18 de dezembro de 2012

Carreira do pesquisador: escrita

Portrait of a Man Writing in His Study, Gustave Caillebotte

Estarei em recesso até março aproveitando para escrever um ensaio acadêmico sobre a violência nas ditaduras argentina e brasileira. Como coordenador da Área de História da Capes, eu avalio os programas de pós-graduação, mas também preciso produzir! Pensando em recesso e escrita, escrevi sobre esses temas; veja abaixo. Até a volta!



Carlos Fico

Quando digo que não vou adiar minha aposentadoria, meu colegas descreem e ameaçam: “Vai ficar deprimido”. Penso que terei todo o tempo do mundo para escrever livros e artigos. Faço história porque gosto de escrever. Descobertas surpreendentes fascinam: arquivos inéditos, buscas detetivescas. Também alego a questão teórica. Por exemplo, a proximidade temporal compromete ou facilita o trabalho do historiador? Mas não tenho dúvida de que a busca da palavra exata, da frase concisa, é o principal.

Reproduzo, então, três passagens de dois autores que sempre tenho em mente quando começo a redigir um novo trabalho. São trechos relativamente longos, voltados para a literatura, um pouco egolátricos, mas inspiradores para os que tenham a vocação para a escrita.

Os dois primeiros integram o diário de Alvaro Lins, Literatura e vida literária (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1963), livro bastante amargo:

“O momento de escrever sempre traz para o verdadeiro escritor uma sensação penosa e angustiante. Uma espécie de sentimento de medo ou de angústia. Certamente que não é indolência aquilo que o faz adiar o seu trabalho até o último instante possível. Ao contrário: o verdadeiro escritor ama e deseja o trabalho literário; e nessa situação mesma é que se encontrará a causa de suas hesitações. Imagina a literatura com a maior seriedade, e se imagina, por isso, indigno dela. Experimenta ao escrever um duplo sofrimento: antes, a incerteza, o receio, o medo de que nada consiga escrever; depois, o desgosto do que escreveu: a certeza de que o seu trabalho vale muito pouco, ou quase nada, porque tudo o que realiza se coloca infinitamente abaixo do que imagina e deseja. // Luta dramática esta que se desenvolve, no espírito do escritor, entre a sua idealização e a sua realização. As ideias, os pensamentos, os planos não são difíceis em si mesmos; a dificuldade toda se encontra na expressão em palavras. Não sei de nada mais comovente do que essa luta de um escritor com as palavras que precisam ser conquistadas e dominadas. // Fico assombrado diante da leviandade e da inconsciência com que os falsos escritores jogam com as palavras, como se elas fossem uns brinquedos inofensivos e fosse a literatura um divertimento sem consequências.” (p. 70).

“Exercício de vontade. – Ler com método, tomando notas e pondo em ordem, por escrito, as impressões. Escrever, escrever sempre, todos os dias, escrever mesmo banalidades, não para publicar, mas como quem pratica um ofício, com a finalidade de pesquisar os processos da forma. Muitos dos nossos estudos e leituras são mal aproveitadas por falta de método. Voltar a ler certos autores fundamentais como Bergson e Proust, com o lápis na mão e o caderno nas pernas. Dominar a preguiça, sufocar o gosto das evasões para livros mais agradáveis porque mais fáceis; não deixar-se vencer pelo simples prazer da leitura como um diletante.” (p. 186)

O terceiro trecho está em uma carta de Graciliano Ramos à mulher, Heloísa, de 3 de abril de 1935, fácil de encontrar na internet:

“Somos uns animais diferentes dos outros, provavelmente inferiores aos outros, duma sensibilidade excessiva, duma vaidade imensa que nos afasta dos que não são doentes como nós. Mesmo os que são doentes, os degenerados que escrevem história fiada, nem sempre nos inspiram simpatia: é necessário que a doença que nos ataca atinja outros com igual intensidade para que vejamos nele um irmão e lhe mostremos as nossas chagas, isto é, os nossos manuscritos, as nossas misérias, que publicamos cauterizadas, alteradas em conformidade com a técnica."

