25 de outubro de 2011

Qual é a utilidade de uma Comissão da Verdade?

Angelus Novus, de Paul Klee

Carlos Fico

Para muitos, é errado revolver um passado traumático. Melhor seria esquecer, deixar para lá. Mas nem sempre é melhor esquecer, quase nunca, aliás. A memória e a história são inerentes à natureza humana. Podemos preferir esquecer, mas é conveniente que isso seja feito através de uma espécie de sublimação ou catarse, um processo de libertação, de expulsão ou de purgação que virá depois, porque, inicialmente, isso demanda o enfrentamento.

O arranjo de 1979 – a Lei de Anistia que perdoou os torturadores – até hoje não pacificou a sociedade brasileira. É ilusório pretender “pôr uma pedra em cima”, “passar uma borracha no passado”: esses arranjos não funcionam nem como boas metáforas.

Para alguns, é errado instituir uma Comissão da Verdade incapaz de punir. Melhor seria instaurar um processo judicial, apurar responsabilidades e criminalizar aqueles que torturaram e mataram. Em seu famoso “Discurso sobre a História”, em 1932, Paul Valèry disse que, em épocas normais, “a guilhotina felizmente não está à disposição dos historiadores”. A Comissão da Verdade não deve servir para vingar as violências.

Para poucos, a comissão deveria apurar os “dois lados”, como se tentou fazer na Argentina (a Teoría de los Dos Demonios) ou na Espanha (a tese da equivalencia). Sempre deu errado. O motivo: o Estado - mesmo o Estado autoritário - tinha todas as condições de combater a luta armada sem apelar para a tortura e o extermínio. Além disso, os adeptos da luta armada já foram punidos de diversas formas.

Se aprovada pelo Senado, a Comissão da Verdade poderá mostrar à sociedade brasileira que nossa ditadura foi mais violenta do que se pensa. Milhares de pessoas foram prejudicadas – além daquelas que foram obviamente atingidas pela tortura, pela violência explícita. Crianças foram separadas de seus pais. Jovens foram impedidos de estudar. Profissionais qualificados tiveram suas carreiras destruídas. Esposas, maridos, filhos, pais e avós foram massacrados psicologicamente pela crueldade do “desaparecimento”.

Um espaço institucional no qual se possam levantar dados, conferir a realidade de alguns testemunhos, estimular a apresentação de depoimentos e ouvir o pedido de perdão do Estado: eis o que a Comissão da Verdade pode ser. Ela pode dar errado, é claro, se a composição for ruim, se o prazo for pequeno, se pretender construir uma narrativa oficial e ideológica.

Mas ela pode dar certo, servindo à sociedade brasileira como mecanismo de enfrentamento da realidade passada, como o acerto de contas possível, aquele que a própria sociedade aceita. Pode não ser o melhor, mas é o que o atual sistema democrático permite fazer. Além disso, dificilmente haverá outra conjuntura tão favorável como a atual. Última chance.

14 de outubro de 2011

Carreira do pesquisador: experiência profissional


Carlos Fico

2. DISSERTAÇÃO: MUITO TRABALHO, POUCO TEMPO

A dissertação de mestrado, de algum modo, é mais difícil do que a tese de doutorado. Recém-saído(a) da graduação, em geral o(a) novo(a) mestrando(a) não tem muita experiência de pesquisa, nem a verdadeira dimensão das tarefas que o(a) esperam.

O curso de mestrado normalmente é feito em apenas dois anos. No programa de pós-graduação em que eu trabalho, o(a) aluno(a) tem de fazer quatro disciplinas no primeiro ano. Em uma delas, ele(a) refaz o projeto de pesquisa que apresentou na seleção. Portanto, ao término do primeiro ano, terá feito três trabalhos finais, além da reformulação do projeto de pesquisa.

No início do segundo ano, é preciso fazer o exame de qualificação, durante o qual uma banca argui o(a) mestrando(a) sobre o seu projeto, o plano de redação da dissertação e um capítulo previamente apresentado. Ou seja, ao longo do primeiro ano, além dos trabalhos finais  das disciplinas e da reformulação do projeto, é preciso encontrar tempo para redigir o capítulo que será avaliado no exame de qualificação.

Tudo isso é bastante difícil. Essa "correria" decorre do prazo imposto pela duração da bolsa de mestrado, de 24 meses. Os programas de pós-graduação cobram esse desempenho dos(as) alunos(as) para que o tempo médio de titulação não se eleve, prejudicando a avaliação do curso. O prazo do doutorado é de 48 meses, o que torna as coisas mais fáceis de certo modo.

A pesquisa propriamente dita fica bastante prejudicada no primeiro ano do mestrado. Será preciso correr no segundo, especialmente depois do exame de qualificação, que costuma ser útil em termos de dicas, mas também pode levar a correções de rumos e a modificações significativas da proposta original.

