13 de julho de 2011

Luta armada durante o regime militar

Rio de Janeiro - Por Carlos Fico

A última enquete do Brasil Recente perguntou se a luta armada ajudou a terminar com a ditadura militar ou retardou a redemocratização do país. Para a maioria dos leitores (72%) a luta armada ajudou a derrubar a ditadura.

A questão é pertinente porque, para muitos integrantes da esquerda, as ações armadas desafiaram o regime e se tornaram importante forma de resistência ao arbítrio. Existe, entretanto, outro ponto de vista segundo o qual a luta armada acabou servindo de pretexto para que o regime assumisse poderes definitivamente ditatoriais através do AI-5.

Essa é uma discussão difícil. O historiador deve buscar uma leitura o mais possível objetiva, mas seria quase um cinismo não reconhecer a dimensão ético-moral do problema. Por um lado, temos o fato de que o Estado brasileiro tinha todas as condições de combater a luta armada sem apelar para a tortura e o extermínio. Por outro, mesmo os que discordam da luta armada não podem deixar de reconhecer certa generosidade no projeto daqueles jovens, sobretudo os que fizeram a opção pelas armas depois das passeatas de 1968. Esse reconhecimento compromete a objetividade da História? Creio que não. Dominick LaCapra diz que é preciso termos “empatia” pelas vítimas – o que não significa total identificação.

Os militares propagaram a tese de que a polícia não conseguia combater as ações armadas. Eles pretendiam justificar seu envolvimento na repressão. Esse foi o maior erro histórico das Forças Armadas brasileiras. A imagem dos militares passaria a ser associada à tortura e ao extermínio. Poucos militares torturaram e mataram; muitos foram coniventes, mas todos saíram comprometidos.

Do lado da “guerrilha”, é preciso fazer uma distinção importante: as lideranças da esquerda, os quadros organizados, já vinham discutindo a possibilidade da opção pelas armas desde a vitória da Revolução Cubana, bem antes do golpe de 64. Nesse sentido, não se pode concordar com algumas leituras da esquerda que dizem que a luta armada foi uma decorrência do endurecimento do regime. Entretanto, muitos jovens que participaram das passeatas de 1968 – que sacudiram o país entre março e outubro daquele ano – ficaram chocados com o AI-5 (que veio em dezembro) e se tornaram, assim, candidatos facilmente recrutáveis pela luta armada a partir de 1969. Eles aderiram “espontaneamente”, sem maiores reflexões. É uma situação diferente da dos líderes.

A própria expressão “luta armada” deve ser qualificada. Uma coisa é a Guerrilha do Araguaia, outra são as ações armadas nas cidades. Os militares viam Araguaia como questão militar e não se envergonham da decisão de “exterminar” o foco guerrilheiro. As ações armadas no espaço urbano (assaltos, sequestros, atentados etc.) eram vistas pelos militares como caso de polícia. Os militares se envergonham do que eles chamam de “excessos”, ou seja, torturas e mortes, diferentemente da questão do Araguaia. Durante muito tempo, tentaram negar a tortura no combate às ações armadas urbanas.

Se não compreendermos essa diferença, não teremos entendido nada da mentalidade militar do período. Por exemplo, quando o “moderado” general-presidente Ernesto Geisel disse a frase chocante, divulgada por Elio Gaspari, segundo a qual “esse negócio de matar é uma barbaridade, mas eu acho que tem que ser”, muitos se esqueceram de que ele estava falando de uma “operação militar”, não das ações armadas urbanas. Militares são treinados para isso.

Também é preciso lembrar que a “luta armada” brasileira foi bastante pontual. A iniciativa da Guerrilha do Araguaia espanta pela ingenuidade; as ações armadas urbanas não conquistaram nenhum apoio do povo, que via os militantes da esquerda como “terroristas”.

A luta armada brasileira não foi muito importante em termos efetivos. Não deixa de ser um erro pensarmos que o grande confronto da época era entre ditadura e luta armada: o golpe de 64 se deu contra mínimas conquistas populares durante o governo Jango, não contra a “luta armada”.

O fato de, hoje, termos condições de ver a ingenuidade e/ou equívoco daquelas iniciativas não nos exime de considerar a dimensão ético-moral do problema. A História não deve ser vista como um simples embate entre o bem e o mal, mas seria uma ingenuidade ignorar o sigificado político da repressão violenta.

A luta armada foi usada como pretexto para a retomada da “Operação Limpeza” que a linha dura vinha tentando restabelecer desde 1964. Esse grupo extremista saiu fortalecido e encastelou-se no poder com o nome de “comunidade de segurança e de informações”. Nesse sentido, a luta armada não ajudou a terminar com a ditadura. Entretanto, seu paroxismo serviu para desnudar a falta de limites dos que endureceram o regime. As campanhas internacionais de denúncia da tortura (ainda pouco connhecidas entre nós) foram importantes para fragilizar o regime.

Muitos líderes e quadros organizados  foram vitimados. Além disso, muitos jovens que entraram desavisadamente na luta armada também tombaram, poderíamos dizer, quase imolados. Pessoas que nada tinham a ver com a história também foram presas, torturadas e mortas. Esse é um passivo que a sociedade brasileira ainda não conhece bem e, certamente, terá de enfrentar.

Não deixe de responder à nova enquete do Brasil Recente: "A abertura foi um projeto dos militares ou decorreu da pressão da sociedade?"

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