13 de junho de 2011

Carreira de pesquisador em História


Rio de Janeiro
Carlos Fico

O(a) jovem que deseja tornar-se um(a) pesquisador(a) em História deve preparar-se para enfrentar um longo percurso.

O primeiro passo, naturalmente, é ingressar em um bom curso de graduação (há diversos rankings que facilitam a escolha). O bacharelado em História é uma etapa difícil: a visão frequentemente tradicional que se tem da História no ensino médio tende a ser “desconstruída” na universidade, o que costuma gerar crises epistemológicas nos(nas) jovens candidatos(as) a historiador(a). Sempre digo a meus(minhas) alunos(as) que o principal não é cumprir as disciplinas, mas integrar-se em grupos de pesquisas, fazer iniciação científica, atuar como monitor. Para mim foi muito importante aproximar-me dos(as) professores(as) que admirava, pedir orientação insistentemente: é muito comum que os(as) professores(as) universitários(as) sejam pouco demandados(as) e, por isso, acabam sendo mal aproveitados(as).

No final da graduação, é importante que a monografia de bacharelado seja bem escolhida. O primeiro exercício de pesquisa não pode ser aborrecido.

Há uma espécie de “taylorização” da formação do pesquisador: emenda-se o bacharelado no mestrado, feito rapidamente em dois anos, e logo se inicia o doutorado, às vezes até antes da defesa da dissertação de mestrado. Isso é ruim, já que nossa profissão exige amadurecimento, erudição, leituras, algo que demanda tempo. No passado, uma dissertação de mestrado ou uma tese de doutorado podia ser feita ao longo de 5, 6 anos, ou muito mais. Mas não adianta pensar em termos ideais. Hoje há muita competição. Por exemplo: quando ingressei na carreira do magistério superior, em 1985, eu nem tinha o mestrado, era apenas um especialista (pós-graduação lato sensu). Comecei como “Professor Auxiliar”. Hoje em dia, nenhuma universidade contrata professores auxiliares porque, para atuar na pós-graduação, é preciso ser doutor e praticamente todos os departamentos têm cursos de pós-graduação.

Portanto, é preciso fazer o mestrado rapidamente, nos dois anos regulamentares, de preferência com uma bolsa do CNPq ou da CAPES, o que depende da classificação no processo de seleção. É essencial, portanto, fazer uma boa seleção. Isso resulta, em geral, de duas coisas: um bom projeto de pesquisa e, eventualmente, ter atuado na graduação do departamento em alguma iniciação científica. Um bom projeto de pesquisa é aquele que define com precisão um problema e indica a existência de fontes documentais interessantes. Um bom roteiro para a elaboração de projetos de pesquisa pode ser visto nos editais de seleção do meu programa de pós-graduação, o PPGHIS da UFRJ.

O mestrado é uma correria e, nesse sentido, até mais difícil do que o doutorado. O(a) aluno(a) vem da graduação, muitas vezes sem experiência de pesquisa e, em dois anos, tem de fazer uma dissertação. Como no primeiro ano é preciso cumprir, em geral, quatro disciplinas, a dissertação só é redigida mesmo no segundo ano.

No doutorado as coisas são mais tranquilas, em função da experiência adquirida e do prazo maior (quatro anos). O único problema é que você terá de fazer uma tese de doutorado! É um trabalho que pressupõe originalidade. O mais importante, entretanto, é ter em mente que a tese costuma “marcar” o autor: quando você fizer um concurso para tornar-se professor, por exemplo, é certo que sua tese será considerada.

Depois da tese, o passo final é a busca de um emprego. Muitos recém-doutores só vão se inserir no mercado nesse momento, tendo vivido de bolsas até então. É a realidade hoje em dia. Como disse, no passado, muitos professores se doutoravam depois de anos de atuação no magistério. Seja como for, há algumas alternativas. Uma delas é trabalhar como "Professor Recém-Doutor" em algum departamento ou programa de pós-graduação, algo que, em geral, depende de uma inserção prévia em grupos de pesquisa. Outra hipótese é se tornar "Professor Substituto" (dando aulas na graduação no lugar de um professor aposentado ou falecido antes do concurso para professor efetivo). O processo de seleção para professor substituto é mais simples do que o tradicional concurso de provas e títulos para professor efetivo.