A escolha do tema da dissertação de mestrado também não costuma ser fácil. Seria conveniente aproveitar a monografia e propor um desdobramento? Se houver fontes novas e questões significativas que ainda possam ser abordadas, essa opção pode facilitar as coisas, afinal, o(a) aluno(a) estará familiarizado(a) com o tema e a bibliografia. O risco é o da especialização precoce: permanecer com um mesmo tema na graduação e na pós pode impedir uma formação intelectual mais ampla - e a nossa profissão depende muito de erudição.

Uma questão essencial é a definição das fontes, dos documentos: como a pesquisa terá de ser feita em um prazo recorde, convém delimitar bem o corpus. Fontes em excesso, carência de documentos, variedade muito grande de tipos documentais, arquivos situados em cidades longínquas - eis alguns erros a serem evitados.

Convém escolher um(a) orientador(a) diligente. Como se trata de uma primeira experiência de pesquisa de maior fôlego, é normal que surjam dificuldades, de modo que é muito útil contar com um(a) orientador(a) que corrija, esteja presente, dê retorno rápido. Um(a) pesquisador(a) renomado(a), que viaje muito ou tenha muitas tarefas pode não ser a melhor opção.

Uma boa dissertação de mestrado deve ser a demonstração de que o(a) candidato(a) ao título de mestre é capaz de produzir um bom exercício de pesquisa. Ela não precisa ser uma tese totalmente original, mas deve ter um problema bem delimitado, documentação pertinente e uma escrita no mínimo razoável.

5 de outubro de 2011

Carreira do pesquisador: a difícil escolha do tema



1. MONOGRAFIA: A PRIMEIRA EXPERIÊNCIA

A monografia é a modalidade de trabalho de conclusão de curso mais comum nos bacharelados em história. Regra geral, o graduando começa a pensar nela na metade final do curso, ali pelo quinto período. As regras variam de departamento para departamento, mas a escolha do tema costuma ser difícil para o aluno.

A definição do tema de uma pesquisa deve obedecer a alguns critérios. A "relevância científica", por exemplo, costuma ser medida pela capacidade que um trabalho tem de corrigir um erro ou uma lacuna do conhecimento. Do mesmo modo, a "originalidade" do enfoque também é levada em conta quando avaliamos a importância de um trabalho. Mas essas exigências não costumam ser feitas ao bacharelando.

Muito mais importante é que ele demonstre a viabilidade de sua proposta. Comumente, o aluno deve fazer um projeto antes da monografia. É o momento da escolha do tema, da demonstração de que a pesquisa é realizável. Como fazer isso?

No caso da monografia, o interesse pessoal e a exequibilidade são os critérios que devem prevalecer. A primeira experiência de pesquisa precisa ser estimulante. Um tema "chato" pode tornar o trabalho infindável. Do mesmo modo, o bacharelando não deve se propor uma tarefa impossível: um tema muito amplo ou para o qual não haja fontes é sempre uma escolha errada.

A construção de um problema é mais difícil do que sua solução. É preciso que o aluno passe por essa experiência, uma das etapas mais importantes da produção do conhecimento. Pedir uma sugestão ao orientador pode facilitar as coisas, mas não é o melhor caminho.

Entretanto, aproximar-se dos professores cujas pesquisas sejam de seu interesse é uma boa dica para o bacharelando. É preciso ter alguma familiaridade com o assunto, ler o que já se escreveu. Do mesmo modo, também é útil frequentar jornadas de iniciação cientifica ou outros eventos desse tipo.

Outra estratégia fundamental é o recorte do tema. O nome já diz tudo: trata-se de uma monografia, não de uma tese. Digamos que você se interesse pelos temas da "ditadura militar". Isso é muito amplo. Um recorte poderia ser, então, "a propaganda política da ditadura militar". Bem, ainda é muito amplo. Que tal estudar "as campanhas de utilidade pública da propaganda política da ditadura militar"? Talvez no mestrado. Algo bem recortado seria: "o personagem Sujismundo nas campanhas de utilidade pública da propaganda política da ditadura militar".

Por que é necessário recortar tanto? Evidentemente, para viabilizar o trabalho. O recorte preciso permite identificar um corpo bem definido de fontes. Além disso, a delimitação rigorosa permite que reunamos virtualmente tudo o que já foi dito sobre o tema - algo que seria impossível se o tema fosse muito abrangente.

Definido o tema, as coisas se tornam mais fáceis: fazer um bom levantamento bibliográfico e ler o que já foi escrito sobre o assunto - essas são as etapas mais importantes. Durante essas leituras algo muito interessante acontece: nós construímos mentalmente hipóteses explicativas. Você vai controlando mais e mais a sua pesquisa e, por isso mesmo, consegue perceber nexos explicativos, analíticos.

A monografia também é um bom momento para testar sua vocação: se a busca de um tema do passado, a construção de um problema histórico e o esforço de pesquisa para resolvê-lo forem muito prazerosos, não tenha dúvida, você nasceu para ser um historiador.

Brevemente tratarei da dissertação de mestrado e da tese de doutorado.