20 de agosto de 2011

O "Movimento pela Ética na Política" de 1992

Herbert de Souza, o Betinho

Por Carlos Fico


O plano de estabilização de Collor foi um completo fracasso. Já em 1991, o presidente, que tomara posse em 1990, viu seu governo minado pela inflação e recessão. Além disso, circulavam, de maneira cada vez mais ostensiva, inúmeras suspeitas de corrupção, envolvendo ministros de Estado e altos funcionários da República.

A esposa de Collor também se viu envolvida em acusações de malversação de dinheiro público e de favorecimento ilícito de parentes. No mês de abril de 1992, o irmão do presidente concedeu uma entrevista escandalosa à revista Veja, denunciando um esquema de corrupção liderado pelo tesoureiro da campanha de Collor. No mês de maio, o Congresso instalou uma Comissão Parlamentar de Inquérito que terminaria por recomendar o impeachment de Collor.

Foi nessa atmosfera que atuou o Movimento pela Ética na Política, que nasceu de um pequeno grupo de pessoas. Segundo Betinho, “a princípio, ninguém acreditava em nossas chances de sucesso: nem o mundo político nem a mídia. Collor havia sido eleito por 35 milhões de votos. Nós nos contentamos em afirmar que a corrupção era inadmissível”.

O movimento nasceu de um grupo de pessoas, que se reunia na UFRJ. Eram sindicalistas, universitários, militantes de partidos, pessoal das ONGs. A iniciativa partiu de uma proposta do deputado federal José Carlos Sabóia, do PSB do Maranhão, numa das reuniões mensais promovidas por uma ONG (INESC) com parlamentares progressistas. O deputado queixou-se do isolamento dos parlamentares democráticos no Congresso e sugeriu que o INESC convidasse a OAB, a CNBB, o IBASE e algumas personalidades políticas para discutirem a questão.

Nessa reunião, realizada em 9 de maio de 1992, por proposta do presidente da OAB, Marcelo Lavenère, ficou decidida a realização de uma "Vigília pela Ética na Política", que de fato aconteceria no auditório Petrônio Portella no Senado Federal, reunindo 183 entidades, 70 parlamentares e mais de 1.000 pessoas. No evento, foi lida uma Declaração ao Povo.

Com a sucessiva revelação de escândalos, através de depoimentos de funcionários que trabalhavam próximos a Collor, foi-se constituindo a convicção generalizada sobre a existência efetiva de um esquema articulado de suborno no país, capitaneado por auxiliar da confiança do presidente. Em decorrência, ampliava-se a indignação pública, notadamente nos setores médios urbanos, sempre sensíveis às acusações de corrupção. Foi nesse ambiente que o Movimento pela Ética na Política cresceu, chegando a reunir aproximadamente 900 entidades em coalizão.

A OAB decidiu apresentar ao Congresso Nacional o pedido de impeachment do presidente, assinado pelos conselheiros da entidade e outras personalidades. O pedido seria levado ao Congresso numa caminhada em Brasília. No primeiro dia de setembro de 1992, pouco mais de cem pessoas partiram da frente da sede da OAB, na Capital Federal, em direção à Praça dos Três Poderes. Barbosa Lima Sobrinho, provecto presidente da Ordem, foi de carro, pois não estava em condições físicas de ir a pé. Os conselheiros, acompanhados por Betinho, Jair Menegueli e algumas outras personalidades nacionais, foram à frente da passeata, de braços dados. Conforme o grupo se deslocava, aumentava o número de participantes. Afinal, a passeata chegou a reunir 3.000 pessoas.

O Movimento não pararia de crescer. A mídia acabou aderindo, especialmente através do jornal Folha de S.Paulo. A TV não pôde deixar de noticiar as manifestações que, então, surgiam de diversos pontos da sociedade.

Collor não avaliou bem o significado e o alcance do movimento. Ele tentou reverter a negatividade do quadro apelando também para um ato simbólico, convocando diretamente o povo a apoiá-lo. Decidiu pedir que a população saísse às ruas vestida com as cores nacionais num domingo. Na sexta-feira, os integrantes do Movimento, reunidos no Fórum, resolveram convocar uma contramanifestação, na qual as pessoas deveriam vestir preto, em "luto" que expressasse o repúdio ao presidente. Eles supunham ser capazes de reunir algumas dezenas de pessoas, em função do pouco tempo disponível para divulgar o ato. Betinho relatou o que viu:

Quando saí de casa – porque eu moro perto do Leme –, quando saí de casa de carro, antes de entrar no túnel, eu percebi que já estava dentro de uma manifestação. E todo mundo de preto e não encontrei ninguém que tinha visto na véspera, na reunião. E nós falamos: “Bom, existe um movimento social muito mais profundo, existe uma questão ética muito mais profunda nessa sociedade”. E aí a mídia toda repercutiu.

Várias manifestações públicas se sucederiam, especialmente nas proximidades do julgamento de Collor, boa parte delas embalada por jovens estudantes, que assomavam à cena política retrabalhando símbolos, como a “cara-pintada”, a bandeira e as cores nacionais que, desde a Campanha das Diretas, foram reintroduzidos no Brasil nessa nova modalidade de mobilização – a festa na política. Em 29 de setembro de 1992, a Câmara dos Deputados autorizou a abertura do processo de impeachment de Collor, logo posto em licença, assumindo na interinidade o vice-presidente Itamar Franco. Finalmente, durante sessão do Senado de julgamento do impeachment, em 29 de dezembro, vendo impossível sua defesa, Collor renunciou – o que não o livrou de ter seus direitos políticos cassados por oito anos.

Finalmente, Collor saiu [escreveu Betinho]. O país respira aliviado. Feliz por ter feito funcionar a Constituição, e não o golpe (...) Formou-se uma quase unanimidade nacional (...): quando prevalece a ética, até os corruptos confessam sua adesão à moralidade (...) o que finalmente prevaleceu no Brasil de hoje foi a ética na política, caminho e condição da democratização do país.

2 comentários:

  1. Parabéns professor por nos esclarecer sobre a história que rondou, particularmente, a minha infância. Quando criança, era um fanático pelo discurso do Collor e até pouco tempo não sabia realmente o que tinha acontecido para ele sair do poder. Sou acadêmico do Curso de Letras da Universidade Federal do Tocantins e gostaria de saber mais sobre as perspectivas históricas da época e se pudermos manter contatos para esclarecer essas dúvidas, gostaria de perguntar algumas coisas ao senhor diretamente (via email), pois estou montando um trabalho de conclusão de curso e nada melhor do que alguém que viveu conscientemente esse momento histórico tão tenso. Mais uma vez obrigado.

    ResponderExcluir
  2. ATRAVÉS DE DESTA COLUNA DEVERÍAMOS CONVOCAR UMA GREVE NACIONAL EM TODAS AS ESFERAS DO PAÍS SE ESTA CPI CONTINUAR NESTE RITIMO POIS APARENTEMENTE A MESMA VAI ACABAR EM PISSA IGUAL A TODAS QUE FOI INSTAURADA

    ResponderExcluir

Pesquise neste Blog

Carregando...