30 de março de 2012

"Escracho": eu apoio

Carlos Fico

O Levante Popular da Juventude surpreendeu a todos, no último dia 26, com os atos que promoveu, os "escrachos". Esse é um tipo de manifestação conhecido na Argentina: um grupo de pessoas se reúne em frente à casa de alguém acusado de ter sido torturador e, através de pichações, o identifica diante de seus vizinhos.

A idéia é constranger e denunciar: aquele pacato cidadão, que todos pensavam ser uma pessoa comum, tem seu passado comprometedor revelado.

Evidentemente, muita gente acha que esse tipo de manifestação é inadequado: e se a acusação for injusta? Além disso, pichar a casa de alguém parece ser algo violento.

Eu sempre tive dúvidas em relação a esses atos desde que ouvi falar deles na Argentina. Na segunda-feira, entretanto, quando soube das manifestações aqui no Brasil, fiquei positivamente surpreendido. A apatia da sociedade brasileira é tão grande que uma iniciativa como essa, partindo de jovens, indica que a velha máxima de que "somos um povo sem memória" não é tão verdadeira assim.

Eu também gostei da notícia de que o Levante Popular da Juventude não tem vínculos com os grupos que tradicionalmente tratam da ditadura: é bom que haja uma renovação.

Esses jovens partiram para uma ação concreta e a realizaram com muita eficácia. Foram espertos ao promover atos que não dependiam de muitas pessoas. Também conseguiram manter os preparativos em sigilo e surpreender.

Anos atrás, houve um acerto entre grupos da esquerda e militantes de direitos humanos para que a Justiça fosse abarrotada de ações contra os torturadores. Não deu em nada. Depois, veio a ação da OAB no Supremo que caiu como um "raio em céu azul": não havia uma mobilização anterior, ninguém entrou com as ações para pressionar previamente a Justiça.

Os "escrachos" do Levante Popular da Juventude parecem querer nos dizer o seguinte: "nós não vamos esperar mais".

Mesmo correndo o risco de publicamente me comprometer com o apoio a manifestações sociais violentas - que eu sempre condenei - sinto, intuitivamente, que devo apoiar os "escrachos". É algo novo, que não se preocupou muito com o que iam pensar os que são tradicionalmente "donos" dessa agenda política. Os jovens põem o dedo diretamente na ferida. Eles podem estimular outros movimentos que também ainda não são fortes no Brasil, como os que exigem a mudança de nome de logradouros e monumentos que homenageiam líderes da ditadura.

Enfim, são atos pontuais, são controvertidos em função da violência, em termos de consequências concretas não são muito efetivos, mas nos fazem pensar. Saber que aquela pessoa comum pode ter sido um torturador tem um impacto tremendo. Esses atos nos falam da concretude da violência, de sua permanência até hoje.

São um barulho necessário. Deixe seu comentário.

26 comentários:

  1. Fico em cima do muro. Não consigo ponderar entre as repercussões positivas e as negativas. Qualquer tipo de violência, aos olhos da sociedade brasileira, costuma ser sempre deslegitimada. Será que isso não enfraquece a causa?

    Porém, confesso que também gostei do "barulho".

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    1. a violencia no brasil sempre foi de cima para baixo, acabaram com os índios, escravizaram os irmãos africanos, humilham os pobres e favelados até hoje; quando há qualquer reação é violencia, é balburdia é desordem. a violencia é triste, mas deve ser aplicada quando é necessário, furtar-se a isso é ser cúmplice do que está aí

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    2. Entendo o ponto de vista. Porém, pense no ganho político dos movimentos de resistência não violenta. Será que os negros, nos Estados Unidos, durante os anos 1960, seriam tão bem-sucedidos se recorressem à violência proporcionalmente ao que fizeram seus algozes durante séculos?

      Devolver com a mesma moeda nem sempre é o melhor caminho. Há danos políticos irreparáveis. Por exemplo: os comentários aqui em baixo. Muitos recorrem à luta armada das esquerdas para "igualar" o que faziam e pretendiam os militares com o que fazia e pretendia a estudantada revolucionária. É um argumento capenga, que desconsidera a disparidade de poderes. Mas é um argumento muitíssimo usado.

      Enfim, não sei bem se a violência "deve ser aplicada quando é necessário", como você disse. Quem define quando essa necessidade chega? Será que os que estavam empoleirados no poder durante os anos de chumbo simplesmente não pensaram desta maneira, e resolveram por eles mesmo que a necessidade havia chegado?

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  2. Concordo bastante com o seu argumento, Fico. Mesmo compartilhando a preocupação com o "linchamento moral" sem julgamento. Mas acho que o quase "silêncio" que se impôs na transição democrática sobre os atos da ditadura precisa ser quebrado e gosto da renovação trazida por iniciativas como essa, que vão na mesma linha de movimentos do tipo "Ocupe Wall Street".

