5 de novembro de 2011

Carreira do pesquisador: marca profissional

Carlos Fico

3. DOUTORADO: A BUSCA DE AUTONOMIA

A tese de doutorado nos marca até o fim da vida: passados tantos anos, ainda me perguntam sobre a propaganda política da ditadura militar (tema da minha) como se eu tivesse defendido o trabalho poucos meses atrás.

Isso também vai acontecer com você, então convém escolher bem o tema. Tenho colegas que mal conseguem ouvir falar do assunto de suas teses e ficam aborrecidos porque atraem orientandos interessados nele. Além disso, é preciso pensar na inserção profissional: se você pretende se tornar professor dessa ou daquela área, convém lembrar que uma tese pertinente será bastante valorizada na hora de fazer um concurso.

Até os anos 1970 e início dos 1980, a conclusão de uma tese de doutorado podia levar sete, oito anos. Hoje fica em torno de quatro, pelas mesmas razões que o mestrado leva em média dois anos: o prazo das bolsas das agências de fomento e a pressão dos cursos que controlam o tempo médio de titulação (item importante da avaliação feita pelo governo federal).

Mas isso faz bastante sentido. A tese não é o “ponto final” ou a “obra-prima", mas o início da carreira de um pesquisador autônomo. No passado, o historiador fazia seu doutorado, publicava sua tese e ficava por aí: poucos prosseguiam pesquisando. Hoje, espera-se que o jovem doutor inicie, com sua tese, uma trajetória de pesquisas.

Em nossa área valorizamos os trabalhos que demonstram erudição, minudência, controle do “ofício”. Agora, além daquilo que já foi exigido no mestrado (tema claramente definido, bom corpus documental, domínio do arcabouço conceitual e dos métodos), espera-se que a tese tenha uma “tese”, isto é, uma proposição, um ponto de vista original sobre o tema em pauta.

A busca de densidade e de erudição está facilitada, hoje em dia, pelo fácil acesso à produção intelectual estrangeira. No passado recente, poucos privilegiados tinham acesso a livros e revistas estrangeiros. Agora é fácil, com os portais de periódicos e as livrarias na internet. É muito importante que uma tese dialogue com a bibliografia internacional, mesmo que se trate de um tema da História do Brasil. Nesse caso, a capacidade de o autor estabelecer conexões com temas correlatos, análogos, é uma evidência de sua erudição e criatividade.

Erudição, aliás, nada tem a ver com enfadonhos capítulos teóricos introdutórios, que apenas repetem o que a banca já sabe. Não é preciso mostrar que conhece todos os autores da moda. Em geral, o bom equacionamento teórico não é explícito, mas construído ao longo da pesquisa, em conformidade com um arcabouço conceitual pertinente.

O longo capítulo teórico introdutório causa outro efeito negativo: impede que o leitor “chegue” logo ao tema. É muito frequente esse tipo de crítica nas sessões de defesa: o tema parece interessante, mas não se inicia logo.

Algumas questões práticas são importantes: você pretende publicar a tese em forma de livro? Prefere, talvez, gerar vários artigos em periódicos? Pensando com antecedência nessas questões, um plano de redação adequado poderá auxiliar a futura publicação da tese.

O plano de redação, aliás, é muito importante. Pensar a estrutura de capítulos antes de iniciar a pesquisa e a redação parece óbvio, mas muitas vezes isso é feito improvisadamente. Em geral, no doutorado, queremos inovar em matéria de estrutura, rompendo com a cronologia, propondo alterações na narrativa linear, ousando em todos os sentidos. A não ser que se sinta muito seguro como escritor, vá com cuidado: você pode deixar isso para depois, quando for um pesquisador autônomo e não tiver de passar por uma banca.

Nem é preciso dizer que a escolha da banca é muito importante. Opte por uma banca de alto nível, que qualificará sua tese. Uma arguição rigorosa mostra interesse pelo seu trabalho. Seu orientador será solidário: ele autorizou sua defesa e é corresponsável. Você passará por uma experiência inesquecível.

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