6 de dezembro de 2012

O mastro que Niemeyer não previu



O “mastro monumental” de Brasília não foi previsto pelo arquiteto Oscar Niemeyer. Foi projetado por Sérgio Bernardes, em 1969, em plena ditadura e, segundo muitos arquitetos, desrespeita a concepção original segundo a qual o prédio do Congresso deveria ser a última coisa visível no Eixo Monumental – depois, só o horizonte.

O “Monumento ao Pavilhão Nacional”, como é chamado, foi construído às pressas em 1972 para que sua inauguração coincidisse com o Dia da Bandeira. A ideia foi do coronel Rubem Ludwig, que pretendia erguer um pequeno mastro na Praça dos Três Poderes. Entretanto, o governador do Distrito Federal, Hélio Prates, influenciado pelo arquiteto Sérgio Bernardes, optou pelo mastro monumental. Ele é montado a partir de 24 tubos de aço, representando os estados e territórios então existentes. No alto de seus 200 metros, a peça de nylon, de 280 metros quadrados. O conjunto é iluminado por holofotes fotoelétricos, de modo que a bandeira nunca precisa ser arriada quando escurece.

Milhares de pessoas acompanharam a solenidade de inauguração. Alto-falantes, postos na cobertura do Palácio do Planalto, anunciaram a fala do presidente Médici: “Ordeno que seja hasteada a Bandeira Nacional!”, lacônica e solene como o texto da placa que assinala a inauguração, na qual se leem as palavras que o coronel Octávio Costa – responsável pela propaganda política do regime –  redigiu: “Sob a guarda do povo brasileiro, nesta Praça dos Três Poderes, a bandeira sempre no alto – visão permanente da pátria”.

Distanciamento e monumentalidade que nem mesmo a comoção nacional causada pelo morte de Tancredo Neves, treze anos depois, conseguiria anular: a multidão que esperava a chegada do caixão pedia que a bandeira também ficasse a meio-mastro, em função do luto no país: “Baixa! Baixa!”, e a bandeira sempre no alto...

14 de novembro de 2012

Mensalão, pizza e memória

Carlos Fico

O julgamento do mensalão é uma boa oportunidade para se pensar uma trajetória histórica brasileira que não tem sido devidamente destacada e valorizada: o país tem feito progressos significativos em relação ao combate à corrupção. Essa frase deve causar espanto à maioria das pessoas. Estamos tão acostumados com simplificações do tipo “no Brasil, tudo acaba em pizza”, que muitos talvez não se deem conta das mudanças em curso.


Não me refiro apenas à condenação dos réus do mensalão. Penso, sobretudo, na inevitabilidade dessas condenações: havia pouca dúvida de que algo aconteceria nesse julgamento. Dificilmente o STF deixaria de punir alguém. Qual a razão dessa percepção? Partidários do PT identificam uma sanha persecutória que também deveria se abater sobre a “direita” – o que expressaria uma injustiça. Não creio que se trate disso.

A condenação dos réus do mensalão se deu como poderia ter havido a condenação dos implicados em qualquer outra atividade corrupta que, porventura, tivesse sido denunciada neste particular momento histórico. Estamos em uma espécie de culminância de um processo bastante definido, o da construção das condições que permitam o exercício da cidadania no contexto das inter-relações entre privado e público.

Vinte anos atrás, o irmão do então presidente da República concedeu uma entrevista escandalosa à revista Veja denunciando um esquema de corrupção liderado pelo tesoureiro de sua campanha eleitoral. O Congresso instalou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que terminaria por levar ao impeachment de Collor. Foi nessa atmosfera que atuou o "Movimento pela Ética na Política". Todos sabem como essa história terminou. O julgamento de Collor também assinalou o protagonismo que o STF paulatinamente vem assumindo no Brasil, já que a sessão do Senado que o julgou foi comandada pelo presidente do tribunal.

