21 de julho de 2011

Diretas, Já!

Rio de Janeiro - Por Carlos Fico

A memorável Campanha das Diretas emocionou o país em 1984. Os comícios, em diversas cidades brasileiras, eram muito concorridos, com a presença de multidões. O do Rio de Janeiro, em 10 de abril, reuniu milhares de pessoas. O de São Paulo, em 16 de abril, também foi grandioso. Falava-se em números que, hoje, sabemos improváveis (1 milhão no Rio, por exemplo), mas os comícios eram tão impactantes que nem os militares negavam aquelas cifras.

O clima era festivo, mas havia um forte componente político. Ídolos populares, como cantores e atores, animavam o público, mas as multidões também se emocionavam com líderes políticos, ouvindo atentamente os discursos de governadores, parlamentares e sindicalistas. No comício do Rio, quando o velho advogado liberal, Sobral Pinto, iniciou seu discurso declamando o parágrafo primeiro do Art. 1 da Constituição (“Todo o poder emana do povo e em seu nome é exercido!”), o povo foi ao delírio.

A ideia era pressionar o Congresso Nacional a aprovar a Emenda Dante de Oliveira, apresentada pelo até então desconhecido parlamentar mato-grossense. Como o partido do regime militar, o PDS (sucessor da ARENA), detinha a maioria, era impossível conseguir a aprovação sem o apoio de parlamentares governistas. A Campanha das Diretas foi tão impactante que muitas pessoas acreditaram na vitória.

No dia da votação, quando a derrota foi confirmada, a TV mostrava a imagem de pessoas chorando pelo Brasil afora. Aliás, as “Diretas, Já!” foram um momento decisivo para a atual configuração dos meios de comunicação no Brasil: a Rede Globo ficou malvista porque recusava-se a transmitir os comícios; a Folha de S.Paulo conquistou leitores porque apoiou decisivamente a campanha.

A Campanha das Diretas, em 1984, tentou contrapor-se ao projeto de abertura “lenta, gradual e segura” dos militares – que pressupunha a escolha do primeiro presidente civil através do sistema indireto, o famoso “Colégio Eleitoral”. Os militares vinham conduzindo esse processo desde o governo Geisel, com o abrandamento da censura (1975), o fim do AI-5 (1978), a anistia (1979) e o fim do bipartidarismo (1979). A conclusão deveria ser a eleição indireta em 1985. As “Diretas” não conseguiram impedir esse último ato da ditadura.

Entretanto, elas deixaram consequências muito fortes. Do ponto de vista simbólico, por exemplo, elas marcaram a retomada, pelo povo, da bandeira e do hino nacionais. De fato, durante o regime militar, adotar os símbolos nacionais era um gesto que poderia ser confundido com apoio à ditadura. Nas “Diretas, Já!” as pessoas se vestiam com a bandeira nacional e a cantora Fafá de Belem interpretava livremente o hino (o que era proibido até então). Uma imensa bandeira, que acompanhava os comícios, acabou ressurgindo no dia da eleição indireta pelo Colégio Eleitoral e uma foto antológica registrou o momento em que a multidão protegia-se da chuva sob o gigantesco pavilhão nacional.

A campanha também foi importante do ponto de vista político, não apenas porque a emenda quase foi aprovada (mais de 100 parlamentares não compareceram à sessão com vergonha de votar contra), mas porque indicou, claramente, o fim do regime militar e o compromisso da sociedade brasileira com a democracia.

Se os militares conseguiram conduzir a transição como planejaram, a Campanha das Diretas alertou para o fato de que novas aventuras autoritárias não mais seriam admitidas.

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