4 de junho de 2011

Governo Sarney: um mau começo

Posse de Sarney em 1985

Rio de Janeiro - Carlos Fico

No fim do regime militar, as oposições tentaram reinstituir as eleições diretas para presidente da República, mas não conseguiram, mesmo com a Campanha das Diretas, o maior movimento de massas que houve no Brasil e que mobilizou milhões de pessoas, em diversas cidades, através de comícios gigantescos.

Por isso, foi preciso tentar vencer no “Colégio Eleitoral”, o sistema criado pela ditadura para a escolha indireta do presidente. Ele reunia os deputados federais, senadores e também os representantes das assembleias legislativas estaduais, de modo que o governo tinha a maioria.

O candidato oficial, Paulo Maluf, era tão malvisto que gerou uma dissidência (Frente Liberal) no partido que apoiava o regime militar (PDS), até então presidido pelo senador José Sarney. Insatisfeito por não ver acatada sua proposta de realização de prévias eleitorais (que poderiam afastar a candidatura Paulo Maluf), Sarney renunciou à presidência do partido possibilitando a formação da dissidência que acabou apoiando o candidato do PMDB, Tancredo Neves. Por essa razão, Sarney foi indicado para vice-presidente na chapa que se chamou "Aliança Democrática" e foi vitoriosa no Colégio Eleitoral.

Com a doença e a morte de Tancredo Neves, Sarney foi empossado na presidência da República. Quando fez o juramento constitucional, no Congresso Nacional, sua mão estava trêmula: ele sabia que seria muito difícil governar sem um partido que o apoiasse, com um ministério indicado pelo falecido Tancredo Neves, sob a tutela de Ulysses Guimarães – que se tornou um condestável da República –, e diante da frustração popular, que via Tancredo Neves como uma espécie de salvador da pátria.

Seus temores se confirmaram: seu governo foi um desastre total, um mau começo para a redemocratização brasileira. A tentativa de controle da inflação – o "Plano Cruzado" – teve duração efêmera, momento em que Sarney tornou-se bastante popular, mas o plano logo fracassou, porque o governo evitou medidas amargas em função de interesses eleitorais, de modo que a inflação voltou.

Sarney tentou recuperar sua popularidade declarando a moratória da dívida externa, em 1986, como se fosse uma medida corajosa de afirmação da soberania nacional. Na verdade, entretanto, o país estava quebrado, sem dólares para pagar sequer as importações mais comuns. No cenário internacional, nos tornamos um país caloteiro.

Desautorizado, Sarney era pressionado por todos os lados. Roberto Marinho, proprietário da Rede Globo, tinha tanto poder que fazia sabatinas em candidatos a ministro, como foi o caso de Maílson da Nóbrega. Depois de interrogar Maílson, Marinho se disse satisfeito e mandou anunciar o nome do próximo ministro da Fazenda no plantão do Jornal Nacional. O detalhe humilhante é que Sarney ainda não havia oficializado o convite.

Muitos outros episódios poderiam ser lembrados, como a censura ao filme Je vous salue Marie, de Jean-Luc Godard, quando todos já supunham o fim da censura.

Os meses finais foram os piores. A inflação descontrolou-se. Criticado por todos os lados, Sarney tornou-se apático e ausente, do mesmo modo que o general João Figueiredo, no final do regime militar, que dava a impressão de apenas esperar o dia da posse de seu sucessor. Aliás, Figueiredo recusou-se a entregar a faixa presidencial a Sarney, pois o senador, aos olhos do general, era um traidor.

Para Sarney, a campanha eleitoral para a escolha do primeiro presidente eleito diretamente foi bastante dura. Ele se tornou alvo de todas as críticas e foi tratado com bastante desrespeito por Fernando Collor de Mello, que chegou a dizer coisas do tipo: “Gostaria de tratar o senhor José Sarney com elegância e respeito, mas não posso, porque estou falando com um irresponsável, um omisso, um desastrado, um fraco. (...) O senhor sempre foi um político de segunda classe, nunca teve uma atitude de coragem”.

Sarney costuma dizer que seu governo deveria ser lembrado pelo fato de ter restaurado a democracia, com a Constituição de 1988 e as eleições diretas. A verdade, entretanto, é que as duas coisas viriam de qualquer modo. Seu governo foi uma grande frustração. Antecedeu a tragédia em que se tornou o governo Collor, com o confisco e o impeachment. Olhando para a história do Brasil recente, chega a ser inacreditável que possamos ter chegado aqui com um começo tão ruim.

2 comentários:

  1. Por isso tudo, não seria surpreendente se a época que o Senado federal tem chamado de "história comtemporânea" - conteúdo que, segundo alguns senhores daquela casa, deveria ser apagado dos livros do ensino médio, e que a priori remete apenas ao governo Lula - fosse estendida até este frustrante período da história brasileira que foi o governo de Sir Ney.

    Suposição bastante exagerada, eu sei, mas foi preciso que o ministro Fernando Haddad lembrasse aos senadores que não cabe ao governo selecionar que entra ou não para o hall dos fatos históricos nacionais.

    Abraços a todos.

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  2. CHEGAMOS AONDE AMIGO ?????
    boneco-brasil disse...

    Muito se fala de Maluf, Tancredo e diretas já, mas muito pouco de verdade se diz. Vejamos:
    1. Maluf era do PDS mas nunca foi o candidato do governo, Paulo Maluf tornou-se desafeto dos governos militares desde quando enfrentou os militares ao lançar candidatura ao governo de SP, contra a vontade do então presidente Geisel.
    2.Maluf venceu na convenção do PDS o canditado dos militares que era o MARIO ANDREAZZA.
    3. Na eminente eleição do Maluf presidente. O Gen. Figueiredo disse que não passaria a faixa ao Maluf. foi criado uma situaçao que poderia retroceder o processo de abertura. Foi então que por ACORDO COM OS MILITARES, surgiram o Tancredo e o Sarney ambos governistas e ligados ao governo militar.
    4. Portanto o primeiro presidente eleito democraticamente no Brasil recente, foi o Fernando Collor.
    ---- Não sei porque voces "historiadores" nunca contam esses "DETALHES" ?

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