13 de setembro de 2011

O tempo presente e o testemunho sagrado

Carlos Fico


O historiador do Tempo Presente enfrenta uma cobrança que seus colegas de História Antiga, Medieval, Moderna e Contemporânea desconhecem: a contestação daqueles que viveram os episódios narrados. No debate teórico sobre a História do Tempo Presente, costumamos designar esse fenômeno como “pressão dos coetâneos”.

Quando faço uma palestra sobre a ditadura militar, não é incomum que alguém discorde do que eu digo alegando que “estava lá”, que viveu aqueles fatos. É um argumento forte e que impressiona. De modo geral, recorro à distinção entre memória e história para sustentar meus argumentos, mas não é fácil.

É curioso como a História mudou nos séculos XVIII/XIX: até então, valorizava-se a história contada pelo historiador que presenciou os eventos narrados. Tucídides recolheu material enquanto a Guerra do Peloponeso acontecia. O testemunho do historiador era crível desde que fosse ocular, ou seja, na medida em que trabalhássemos com fatos que víssemos com “nossos próprios olhos” ao invés de conhecê-los por “ouvir falar” - como registrou Isidoro de Sevilha.

No século XIX, entretanto, a corrente liderada por Leopold von Ranke inverteu completamente a tradição interditando o tempo presente: a ausência de recuo temporal tornaria impossível uma análise imparcial. O testemunho do historiador, até então valorizado, passou a ser visto com desconfiança. A versão das pessoas envolvidas nos fatos  seria parcial.

Esse é um problema tradicional da Teoria da História. Não é o caso de desenvolvê-lo aqui. Mas é certo que uma energia específica marca o testemunho de quem presenciou um evento, especialmente se tiver sido um evento traumático. Isso lhe confere certa “sacralidade”, que eu sempre exemplifico como um episódio que aconteceu comigo.

Durante uma palestra por ocasião das celebrações dos 40 anos de maio de 1968, eu tentava desmistificar – diante de plateia numerosa – a visão romantizada da luta armada: os que atuaram na guerrilha têm sido vistos como jovens “tresloucados”, heróis românticos aos quais não restava outro caminho senão o da luta armada porque o regime havia endurecido com o AI-5. Essa versão, entretanto, oculta o conteúdo revolucionário daquela “opção pelas armas”, que não foi apenas uma reação à repressão do regime.

A interpretação que eu sustentava causava desconforto porque parecia desonrar a memória daqueles militantes, já que prevalece na esquerda uma leitura enaltecedora dessas pessoas. O debate acirrou a audiência e eu também me exaltei um pouco, enquanto tentava trazer evidências empíricas para minha interpretação, sustentando os melhores argumentos que detinha como historiador pretensamente objetivo. Nesse momento, uma senhora levantou-se e disse: “Eu fui barbaramente torturada!”.

Caímos em profundo silêncio. Nada mais podia ser dito após aquela frase.

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