O julgamento de Collor (cuja condenação também contou com poucas provas materiais) foi impulsionado por um clamor público que, já na ocasião, inseria-se em uma sucessão de eventos inter-relacionados. Penso, sobretudo, nas CPIs, hoje tão malvistas. Elas foram fortalecidas pela Constituição de 1988. Durante o governo Sarney, houve muitas acusações de corrupção e investigações que não levaram a nada. A CPI dos “Anões do Orçamento” (1993) mostrou as tremendas fragilidades institucionais do Congresso que, após o fim da ditadura militar, passou a ter responsabilidades maiores em relação ao orçamento da União. Outras CPIs famosas também poderiam ser citadas.

Elas foram importantes nem tanto pelas punições que geraram, mas, principalmente, pelo aprimoramento institucional do país. Ao expor, publicamente, não apenas a corrupção, mas a fragilidade institucional brasileira que permitia (e ainda permite) tantos desvios, serviram para que o país buscasse aprimoramentos nos campos da responsabilização fiscal, das licitações, das transações financeiras, dos processos eleitorais e em tantos outros. Mas esse processo histórico – que inclui as CPIs, o Movimento pela Ética na Política, o impeachment etc. – também foi importante para despertar virtudes cívicas, esse nosso longo processo pedagógico de valorização dos direitos civis, da cidadania.

Uma das bandeiras dos golpistas de 1964 era o combate à corrupção. O regime militar criou, em 1969, um tribunal de exceção para punir supostos corruptos, a temida CGI (Comissão Geral de Investigacões). O julgamento era sumário, o público não tinha conhecimento dos processos. Os condenados tinham seus bens confiscados através de um decreto arbitrário do presidente da República baseado no AI-5. Muitas injustiças foram cometidas. Inocentes foram acusados de corruptos e não tiveram como se defender.

Hoje temos a imprensa livre. A suprema corte brasileira não está intimidada por um Poder Executivo todo-poderoso. A sociedade rejeita a corrupção não apenas como um slogan moralista que já levou homens como Jânio Quadros e Fernando Collor ao poder: o processo histórico a que estou me referindo tem servido para a consolidação de uma atitude proativa, consequente.

Por tudo isso, sentíamos que, “dessa vez”, alguma coisa iria acontecer. Outras condenações virão. Mais importante ainda: essas condenações resultarão em outros tantos aprimoramentos institucionais – como o financiamento público das campanhas eleitorais.

Nem tudo no Brasil "acaba em pizza". Não somos um "povo sem memória".

26 de setembro de 2012

Verdade para todos

La Bocca della Veritá (Roma)

Carlos Fico

Por que os trabalhos da Comissão da Verdade mobilizam apenas a militância dos direitos humanos?

Quando a Comissão Interamericana de Direitos Humanos visitou a Argentina, em 1979, ainda durante a ditadura, formaram-se filas de pessoas que traziam suas denúncias. Depois do término do regime militar, a entrega e publicação do relatório final da Comisión Nacional sobre la Desaparición de Personas alcançou grande repercussão.

A Comissão da Verdade da África do Sul transmitiu suas audiências pela TV e pelo rádio.

A comissão brasileira está há seis meses trabalhando, desde março deste ano. Somente neste mês de setembro decidiu que vai mesmo enfatizar a ditadura militar (e não todo o período 1946/1988, como estabelece a lei que a criou) e que apenas investigará os "agentes públicos" e não os adversários do regime, resposta à polêmica sobre investigar apenas um ou os dois "lados".

Nos eventos públicos que promove, a frequência é quase sempre a mesma, reunindo vítimas e parentes de vítimas da repressão durante o regime militar, militantes que lutam pela defesa dos direitos humanos, segmentos organizados da sociedade (movimento estudantil, alguns sindicatos), pesquisadores e quase só. As questões que a Comissão da Verdade tem levantado aparentemente não interessam à maioria da sociedade.

