1 de agosto de 2011

Colonialismo cultural e internacionalização do conhecimento

Carlos Fico

Segundo Bresser-Pereira, em artigo na Folha de S.Paulo, de 1 de agosto de 2011, a comunidade acadêmica aceita um padrão de qualidade definido pelas revistas estrangeiras. Isso se expressaria, no caso da Economia, pelo fato de nenhuma revista brasileira obter o conceito máximo da Capes. Para Bresser, a Capes deveria estabelecer – para as Ciências Humanas – um percentual mínimo de periódicos nacionais com o conceito máximo. Tal percentual não precisaria ser “alto” como o da História (sic), mas algo como os 20% da Antropologia.

Atualmente, incide sobre todas as áreas o critério geral segundo o qual as revistas A1 + A2 não podem ultrapassar 25% do total. Do mesmo modo, o número de revistas A1 tem de ser menor que o de A2. Finalmente, a soma das revistas com as três notas mais elevadas (A1, A2 e B1) não pode ser superior a 50% do total [para quem não está familiarizado com isso, esses são os conceitos dados pela Capes para avaliar as revistas acadêmicas. A1 é a melhor. B5 é a mais frágil].

Exceto esse balizamento, as áreas têm bastante liberdade para decidir as notas dos periódicos. No caso da História, por exemplo, os critérios que definem o que é uma boa revista são os parâmetros tradicionais (avaliação por pares, periodicidade regular, ser indexada etc.). Tais critérios incidem sobre revistas brasileiras ou estrangeiras. Há revistas estrangeiras que não recebem as melhores notas. Ao contrário do que diz Bresser, nem 7% das revistas de História recebem as notas A1 e A2.

Para a área de História, o critério de internacionalização não se mede essencialmente pela capacidade de um historiador publicar em uma revista estrangeira. Um bom indicador de internacionalização, por exemplo, é a capacidade que uma revista brasileira tenha de atrair artigos (em português) de historiadores estrangeiros especializados em História do Brasil.

Portanto, a desejável internacionalização da pós-graduação – entendida como intercâmbio acadêmico-científico, exposição à crítica internacional e divulgação ampla do conhecimento produzido no Brasil – não se confunde com uma visão colonizada segundo a qual só os periódicos estrangeiros são bons.

Não existe uma “Física do Brasil” nos mesmos moldes em que conhecemos a "História do Brasil". O recorte nacional, aqui e no mundo afora, prevalece nos estudos históricos (diferentemente das Ciências da Natureza). Não faz sentido esperar que revistas estrangeiras publiquem um grande número de artigos de História do Brasil, assim como nós não publicamos em nossas revistas muitos artigos sobre a História dos EUA, do Japão, da Alemanha ou da China, apesar da importância desses países.

Como Coordenador da Área de História junto à Capes, não me parece necessário estabelecer o percentual proposto por Bresser-Pereira. Isso daria a impressão de que as Ciências Humanas são mais frágeis. A decisão de qualificar os periódicos brasileiros da área de Economia depende, de fato, da comunidade acadêmica, isto é, dos economistas brasileiros – tal como já o fizeram os historiadores, que nada têm de colonizados.

Nenhum comentário:

Postar um comentário