6 de setembro de 2011

O sequestro do embaixador e o engano do general

Carlos Fico

Nove meses após a edição do AI-5, militantes da esquerda revolucionária sequestraram, em setembro de 1969, o embaixador dos EUA, Charles Elbrick. A operação teve, evidentemente, grande impacto, até porque aconteceu às vésperas do 7 de Setembro.

Quem governava o Brasil naquele momento era uma Junta Militar, que substituiu o marechal Costa e Silva, vítima de um derrame. Ao invés de permitir a posse do vice-presidente, Pedro Aleixo, os ministros militares tomaram o poder como uma junta militar.

Eles ficaram desnorteados com o sequestro. Se a esquerda era capaz de capturar o embaixador de um país como os Estados Unidos da América, então devia estar mesmo muito forte e preparada. O sequestro aconteceu no dia 4 de setembro de 1969. No dia seguinte, a junta estabeleceu a pena de banimento do território nacional através do AI-13 e, com o AI-14, a pena de morte para crimes relacionados às ações da luta armada.

Os detalhes do sequestro são conhecidos. Há livros, filmes e depoimentos sobre esse episódio. Ele teve muita importância não apenas por permitir a libertação de prisioneiros em troca da liberdade do embaixador e por dar a impressão, por um momento brevíssimo, de que as ações armadas poderiam efetivamente afrontar a ditadura. Além disso, infelizmente, o episódio serviu como justificativa para o AI-5, decretado no final do ano anterior. Vários militares moderados, que tinham visto o AI-5 como um excesso, assustaram-se com o “poderio” da esquerda.

Certa vez, entrevistando um general moderado que ocupou importante função durante a ditadura, perguntei por que ele havia apoiado, em 1968, a decretação do AI-5. Ele me disse que, apesar de ser contra a tortura, apoiou o decreto desde que se convencera, naquele ano, do poderio dos comunistas, cuja força lhe parecia evidente em função das passeatas e manifestações de protesto que lideravam, sem falar nas ações armadas que promoviam, como assaltos a bancos e sequestros de diplomatas:

“Eles até haviam sequestrado o embaixador dos Estados Unidos!” – concluiu exaltado.

Eu o olhei por um instante e o corrigi:

“Mas, general, o senhor sabe que o sequestro do embaixador foi depois do AI-5”.

Ele me olhou surpreendido consigo mesmo e balançou a cabeça como se afastasse o engano. O general não estava mentindo. A memória não tem compromisso com a cronologia, mas com o conforto dos espíritos. A versão que ele (e muitos outros militares) construiu para si lhe servia como justificativa, como alívio.

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