Isso não mudará se alguma providência não for tomada. Em agosto passado, atendendo a convite, falei à comissão sobre as razões do golpe de 1964. No final da minha exposição, pedi licença para considerar outras questões. Afirmei que seria importante incluir as "pessoas comuns" no rol das vítimas.

De fato, muitas pessoas que não participaram da luta armada, ou sequer faziam oposição ostensiva à ditadura militar, foram vítimas do regime. Mas quase não se fala delas. Um professor universitário, por exemplo, pode ter sido cogitado para um cargo de chefia qualquer em sua universidade, mas não foi promovido porque a espionagem da época impediu. Casos assemelhados podem ter acontecido nas empresas estatais e autarquias. Essas pessoas podem nem ao menos saber o que lhes aconteceu.

Políticos inexpressivos de pequenas cidades podem ter sido injustamente investigados pela Comissão Geral de Investigações (um tribunal de exceção que julgava sumariamente supostos corruptos) apenas porque um adversário local, por vingança pessoal, enviou uma carta acusando-o.

Cineastas, dramaturgos, atores, escritores e músicos foram censurados. Não necessariamente porque produziam obras de arte críticas, de protesto, mas, por exemplo, porque o censor da época identificou algo de "imoral" em seus trabalhos.

A abordagem desses e de outros casos assemelhados pela Comissão da Verdade talvez conferisse outra dimensão aos seus trabalhos, chamando a atenção da sociedade para o fato de que a ditadura militar brasileira foi muito violenta - mesmo que no Brasil não tenha havido tantos mortos quanto no caso da Argentina. Nesses exemplos não houve tortura ou assassinato, mas eles também são expressão de um tipo de violência, decorrente da capacidade do regime brasileiro de invadir o cotidiano das pessoas e - segundo seus critérios obscuros - fazer o que quisesse.

Essas histórias estão guardadas nos documentos recentemente liberados pelo Arquivo Nacional. Seria preciso pesquisá-los.

28 de agosto de 2012

Como entrar no mestrado em História

Carlos Fico

Volto ao tema da carreira do pesquisador (veja links para outros posts relacionados mais abaixo) atendendo a pedidos de leitores que querem dicas sobre como ser aprovado em uma seleção para um curso de mestrado em História.

Antes de mais nada, vale a pena lembrar a importância do mestrado em História. Em outras áreas do conhecimento, existe a suposição de que o mestrado perde importância, porque seria melhor preparar logo os alunos para o doutorado, até mesmo em função da carência de doutores. No caso da História, isso não faz sentido.

O historiador precisa de maturidade intelectual, de erudição, e isso demanda algum tempo. No mestrado, o graduado poderá cursar disciplinas de pós-graduação, ampliar sua carga de leituras, receber orientação individualizada, frequentar eventos acadêmicos e, sobretudo, conduzir uma pesquisa profissional. Essas atividades lhe darão experiência e o prepararão para o doutorado.

O objetivo principal do mestrado é ensinar como se faz, autonomamente, uma pesquisa histórica. Não há exigência de grande originalidade, mas é essencial que o candidato ao grau de mestre comprove sua capacidade de propor um problema criativo, de lidar com as fontes e sistematizá-las e de redigir uma dissertação. Seu trabalho, finalmente, será arguido por uma banca em geral composta pelo orientador e mais dois examinadores, sendo comumente um de fora do próprio curso. Isso tudo deverá ser feito em dois anos.

Existem hoje no Brasil 62 cursos de mestrado recomendados pela Capes. Eles recebem notas entre 3 e 7, sendo 7 a melhor. Portanto, vale a pena dar uma olhada na nota do curso pretendido, embora todos esses cursos, inclusive os que contam com a nota menor, sejam chancelados por uma rigorosa avaliação governamental. Verifique, também, se o curso costuma oferecer bolsas para os selecionados.

