30 de setembro de 2011

Prezada Censura

Rio de Janeiro - Por Carlos Fico


A discussão recentemente provocada pelo comercial em que Gisele Bündchen aparece de roupas íntimas decorre de uma preocupação com o tratamento dado às mulheres. Algumas pessoas afirmam que o cuidado é exagerado e que proibir o comercial seria um ato de censura.

O debate lembra, de algum modo, a preocupação que o regime militar tinha com a chamada “censura moral”, isto é, a censura de costumes que atingia o cinema, o teatro, a TV, a música etc.

A TV foi muito atingida. Curiosamente, mesmo a Rede Globo – cujo jornalismo apoiava o regime – enfrentava problemas. O Fantástico, por exemplo, somente podia ser censurado previamente em parte, pois muitos quadros do programa eram feitos ao vivo, gerando conflitos com o censor que se instalava na emissora durante a transmissão.

A grande preocupação da censura do regime era com a exposição do corpo feminino, mas o público também pedia censura. Quando, no programa matinal TV Mulher, também da Globo, a sexóloga (e hoje senadora) Martha Suplicy mostrou um desenho da vagina, a reação de um telespectador foi imediata, escrevendo à censura, pois, para ele, o ato “foi revoltante, imoral, indecente e pornográfico”. O censor respondeu dizendo que o programa era de bom nível.

Muitas pessoas escreviam cartas para a Divisão de Censura pedindo mais censura. Em muitas cartas as mulheres eram tratadas como incapazes: “nossas mulheres, dotadas, mentalmente, igual à criança, absorvem todas essas imundícies [da TV]”. Um filme como D. Flor e seus dois maridos “só deveria ser exibido para homem”, escreveu um cidadão. De outro lado, a presença erótica de mulheres na TV, como no caso das que dançavam em programas de auditório, ofendia ou excitava, pois muitas reclamações quase chegavam a ser eróticas: “manecas despudoradas e de formação duvidosa”; “mulheres exibem sensualmente suas exuberâncias [...] balançando licenciosamente seus exuberantes mamões”. Mesmo a publicidade das “precauções da higiene feminina” causava desconforto, inclusive entre algumas mulheres, que não gostavam de ser lembradas, a todo momento, de “nossa tão mísera condição”. Depois de assistir ao filme A dama do lotação, assim se expressou a autora de uma dessas cartas: “sinto nojo de ser mulher. Estou com vergonha de me olhar no espelho”.

As cartas dirigidas às autoridades são documentos fascinantes para o historiador. Mostram aspectos por vezes inesperados. Todos conhecemos a luta contra a censura, que mobilizou órgãos de imprensa, jornalistas, artistas etc. Uma parcela da sociedade, entretanto, apoiava e exigia mais censura. Como a “senhora doente”  que escreveu em nome de “50 mães de família” pedindo que fossem censurados os programas de TV que contivessem “bandalheira, falta de moral e falta de respeito”. Ela iniciava sua carta da seguinte maneira: “Prezada Censura”.

5 comentários:

  1. Caro Prof. Carlos Fico, ótimo artigo, trago apenas uma questão: em quais arquivos podemos ter acesso às cartas destinadas à Divisão de Censura?
    Grato, Carlos.

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  2. Caro Carlos: as cartas podem ser vistas no sede do Arquivo Nacional em Brasília: Fundo “Divisão de Censura de Diversões Públicas”, Arquivo Nacional, Coordenação Regional do Arquivo Nacional no Distrito Federal, Série “Correspondência Oficial”, Subsérie “Manifestações da Sociedade Civil”.

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  3. Pois bem, pretendia saber a mesma coisa que o Carlos. Como a resposta já foi dada - e também porque não terei possibilidade de ir até Brasília olhar esses papéis -, perguntarei outra coisa: em qual livro, tese, dissertação ou artigo (certamente deve existir algum) posso encontrar um trabalho historiográfico que tenha usado essas mesmas fontes?

    Abraços.

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  4. Tem o meu próprio artigo publicado na Topoi n. 5.

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  5. Leonardo Abecassis14 de outubro de 2011 00:44

    O artigo é muito interessante para nos afastarmos da ideia de uma sociedade passiva, "boazinha" e totalmente oprimida. Muitos integrantes da sociedade civil não só pediam por censura, ams tambem denunciavam falsamente desafetos como comunistas, muitas vezes em benefício próprio, cobravam maior repressão do regime, felicitavam por prisões realizadas, etc.

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