O concurso para se tornar professor do magistério superior federal (efetivo) é bastante pesado. Há provas de aula, de arguição do currículo e escrita. Usualmente, são muitos os candidatos. Como já disse, em geral os concursos são para “Professor Adjunto”, isto é, aquele que já é doutor. Dificilmente se contrata um "Professor Auxiliar" (especialista) ou "Assistente" (mestre). Depois de oito anos, o Adjunto pode progredir para "Professor Associado". Para chegar ao último patamar da carreira, como “Professor Titular”, é preciso fazer outro concurso, que pode exigir uma tese ou uma conferência, dependendo da universidade.

Se tudo der certo, são quatro anos na graduação, dois no mestrado e quatro no doutorado, isto é, dez anos apenas para começar a carreira. Boa sorte! E paciência...

Leia o memorial e a conferência de Carlos Fico (concurso para Professor Titular de História do Brasil da UFRJ concluído em 7 de junho de 2011).

10 comentários:

  1. Caro Carlos Fico, seu artigo é muito interessante e muito bom. Diria que é um ótimo caminho para se seguir da forma que está aí redigido para os "furutos historiadores". Porém, talvez um pouco magoado com a profissão de historiador, creio que não é tão simples como parece nem mesmo se utilizarmos a expressão "longo percurso". Percebo que esta contagem de "anos de estudo" para começar a carreia é simplesmente virtual, pois esbarra em muitas coisas como, por exemplo, a boa vontade dos professores em orientar. Dificilmente um professor vai orientar um aluno de primeiro ano, pois segundo eles os alunos não têm "base alguma" ou "não sabem o que quer". Os grupos de pesquisa sérios são excassos e esbarram sempre na falta de material, bibliografia especializada, falta de incentivo e interesse por parte do governo com grupos de pesquisa na área de humanas, e por aí vai. Pular da graduação para o mestrado? Desculpe-me, talvez não concorde, mas mesmo existindo os exames de pós-graduação, eles ainda têm um ar de puxa saquismo à brasileira, um quê de favoritismo, exemplos são muitos e nem vou citar. Bolsas de pesquisa? Se uma iniciação científica na área de História pela Fapesp é difícil, não quero nem imaginar no mestrado, onde a lista de "pedintes" é bem maior. Às vezes parecemos miseráveis pedindo pelo amor de Deus para o governo investir em nós e em nossas pesquisas... Creio que a realidade dos cursos de Humanas é bem mais grave do que se imagina. No fundo nossa disciplina está sendo relegada em favor de cursos técnicos e tecnológicos, pois falta mão-de-obra de todo tipo em nosso país. Por não conseguir entrar no "circuito de pesquisadores de história", o profissional é obrigado à atuar em uma rede de ensino falida onde "história" é apenas uma matéria com utilidade nunca entendida. A realidade é triste, e se possível, gostaria, se o Sr. pudesse, discutir isso em um artigo futuro aqui no blog. Muito obrigado, abraços.

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  2. Angélica Bersch Boff15 de junho de 2011 13:15

    Professor, lendo o título "...carreira de PESQUISADOR EM HISTÓRIA" esperei que falasse nas VÁRIAS possibilidades de pesquisa, e não apenas de uma possibilidade, dentro da academia.

    Também estranhei pois PESQUISADOR não é necessariamente PROFESSOR. A pessoa pode ser as 2 coisas ao mesmo tempo, mas são 2 trabalhos muito diferentes...

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  3. Não acredito que a realidade seja "triste". Ela é, por certo, bastante desafiadora. A carreira de pesquisador não é a única opção para um historiador. Há o sempre bem vindo e também compensador magistério, que abrange os níveis de ensino superior, médio e fundamental. Mas é fundamental destacar que tanto pesquisadores renomados quanto professores bem sucedidos têm uma característica em comum: são estudiosos.

    O caminho é árduo. Contudo, percorrê-lo com o espírito sempre renovado por novos e variados estudos, ou seja, não sentir-se acomodado, é o "catalisador" mais apropriado.

    Assim, quem não é naturalmente, pode tornar-se talentoso. Quando talento, determinação, inspiração e transpiração encontram a mesma morada, os atalhos são abertos. Por fim, há sempre que se considerar uma pitada de acaso em tudo aquilo que perseguimos.

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  4. Prezado, excelente artigo. Eu cumpri 11 anos, pois fiz graduação em outra area. A iniciação cientifica conta muito mesmo! Depois, cada um encontra facilidades e dificuldades proprias de seu percurso. Hoje ja passei num concurso e estou contente, mas quando olho para tras, não sei se faria de novo o percurso. Mas também, não desanimo os jovens que estejam começando ou no meio do caminho. Cada um tem a sua experiência e a atividade de pesquisa e ensino é muito gratificante (mesmo quando, a pessoa encontra um lugar, para começar, não exatamente como gostaria). Vou mostrar o seu texto para alunos! Obrigada. Silvia.