A seleção, regra geral, consiste em algumas etapas: prova escrita baseada em uma bibliografia divulgada previamente no edital de seleção; análise do projeto ou pré-projeto de pesquisa apresentado pelo candidato; prova de língua estrangeira (normalmente, é possível escolher entre inglês e francês) e entrevista. Há variações, mas essas costumam ser as provas mais frequentes.

Leia com atenção o edital. Por exemplo, no programa de pós-graduação em que trabalho, até algum tempo atrás, era exigido que, na prova escrita, o candidato considerasse o seu projeto de pesquisa diante da bibliografia exigida. Em outros casos, a prova escrita tem um formato tradicional, quer dizer, você deverá responder a perguntas formuladas a partir da bibliografia. Verifique o que será solicitado e prepare-se nesse sentido. Evite resumir o que está dito nos livros, tentando, na medida do possível, levantar questões criativas, conduzindo sua prova para algum ponto que pareça significativo diante das questões formuladas. Aposte na densidade do texto e não em sua extensão, evitando provas enormes, até mesmo para dar tempo de lê-la e relê-la, evitando erros graves de português - o que é em geral mal visto pelos avaliadores.

O projeto de pesquisa é muito importante. Certifique-se, pelo menos, de três coisas: um problema claramente definido, um acervo de fontes que permita enfrentar a questão e um bom levantamento bibliográfico que indique que você está familiarizado com o que já foi publicado sobre seu tema. Hoje é relativamente fácil fazer um bom levantamento bibliográfico usando as bibliotecas, bancos de teses e portais de periódicos disponíveis na internet (procure, por exemplo, o Portal de Periódicos da Capes e o JSTOR). Você não precisa ter lido toda a bibliografia que listar, mas o básico, sim. Indique, no projeto, o que já leu. É essencial definir as fontes que usará: se você tem um problema claramente definido e fontes que permitam trabalhá-lo, está no caminho certo. Evite digressões teóricas muito genéricas e prefira discussões conceituais que sejam pertinentes ao seu projeto.

A prova de língua estrangeira pretende verificar se você é capaz de ler um texto de História naquele idioma. Um bom treinamento consiste em ler textos na língua em pauta que tenham a ver com o tema do seu projeto: assim, você poderá incorporar bibliografia internacional ao seu projeto e estudar para a prova de língua estrangeira ao mesmo tempo.

Quando houver uma entrevista ou algo assemelhado (arguição do projeto, por exemplo), procure manter a tranquilidade. Se isso for muito difícil, comece dizendo aos examinadores que está nervoso: isso ajuda a relaxar. Ouça com atenção as perguntas e responda objetivamente, sem monopolizar a palavra. Se não souber responder, diga que ainda não havia pensado nesse aspecto e agradeça a sugestão. 

Os alunos que se graduam em um departamento de História que conte com curso de mestrado têm maior familiaridade com os possíveis orientadores e com as linhas de pesquisa do curso. Para um aluno que venha de fora, convém buscar, previamente, o máximo de conhecimento sobre o curso e suas linhas de pesquisa. Também é uma boa ideia verificar o currículo Lattes do orientador pretendido e dos membros da banca.

Boa sorte!

Carreira do pesquisador: marca profissional (doutorado)
http://www.brasilrecente.com/2011/11/carreira-do-pesquisador-marca.html

Carreira do pesquisador: marca profissional (mestrado)
http://www.brasilrecente.com/2011/10/carreira-do-pesquisador-experiencia.html

Carreira do pesquisador: a difícil escolha do tema
http://www.brasilrecente.com/2011/10/carreira-do-pesquisador-dificil-escolha.html

A carreira do professor de história
http://www.brasilrecente.com/2011/07/carreira-do-professor-de-historia.html

30 de julho de 2012

Documentos inéditos da ditadura



Perguntas que não puderam ser respondidas ao vivo durante a videoconferência transmitida no último dia 9 de julho.


