6 de fevereiro de 2012

Violência e frustração

Carlos Fico

É comum compararmos as ditadura militares do Brasil e da Argentina, não só pela proximidade geográfica e temporal, mas também por algumas similaridades entre ambas.

Mas as diferenças são muitas. A questão da violência é sempre lembrada: na Argentina, houve um número muito maior de mortos e desaparecidos do que no Brasil. Esta contabilidade macabra já serviu até mesmo para que o regime brasileiro fosse classificado como uma "ditabranda", o que é um equívoco.

De fato, a sociedade brasileira ainda não conhece em detalhes a violência que se praticou durante os governos militares. As prisões arbitrárias, os casos de tortura e de morte, além da repressão à guerrilha do Araguaia, são mais conhecidos. Entretanto, muita gente teve a sua vida afetada pelo regime, não necessariamente através da violência física, mas de muitas outras formas, como sempre ocorre em qualquer regime de restrição de liberdades.

Apesar de ambos os regimes terem sido violentos, nota-se que a maneira como as duas sociedades lidam com sua memória é diferente. Na Argentina os militares têm sido punidos e isso serve para que muitas pessoas reprovem o modo como os brasileiros lidam com o seu passado recente, reiterando a tradição de conciliação.

O que talvez explique essa diferença é maneira como a violência se deu aqui e lá. No caso da Argentina, ela foi bastante visível e abrangente. Além disso, em alguns casos, como nos sequestros de bebês, foi singularmente atroz. No Brasil, a violência foi encoberta: havia a censura e poucos tomavam conhecimento do que se passava.

Assim, a memória que se construiu na Argentina sobre a ditadura militar é marcada pelo trauma da violência. Creio que no Brasil é diferente: aqui, o traço marcante da memória sobre a ditadura militar não é a violência, mas a frustração das esperanças. Dois episódios históricos ilustram essa tese: a Lei da Anistia, de 1979, que não foi "ampla, geral e irrestrita", e a derrota da Campanha das Diretas, em 1984.

A frustração diante da impunidade dos responsáveis pelos crimes da ditadura e da ausência de uma verdadeira ruptura - que as "Diretas, Já!" possibilitariam - torna a transição brasileira um processo que não terminou. A constante retomada desse passado, através da Comissão da Verdade, por exemplo, demonstra que essa insatisfação não é uma página virada.

2 comentários:

  1. A carta da Márcia Bassetto endereçada a Mino Carta revela uma parte do argumento do seu excelente post: http://mariafro.com/2010/11/07/marcia-basseto-paes-a-mino-carta-sobre-romeu-tuma/

    Vale a pena conferir!

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    1. Xenya Bucchioni, excelente carta.Tenho 18 anos e tudo o que sei sobre a ditadura é o que aprendi na escola.Me parece ainda um período sombrio e confuso.Faz-se necessário que a história seja esclarecida para a consciência política das novas gerações.

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