21 de junho de 2011

Memória, história e celebração

Ponte Costa e Silva inaugurada por Médici

Carlos Fico
Rio de Janeiro


Em nossa última enquete perguntamos aos leitores do Brasil Recente se deveríamos eliminar as referências à ditadura militar em nomes de ruas, pontes, monumentos etc. Por pequena margem, a maioria respondeu que sim (51%), contra 48% que preferem manter as coisas como estão.

Temos muitas referências a personagens do regime militar em pontes, escolas, rodovias etc. Por exemplo, a Ponte Rio-Niterói se chama Costa e Silva; temos a Rodovia Castelo Branco, os municípios de Medicilândia e Presidente Figueiredo. Muitos outros exemplos poderiam ser citados.

Em países como a Espanha e a Argentina, há organizações não governamentais muito empenhadas nesse tipo de iniciativa, algo que não se verifica aqui no Brasil. Mesmo assim, em 2009, a cidade de São Carlos mudou o nome da rua Sérgio Paranhos Fleury para Dom Helder Câmara. Recentemente, a Congregação do Colégio Pedro II decidiu retirar o nome do almirante Augusto Rademaker do prédio da direção-geral da instituição, localizado no Centro do Rio de Janeiro. Fleury foi um delegadão violento adepto de procedimentos truculentos, para dizer o mínimo. Rademaker foi aluno do Pedro II, mas, em 1969, integrou uma junta militar que depôs o vice-presidente Pedro Aleixo, que deveria assumir a presidência por causa da doença do marechal Costa e Silva. Posteriormente, tornou-se vice-presidente de Médici. Portanto, com a típica discrição brasileira, esses nomes vão sendo afastados, sem alarde.

Durante a votação da enquete, nosso leitor Guilherme Zufelato levantou uma questão importante. Ele correlacionou o sumiço dos painéis sobre o impeachment de Collor (atribuído ao presidente do Senado, José Sarney) ao tema de nossa enquete. Para Zufelato, eliminar esses nomes de colaboradores da ditadura poderia corresponder a um exercício ingênuo de tentativa de apagamento da História, tal como o que foi patrocinado pelo Senado no caso dos painéis.

Concordo em parte com Guilherme. Não dá para apagar o passado. Mas as iniciativas “discretas” contra as referências a Fleury ou a Rademaker indicam que há limites. Ninguém quer permanecer homenageando aqueles que outros autores chamam de “algozes” ou “perpetradores”. Não dá para fazer uma equivalência entre repressores e vítimas (mesmo aquelas qua haviam optado pela luta armada), já que o Estado brasileiro tinha todas as condições de combater a luta armada sem recorrer à tortura.

Enfim, gosto da opção brasileira: vamos eliminando os resquícios mais negativos aos poucos, conforme iniciativas locais, dos próprios interessados, sem a necessidade de uma lei geral impositiva.

Não deixe de responder a nossa nova enquete: a luta armada atrasou a redemocratização ou ajudou a combater a ditadura?


Um comentário:

  1. Eliminar o passado positivo ou negativo é eliminar. O que se muda, é a representação que fazemos pelos nomes, períodos e, portanto, acho que essa permanência é importante

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