14 de outubro de 2011

Carreira do pesquisador: experiência profissional


Carlos Fico

2. DISSERTAÇÃO: MUITO TRABALHO, POUCO TEMPO

A dissertação de mestrado, de algum modo, é mais difícil do que a tese de doutorado. Recém-saído(a) da graduação, em geral o(a) novo(a) mestrando(a) não tem muita experiência de pesquisa, nem a verdadeira dimensão das tarefas que o(a) esperam.

O curso de mestrado normalmente é feito em apenas dois anos. No programa de pós-graduação em que eu trabalho, o(a) aluno(a) tem de fazer quatro disciplinas no primeiro ano. Em uma delas, ele(a) refaz o projeto de pesquisa que apresentou na seleção. Portanto, ao término do primeiro ano, terá feito três trabalhos finais, além da reformulação do projeto de pesquisa.

No início do segundo ano, é preciso fazer o exame de qualificação, durante o qual uma banca argui o(a) mestrando(a) sobre o seu projeto, o plano de redação da dissertação e um capítulo previamente apresentado. Ou seja, ao longo do primeiro ano, além dos trabalhos finais  das disciplinas e da reformulação do projeto, é preciso encontrar tempo para redigir o capítulo que será avaliado no exame de qualificação.

Tudo isso é bastante difícil. Essa "correria" decorre do prazo imposto pela duração da bolsa de mestrado, de 24 meses. Os programas de pós-graduação cobram esse desempenho dos(as) alunos(as) para que o tempo médio de titulação não se eleve, prejudicando a avaliação do curso. O prazo do doutorado é de 48 meses, o que torna as coisas mais fáceis de certo modo.

A pesquisa propriamente dita fica bastante prejudicada no primeiro ano do mestrado. Será preciso correr no segundo, especialmente depois do exame de qualificação, que costuma ser útil em termos de dicas, mas também pode levar a correções de rumos e a modificações significativas da proposta original.

A escolha do tema da dissertação de mestrado também não costuma ser fácil. Seria conveniente aproveitar a monografia e propor um desdobramento? Se houver fontes novas e questões significativas que ainda possam ser abordadas, essa opção pode facilitar as coisas, afinal, o(a) aluno(a) estará familiarizado(a) com o tema e a bibliografia. O risco é o da especialização precoce: permanecer com um mesmo tema na graduação e na pós pode impedir uma formação intelectual mais ampla - e a nossa profissão depende muito de erudição.

Uma questão essencial é a definição das fontes, dos documentos: como a pesquisa terá de ser feita em um prazo recorde, convém delimitar bem o corpus. Fontes em excesso, carência de documentos, variedade muito grande de tipos documentais, arquivos situados em cidades longínquas - eis alguns erros a serem evitados.

Convém escolher um(a) orientador(a) diligente. Como se trata de uma primeira experiência de pesquisa de maior fôlego, é normal que surjam dificuldades, de modo que é muito útil contar com um(a) orientador(a) que corrija, esteja presente, dê retorno rápido. Um(a) pesquisador(a) renomado(a), que viaje muito ou tenha muitas tarefas pode não ser a melhor opção.

Uma boa dissertação de mestrado deve ser a demonstração de que o(a) candidato(a) ao título de mestre é capaz de produzir um bom exercício de pesquisa. Ela não precisa ser uma tese totalmente original, mas deve ter um problema bem delimitado, documentação pertinente e uma escrita no mínimo razoável.

3 comentários:

  1. Belo texto.. vou divulgar...

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  2. Excelente,chega ser entusiasmante. Espero consiguir desenvolver minha dissertação...essa correria me espera!

    Parabéns,Fico!

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  3. Professor Carlos Fico, muito bom mesmo este texto. Ele dá segurança e um norte para pessoas como eu que recém saíram da Graduação e que sonham com o Metrado.
    Fiz questão de publicar este texto no Blog Falando de História. Deixo o endereço do post: http://falando-historia.blogspot.com/2012/02/carreira-do-pesquisador-experiencia.html
    Um abraço
    Noé Gomes

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