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  5. Caroline Cantanhede16 de junho de 2011 14:27

    Horizontes muito estreitos para o historiador no Brasil. O magistério no ensino fundamental e médio é desalentador. Na academia, é para pouquíssimos, onde nem sempre talento e esforço é o que realmente pesam. Não há lugar para pesquisador, pois esta atividade é associada diretamente à academia. É indigno uma pessoa passar tantos anos dependente de bolsa, cujos requisitos são muito rigorosos, a quantidade é insuficiente e os valores insatisfatórios. E para os que tentam não depender desse tipo de recurso, mas que também se sentem no direito de se aprimorar, a academia não é nem receptiva, nem compreensiva para com os trabalhadores, pois está voltada exclusivamente para a formação de profissionais tardios. Não recomendo, hoje, a graduação. O curso é muito interessante - sou uma historiadora apaixonada pela profissão - mas de difícil colocação no mercado. Frustrante ver meus amigos, historiadores tão talentosos, recorrer à uma segunda formação para sobreviver.

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  6. é professor, faltou ser um pouco mais realista...

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  7. Guilherme de Souza Zufelato17 de junho de 2011 17:48

    Creio que todos que leram e/ou que comentaram este texto, deveriam também dar uma lida, como quem não quer nada, nos documentos disponibilizados ao final - de modo muito sutil, quase como uma nota de rodapé; o "Memorial", por exemplo, redigido por Fico (documento que data de 2011, portanto atualíssimo), é um excelente exemplo de como é possível, sim, uma trajetória acadêmica algo como a que ele descreveu no artigo: trata-se de uma narrativa que conta sua própria carreira profissional acadêmica.

    Objetar-se-á que, enfim, ninguém afirmou que não era possível... Certo. Então o quê? Sinceramente, não compreendo o motivo pelo qual algumas pessoas (brasileiros!) sempre re-afirmam que algo do tipo é "ideal demais" ou "fora da realidade" para o brasileiro, entre outras coisas. Querendo, vale a pena tentar, se implicar etc., e tudo correrá bem, com certeza. Agora, sendo o problema outro, como o baixo valor recebido pelos bolsistas, quer seja na iniciação científica, no mestrado ou no doutorado... ora, isto é outro problema. Outros 500, como se diz.

    Se se seguir o texto como um "roteiro" ou um caminho a ser enfrentado, desde a graduação, período em que Fico até mesmo ressalta a importância de o estudante não apenas cumprir com as disciplinas obrigatórias, mas também iniciar-se em grupos de pesquisa, aproximar-se de professores que admira, se esforçar na feitura de uma iniciação científica (que, como o nome indica...), o estudante terá "tudo" para que tudo dê certo, conforme o planejado. Quer dizer, se planejado.

    Claro está que o fator sorte tem lá seu peso. Mas às vezes é correto um velho ditado que afirma ser a sorte produto próprio daquele que corre atrás (brasileiros!), que se implica, e por isso "faz a sorte acontecer". Creio que basta querer estar no lugar certo, na hora certa e saber ouvir, muito mais que falar... mas isso, já é outro velho ditado, de há muito sabido por todos. (Então o quê?)

    Excelente artigo!

    De Ribeirão Preto-SP, um abraço,
    Guilherme

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  8. Eu sinceramente não entendo porque algumas pessoas insistem em rotular "tipos de pessoas" numa já desgastada classificação de "brasileiros!" e "não brasileiros". Ser brasileiro significa muito mais que essa simples conotação de que "idealizamos" ao invés de lutar. Os brasileiros são fortes, um povo batalhador, mas infelizmente no terreno político não têm uma grande tradição por uma questão de evolução histórico-política. Qualquer um que passou por um curso de História deve saber que nossa tradição democrática é bem curta. O Senador Cristovam Buarque escreveu um artigo hoje no O Globo sobre os jovens e suas lutas, que no Brasil, hoje em dia, é quase nula. O Sr Fico tem uma trajetória de luta acadêmica exemplar, porém ÚNICA. A graduação, mestrado e doutorado já não são mais como em outros tempos. Todos sabem que hoje professores e alunos em grau de instrução mais elavado tem metas a cumprir mensais e anuais como número mínimo de artigos, livros, participação de eventos e etc. A realidade, hoje, é totalmente diferente. Não é simplesmente "querer estar no lugar certo, na hora certa e saber ouvir muito mais que falar..." e nem uma questão de ditados à antiga. "Roteiros" pré dizem que as pessoas são iguais, o que é totalmente inválido e elas não podem seguir o mesmo caminho da mesma forma. A evolução de cada um acontece de forma diversa e as oportunidades (a tal sorte) não são para todos. Creio por fim que os alunos, ex-alunos, professores da área, deveriam lutar mais para que a realidade da "pesquisa em História" fosse ampliada no país. Porque uma pesquisa em Química, por exemplo, é mais importante que uma pesquisa em História? Porque o governo não atenta mais para os cursos de Humanas? Cadê o incentivo em pesquisas de campo? Cadê o incentivo para traduções de obras estrangeiras de História? Temas que lá são atuais, chegam aqui com delay de anos. Creio que a discussão de "se História é uma boa carreira ou não" é uma perda de tempo se não lutarmos para fazer da História uma disciplina que chame a atenção e do historiador um profissional de verdade, respeitado por todos. Ótimo artigo, e devemos sempre repensar nossas realidades e lutar para modificá-las para melhor.