Pedro Beja: Com a abertura dos aquivos e com a possibilidade de qualquer pessoa perquisá-los, não há possibilidade de alguns documentos serem surrupiados ou “maquiados” por pessoas ligadas a eles?
Carlos Fico: Não. Os documentos ficam sob a guarda do Arquivo Nacional e não é possível adulterá-los.

Rodrigo Mello: Qual a importância, histórica e política, dos documentos, até então secretos, sobre o período anterior a 1964?
Carlos Fico: Nesses acervos há pouca coisa do período anterior a 1964, infelizmente. Trata-se de uma fase que bem merece maiores investigações.

fabtrevisan: Há alguma previsão para a digitalização total dos documentos?
Carlos Fico: Eu não pertenço aos quadros do Arquivo Nacional, então não sei dizer. Mas a digitalização é essencial e eu tenho notícias de que a instituição tem investido nisso.

Lucas: O senhor conhece a existência de alguma nova documentação inédita sobre o IPES, além do Fundo IPES já existente no Arquivo Nacional?
Carlos Fico: Não tenho notícia.

Seriedade e Respeito: Como tratar deste assunto em sala de aula no ensino médio?
Carlos Fico: Boa pergunta. Eu acho que nós temos de nos basear no que há de melhor na historiografia recente e usar as fontes em sala de aula como forma de atrair a atenção dos alunos. Trabalhar com as fontes é sempre estimulante e, agora, elas estão disponíveis.

paulojoaosilva: qual link da pagina dos pesquisadores no facebook?
Carlos Fico: http://www.facebook.com/groups/444546708903682/

Nei AN: Professor é possível saber através das fichas financeiras dos servidores quem recebeu gratificações do SNI?
Carlos Fico: Não encontrei esse material, então não sei responder.

MMarcia: Quais seriam os possíveis impactos causados pela divulgação dos documentos?
Carlos Fico: Veremos com o tempo: a documentação está sendo conhecida agora.

Denise Felipe: Gostaria que o professor falasse um pouco sobre o trabalho do historiador que lida com arquivos privados referentes à história recente.
Carlos Fico: Os arquivos privados desempenham um importante papel. Infelizmente, há pouca coisa disponível. Um bom conjunto de arquivos pode ser encontrado no CPDOC da FGV.

Silvana Araujo: Você acha que o fato desses documentos virem a conhecimento público pode causar a punição dos culpados mais tarde?
Carlos Fico: É possível que novas ações na Justiça surjam a partir de revelações contidas nesses documentos.

Alexandre de Souza: Todas as faculdades e pesquisadores terão acesso aos arquivos? Haverá algum tipo de restrição?
Carlos Fico: Não há restrição, todos podem ter acesso.

Raquel Fonseca: Pelo contato que você teve com a documentação você acha que é possível descobrir novas fontes sobre a Operação Condor?
Carlos Fico: O problema para encontrar registros sobre a Operação Condor no Brasil é que os militares brasileiros não admitiam a ideia de se subordinarem aos militares latino-americanos. Então, embora tenha havido colaboração, a menção ao nome “Condor” é rara.

Namur Barcellos: Onde acho documentações sobre o envolvimento do Brasil no Golpe do Chile? Só no SNI no Itamaray?
Carlos Fico: Não, é bom rastrear os documentos do SNI sobre “campo externo” e os do Centro de Informações do Exterior e da Divisão de Segurança e Informações do Ministério das Relações Exteriores.

Adson Rodrigo Silva: Quais ainda são as restrições em arquivos federais e estaduais? Todos os arquivos devem ser realmente abertos pela lei? Sugestão: professor, sugiro a confecção de um artigo sobre esses acessos e alguns desses instrumentos.
Carlos Fico: Todos os arquivos devem obedecer a lei. O importante é demandarmos essa abertura.

