse episódio seja apenas um acidente que não devia ter acontecido na história do Brasil”. Para ele, os fatos que marcaram o impeachment não foram importantes e “de certo modo não deveriam ter acontecido”.

Seria interessante se pudéssemos eliminar alguns dos piores momentos da história do Brasil. Entre os mais recentes, eu escolheria pelo menos dois (ambos envolvem o Senado): a declaração de vacância da presidência da República, em 1964, feita pelo presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, quando Goulart ainda estava no país – espécie de versão parlamentar do golpe – e a posse do senador Sarney como presidente da República, em 1985, que inaugurou um dos governos mais desastrados da história do Brasil recente. Há muitos outros momentos: o leitor pode colaborar indicando suas preferências.

Entretanto, não é possível eliminar o passado. A retirada do painel certamente decorre do desconforto causado pela presença de Collor no Senado, justamente a casa que o puniu em 1992 suspendendo seus direitos políticos (Collor renunciou momentos antes da votação do impeachment).

Esse “desconforto” assumiu um ar burlesco quando o jovem senador pelo Rio de Janeiro, Lindberg Farias, cumprimentou Collor pela primeira vez no plenário do Senado durante a cerimônia de posse em fevereiro passado. Como se sabe, Lindberg tornou-se conhecido justamente por ter liderado, como “cara-pintada”, a campanha para afastar Collor.

Apesar de mais esse ato equivocado de José Sarney, o afastamento de Collor jamais será esquecido. O episódio foi importante porque demonstrou a indignação brasileira com a corrupção. Mais importante ainda, sinalizou que a democracia brasileira estava suficientemente forte – apesar dos 21 anos de regime militar – para suportar, sem maiores sobressaltos, a deposição constitucional do primeiro presidente da República eleito diretamente desde a eleição de Jânio Quadros em 1960.

2 comentários:

  1. Guilherme de Souza Zufelato31 de maio de 2011 14:29

    Olá Carlos,

    Concordo com você e penso que este artigo vai justamente de encontro ao que propõe aos leitores do blog na atual enquete. O texto (então sobre o "sumiço" de um dos antigos painéis), afinal de contas, vem bem a calhar para pensarmos também se o fato de eliminar referências à Didatura Militar, de monumentos, ruas, etc., basta. Num exemplo tosco, penso que isso (e serve para ambos os casos) é o mesmo que "eliminar" ou "limpar do mapa" um cemitério, o que, como sabemos, de modo algum faria a humanidade menos sofredora das perdas indeléveis de seus entes queridos. Antes uma referência, boa para a memória e constituição de uma identidade que não nega o passado (por pior que seja), que nenhuma.

    Em todos esses casos, penso que o "problema" é que o olhar constrange, de modo ou outro, posto que faz lembrar... (às vezes acerca de um passado e também de um futuro comum).

    Na enquete, por exemplo, votei NÃO. Mas, ao que tudo indica (pelo que vejo, até então, 63% das pessoas que votaram, votaram SIM, que devem ser eliminadas), parece que grande parte das pessoas não pensam muito diferente de José Sarney. (Exagero meu?!) Ou será que neste caso, no caso da enquete, a problemática é outra, que não aquela mesma que levou Sarney a "sumir" com o painél?

    Parece-me, por fim, que o que ocorre é - também aqui um equívoco - uma confusão, quase uma mistura, entre dois termos e seus respectivos significados: entre referenciar e reverenciar.

    De Ribeirão Preto-SP, um abraço,
    Guilherme

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  2. Talvez o próprio Sarney não suporte lembrar daquela "história que temos vivido". Para aquele sujeito que carrega o passado como um fardo sobre seus ombros, a melhor história talvez seja essa que ele defende: aquela que esconde a sujeira debaixo do tapete.

    Seria válido apontar ao presidente do nosso senado outra opção: encarar, de cara limpa, o passado fresco que a memória ainda conserva. Mas não acredito que a limpeza esteja entre suas maiores qualidades.

    Devem ter estudado no mesmo colégio que (ou cometido deslizes parecidos com) o nosso famigerado bigodudo os políticos que tiveram a cara de pau, nesta terça feira, de propor a exclusão da história contemporânea brasileira dos livros didáticos de ensino médio. http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=16684

    Parafraseando e alterando a frase de Otávio Mangabeira: "Pense num absurdo", estão aí certos políticos para que sempre haja um precedente.

    Complementando o que disse acima o Guilherme: se dos cemitérios os mortos pudessem levantar, sacudir a poeira, vestir novas roupas e assombrar os vivos, a comparação com o passado seria perfeita.

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