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  9. Guilherme de Souza Zufelato18 de junho de 2011 15:45

    O comentarista "Anônimo" acima, infelizmente, não entendeu o que eu escrevi; mas quero crer que isto deve-se ao fato de que sempre há um grande abismo entre aquilo que falamos (ou escrevemos), que queremos dizer, e aquilo que as pessoas podem vir a entender sobre o que falamos/escrevemos, isto é, sobre o que queremos dizer. Enfim, prova de que na maioria das vezes todos nós só exergamos o que queremos ver. Desse modo, sem dúvida o abismo só faz crescer...

    Em momento algum, em meu comentário, quis "rotular" - como afirmou o Anônimo comentarista - os brasileiros enquanto brasileiros (que são, de fato, porquanto não entendo qual o problema) em contraponto aos ditos não-brasileiros; o comentarista sim, fez tal comparação, e pior, segundo seu entendimento equivocado do que eu escrevi. Que abismo! O que eu quis dizer foi, na verdade, que os próprios brasileiros dizem ser algo como uma trajetória acadêmica semelhante a que Fico descreveu coisa impossível para eles mesmos, brasileiros.

    Além disso, concordo com o comentarista Anônimo, quando afirma que os brasileiros, em geral, são fortes etc. Como ele disse, "um povo trabalhador"! Sim, claro. Em momento algum eu afirmei que não eram. Só por isso, aliás, quase no final de meu comentário, fiz uso uma segunda vez da "já desgatada" (segundo o Anônimo) EXPRESSÃO - e não CLASSIFICAÇÃO, como ele disse - de 'brasileiros!' para referir-me àqueles que correm atrás do que querem e, portanto, "fazem a sorte acontecer". Será que assim diminuimos o abismo, Sr. Anônimo? Classificação quem fez, ressaltando uma suposta diferença entre brasileiros e não brasileiros, não fui eu.

    Quanto à questão do roteiro, ou da sorte, enfim, penso que antes algo como um roteiro (talvez sua própria existência seja já uma sorte primeira para o estudante em geral), que, ajustado a cada realidade, pode ser reelaborado, do que nada.

    Se a realidade é tão diferente assim do que nos propôs Fico em seu artigo (ou de sua própria carreira acadêmica descrita no Memorial já citado), entao cabe a nós, estudantes, professores e pesquisadores da área, questionarmos de que "realidade" na verdade se trata, ou melhor, qual "realidade" é essa que os brasileiros vivem. Penso que só assim, por meio de uma problematização/enfrentamento do real problema, então, poderemos fundamentar um diálogo em que, doravante, seremos capaz, "alunos, ex-alunos, professores da área", de "lutar mais para que a realidade da pesquisa em História" seja ampliada no país (para citar o próprio Anônimo).

    Agora, não creio que o professor Fico, como podemos notar, tão bem-sucedido em sua carreira, quando da escrita do texto pensava em re-tratar de uma realidade outra, que não a nossa mesma, de estudantes, professores e pesquisadores brasileiros.

    Um abraço,
    Guilherme

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  10. carlos gostaria de mais informações de como me tornar um professor universitario em historia,pois agora vou seguir esse sonho mesmo depois de ter perdido muito tempo em algo que eu nõa gostava ,mesmo com todas as dificuldades de iniciar a profissão eu quero tentar,pois amo história.
    gostaria de saber tenho que fazer bacharel ou licenciatura
    e se com a graduação fazendo mestrado consigo dar aulas no fundamental para me sustentar antes de completar o doutorado.
    tambem vi na internet mestrado e doutorado com a metade do tempo será que realmente vale a apena
    um abrço
    jean

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