17 de dezembro de 2011

Os voos da morte

Carlos Fico

O extermínio busca a realização de uma quimera, isto é, de um projeto absurdo, irrealizável, uma utopia autoritária ou totalitária. Uma tentativa de saneamento brutal e interminável, porque o exterminador sempre encontrará novos estímulos, como acontece com as pessoas que sofrem de neuroses obsessivas.

Isso se deu em diversos momentos da história recente, sendo emblemático o caso do holocausto durante a Segunda Guerra Mundial, espécie de “evento-chave” para os analistas que associam o século XX à violência. O extermínio de judeus funciona como uma metáfora de outras histórias traumáticas, como as políticas genocidas em Ruanda, Bósnia e Kosovo ou as ditaduras militares latino-americanas.

Isso aconteceu de maneira bastante atenuada durante a ditadura militar brasileira. Aqui, não chegou a se consolidar uma política sistemática de extermínio, mas a dimensão saneadora esteve muito presente no Brasil daquela época, sobretudo através da tortura, que, muitas vezes, levou à morte.

Na ditadura argentina as coisas foram piores. Os casos dos sequestros de bebês e dos voos da morte têm vindo à tona na imprensa. Eram formas de manifestação da política de extermínio: presos os pais “contaminados” pelo comunismo ou pela subversão, sua “reprodução” era supostamente interrompida dando-se seus filhos para serem criados por militares.

No caso dos voos da morte, as vítimas eram dopadas e atiradas ao mar de um avião. Na semana passada, algumas fotos de vítimas foram divulgadas. Há relatos de que, em alguns casos de selvageria extremada, os prisioneiros, lúcidos, eram enrolados em papel higiênico e lançados ao mar para viverem seu tormento. A água diluía o papel e o corpo emergia sem sinais.

A narrativa histórica da violência impõe muitos cuidados. A dimensão ético-moral desses eventos traumáticos e sua proximidade tornam o historiador muito suscetível ao que ele narra. Muitos de nós temos transitado com dificuldades pela fronteira que separa a atitude simplesmente condenatória (que, afinal, explica pouco) e as formas de humanização dos algozes (desacerto comum, por exemplo, no cinema e na literatura que examinam a “infância problemática” dos que atuaram na repressão).


Como narrar o indizível?

Um comentário:

  1. Caro Carlos Fico, gostaria de lhe pedir algumas informações:
    1- Uma bibliografia que relate um pouco sobre casos que houveram o voo da morte
    2 - E se houveram esses voos no Brasil?

    Queria lhe parabenizar pelo blog, brilhante a forma que traduz os temas da história recente para a toda sociedade e não apenas dialogando com os academicos. Sou estudante de História e aprecio muito aqueles que se importam com o fato que o conhecimento não se restringe
    à universidade!

    ResponderExcluir