Leandro de Almeida: Até que ponto esses documentos revelam a relação entre a ditadura militar brasileira e a CIA (EUA)?
Carlos Fico: É mais fácil encontrar essas referências no arquivo norte-americano, o National Archives and Records Administration (NARA). Há muita coisa lá, tal como escrevi em meu livro “O grande irmão”.

Raquel Fonseca: Os arquivos do IPES, que já estavam no Arquivo Nacional com acesso parcial, estão liberados?
Carlos Fico: Têm de estar. Precisa pedir e, se tiver algum problema, reclamar.

Thomaz: Gostaria de saber como ter acesso a documentos sobre grupos guerrilheiros que se instalaram em áreas de fronteira. No meu caso, estudo grupos guerrilheiros que se instalaram na fronteira de Foz do Iguaçu com Ciudad del Este e Puerto Iguazu.
Carlos Fico: Uma boa idéia é pesquisar os fundos do SNI sobre “campo externo” e os do Centro de Informações do Exterior e da Divisão de Segurança e Informações do Ministério das Relações Exteriores.

Daniel Marques: Sugestão ao Carlos Fico: professor poderia permitir assinaturas em sua página do facebook, ficará mais fácil acompanhar suas postagens. Muito obrigado!
Carlos Fico: Para participar do grupo é só pedir que eu adiciono.

Milene de Souza: Os estados da região Norte participaram das resistências contra a ditadura militar?
Carlos Fico: As pesquisas sobre o impacto da ditadura na região Norte ainda são muito poucas. Uma boa ideia para detectar a existência de resistência e o acompanhamento dos órgãos de informações é a consulta aos acervos desse fundos no Arquivo Nacional. Dá para fazer uma busca pelos nomes dos estados e das principais cidades, por exemplo.

13 de julho de 2012

Avaliação da pós-graduação: produtivismo?


Carlos Fico

Torna-se cada vez mais frequente a crítica à avaliação dos cursos de pós-graduação feita pela Capes em termos de que haveria um parâmetro excessivamente "produtivista", isto é, baseado em um número supostamente demasiado de publicações que seria exigido dos professores.

Recentemente, quatro colegas do Programa de Pós-graduação em História da UFPB solicitaram seu desligamento alegando que haveria uma "busca desenfreada de metas quantitativas".

Como Coordenador da Área de História junto à Capes, parece-me conveniente buscar esclarecer certos aspectos.

A avaliação da pós-graduação em nossa área adota critérios eminentemente qualitativos baseados em um princípio que poderíamos chamar de "processo social do conhecimento", isto é, a avaliação feita pelos pares. Os periódicos nos quais publicamos são assim avaliados e recebem uma nota que varia de A1 a B5. Os critérios de avaliação dos periódicos são públicos e bastante referendados pela comunidade científica.

Os livros integrais e capítulos que publicamos também são avaliados segundo critérios públicos através de uma comissão de historiadores que atribui notas que variam de L4 a L1.

As avaliações da pós-graduação brasileira são feitas trienalmente. Assim, considera-se a produção intelectual de um professor ao longo de três anos.

Parte-se da realidade, isto é, da quantidade de artigos, capítulos e livros publicados no triênio em questão. Não há uma exigência numérica a priori. Isso permite à Capes detectar a média da produção dos programas.

Por exemplo, os programas de pós-graduação em História nota 3, no último triênio, tiveram uma média de produção próxima de 1 (um) item (artigo, capítulo ou livro). Ou seja, um professor de um programa nota 3 que, ao longo de três anos, publicou um único artigo em periódico qualificado ou um único capítulo ou um único livro avaliado entre os conceitos L4 e L1 terá atingido a média. Esta, certamente, não é uma exigência descabida.

No caso dos programas nota 4, 5, 6 ou 7 as médias sobem. Por exemplo, a média da produção de um professor de um programa nota 5 ou 6 oscila entre 3 e 4 itens (ou seja, 3 ou 4 artigos e/ou capítulos etc.) ao longo de três anos. Isso não significa que o professor desse programa tenha de publicar no triênio 3 ou 4 artigos seminais que revolucionem a historiografia brasileira. O perfil usual consiste na publicação de um artigo, capítulo ou livro mais denso e de mais algumas publicações decorrentes, por exemplo, da costumeira participação em seminários ou congressos que, frequentemente, produzem anais com nossas intervenções.


É preciso destacar que os programas avaliados como "muito bom" (nota 5) ou que integram o "grupo de excelência" (notas 6 e 7) recebem da Capes recursos financeiros públicos não desprezíveis que podem usar com grande autonomia. É natural que se cobre uma contrapartida.

A produção em outras áreas é numericamente maior. No caso da História, há um ritmo necessário à maturação do conhecimento que impede a produção desenfreada de publicações. As especificidades de cada área têm sido respeitadas pela Capes. Por exemplo, depois de muitos anos de demandas, a Capes adotou a avaliação de livros.

A Capes também tem investido bastante na eliminação das assimetrias regionais. O apoio às iniciativas dos programas situados nas regiões Norte e Nordeste é bastante conhecido.

Quando é feita a avaliação de uma proposta de evento acadêmico (seminários, congressos etc.), analisa-se seu alcance tendo em vista o público abrangido (local, regional, nacional ou internacional). Não é correto supor que a definição do alcance de um evento acadêmico nesses termos impeça ou hierarquize a destinação dos recursos: frequentemente, os recursos são aprovados porque se trata, precisamente, de uma boa proposta de evento acadêmico com alcance regional, por exemplo. Note-se, a bem da verdade, que a avaliação da pós-graduação não exige que os professores apresentem propostas de realização de eventos acadêmicos.

A avaliação da pós-graduação feita pela Capes é um caso de sucesso reconhecido internacionalmente. Isso não significa que não tenha problemas. Um deles é de escala: como avaliar a grande quantidade de programas de pós-graduação existente tendo em vista tantos aspectos (produção intelectual, ensino, formação de recursos humanos etc.)? Isso certamente precisa mudar. Algumas propostas de mudança estão em estudo. Caberia, por exemplo, avaliar os programas consolidados quinquenalmente? Isso permitiria um acompanhamento mais cuidadoso dos programas recém-criados?


Um dos problemas reais da avaliação da pós-graduação brasileira que muito atinge a área de História é a "especialização precoce": o aluno de graduação, por vezes beneficiado com uma bolsa de iniciação científica, decide ingressar imediatamente no curso de mestrado, geralmente desenvolvendo o mesmo tema e, em seguida, após dois anos, prossegue trabalhando o mesmo assunto no doutorado, motivado, quem sabe, pela bolsa que continuará recebendo. Com isso, é cada vez mais frequente a titulação de doutores com pouca experiência profissional (no ensino ou em qualquer outra atividade) e que praticamente só conhecem a temática de sua especialização.


Outro problema significativo - em parte já superado pelo longo trabalho da Área de História nas últimas décadas - foi chamado, por coordenadores que me antecederam nessa posição, de "taylorização" e decorria da exiguidade dos prazos que se impunham para a conclusão dos cursos, sobretudo o do mestrado: 24 meses. Hoje, o tempo médio de titulação considerado "Muito Bom" para o mestrado é de 36 meses.

Espera-se que um professor de um programa de pós-graduação chancelado e financiado pela Capes produza conhecimento qualificado. As médias acima mencionadas não são de modo algum exageradas. Trabalhar com essas médias - opção que a Área de História tem feito nos últimos triênios - talvez transpareça uma "tradução numérica" com a qual a comunidade apenas aos poucos se acostuma. Mas isso não pode ser visto como "produtivismo".