    Abraços,

    Atila

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  3. FINALMENTE A SOCIEDADE BRASILEIRA RESOLVEU SE REMEXER. PESQUISO DITADURA ARGENTINA E SEMPRE ME INCOMODEI COM ESSE SILÊNCIO NOSSO.
    O GRUPO DOS ESCRACHOS ESTÃO DE PARABÉNS PELA INICIATIVA.
    E NÃO ACHO NENHUM POUCO VIOLENTO ESSE TIPO DE MANIFESTAÇÃO.
    VIOLÊNCIA É O QUE OS DITADORES FIZERAM COM NÓS BRASILEIROS, EM 20 ANOS DE TORTURA, ASSASSINATOS E CRIMES DE TODA ORDEM.
    VIOLÊNCIA MAIOR AINDA, FORAM COM AQUELES QUE FORAM OBRIGADOS A SE CALAR, DIANTE UMA SOCIEDADE QUE RESOLVEU JOGAR PARA DEBAIXO DO TAPETE TODA A SUJEIRA QUE FOI A DITADURA.
    PARABÉNS AO GRUPO DE ESCRACHOS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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  4. cheguei a me emocionar ante a notícia, que me fez lembrar duas declarações lá do passado: na passeata dos Cem Mil, qdo ouvi de um senhor emocionado "só os jovens podem salvar esse país", e numa aula de Ética, a professora Érica Roth: "no dia em que a juventude se calar acaba a vida". Em toda ação cidadã, a presença da juventude é IMPRESCINDÍVEL, pois sem ela é nadar nadar e morrer na praia. Além disso, os focos para os quais se dirigem os "escrachos" são consenso entre os que viveram aquela época. Parabéns, jovens! Valeu viver pra ver. Mirian Cavalcanti [sem risos: me identifico, mas vou na categoria "anônima" apenas pq não sei me conduzir nessa tecnologia...]

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  5. Violência é calar a voz diante da opressão,da injustiça e da hipocrisia emergente no papel da "política¨na sociedade brasileira. O grupo dos Escrachos é uma resposta contra eese "silêncio maldito" e uma abertura reflexiva ao pensar democrático como denúncia às verdadeiras feridas e amálgamas da Ditadura Militar.

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  6. Ah tá bom, vou acreditar. A esquerda torturava, mas era por uma boa causa. Vamos somente demonizar os militares. Se socialismo e comunismo são tão bom assim, por que não vão morar num país comunista pra ver o que é bom pra tosse? Os militares, na época da ditadura, foram um mal necessário. Houve excessos? Sim. Como houve excesso da esquerda. O negócio é ficar além do bem e do mal partidário. Não sou de esquerda e nem de direita, não sou a favor dos militares e nem dos esquerdistas que hoje estão aí no poder fazendo culto a personalidade e se perpetuando no poder, dando uma banana pro povo que ganha um salário minimo de fome ou vive das bolsas misérias, enquanto os "heróis" da revolução esquerdistas vivem com bolsa ditaduras milionárias, pelo menos os mais espertalhões né?

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  7. Não acredito na autenticidade do protesto, uma vez que esses jovens não viveram nada disso... mais me parece manipulados, como foram os jovens do passado, pelos mais velhos que os ludibriaram e os jogaram no Araguaia sem nenhum apoio, e lá os abandonaram, sem nunca terem colocados os pés por lá... inclusive justiçando os que, acordando da ilusão, resolveram abandonar aquela luta perdida desde o início pela inepcia de seus idealizadores, que só tinham o discurso, obrigando-os a viverem duplamente na clandestinidade... e gerando um outro tipo de "desaparecido" político... muitos dos quais estão "reaparecendo" agora e dispostos a falar na Comissão da Verdade... basta acessar o blog da jornalista Mirian Macedo... antiga militante de esquerda... com isso o tiro poderá sair pela culatra... a não ser que sejam "desaparecidos" novamente como ocorreu com Celso Daniel...
    Ademais, penso que esse tipo de atitude poderá sucitar o que a Lei da Anistia sepultou... a retaliação entre os dois lados... como aconteceu nos demais paises onde nao ocorreu essa reconciliação... é isso que querem? a quem interessa? porque da mesma forma que esses jovens, existem jovens que defendem os ideais de 64... e não são poucos... esse tipo de manifestação poderá acordá-los também...
    Penso que isso não interessa a ninguém... a não ser ao estrangeiro... que tem buscado insistentemente nos dividir...
    Não esqueçamos que nossa tradição histórica é a da pacificação... todas nossas lutas intestinas terminaram em pacificação e com o perdão concedido aos derrotados... não podemos perder essa visão... os nossos antecessores foram sábios...
    Me desculpem, mas é o que penso.

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  8. Meu caro, é obvio que você tem todo o direito de avaliar "positivamente" os escrachos. Porém, dificilmente são realizados sem apoio de partidos da antiga esquerda, basta futucar um pouquinho que veremos qye o grupo tem ligações estreitas com o MST, mas não vou entrar aqui em detalhes. Ocorre que os militares e muitos outros que os apoiaram na época, entre eles rede globo etc. erraram muito mesmo, mas os jovens que desejavam impor o comunismo no Brasil também erraram muito, cometeram assassinatos, sequestros, torturas e justiçamentos, e ninguém menciona isso. Esse unilateralismo chega a chocar. Foram todos anistiados ou não?

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  9. O contexto histórico que vivemos hoje não é o mesmo daquela epoca.Não posso julgar tais perssonagens,sem antes conhecer profundamente os seus envolvimentos com os atos pelos quais estão sendo acusados.

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  10. Levante popular? Onde?
    Ditadura vivemos hoje,ditadura dos traficantes,bandidos,corruptos.No mês de maio de 2006,em apenas 48 horas,mais de 300 pessoas perderam a vida depois que uma facção criminosa provocou o caos e o terror no estado mais rico da federação.O número de mortos foi superior ao registrado nos 21 anos de regime militar.Centenas de brasileiros são torturados diáriamente nas ruas,esquinas e em suas próprias casas.Bandos fortemente armados usam dinamite para assaltar bancos assustando e apavorando mulheres e crianças.
    Eu era feliz e não sabia

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  11. Pior é saber que a turma que desejava democracia nos anos 60 e 70 tinham como heróis Stalin,Mao Tse Tung e Fidel.Chega a ser cômico.

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  12. O comentário é só um... APOIO! Afinal se os resistentes são conhecidos por que esconder a turma do porão. Qum sabe por traz daquele vizinho simpático e educado não se esconde um torturador... ESCRACHO nele.

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  13. OU ENTÃO UM TRAFICANTE,MACONHEIRO OU BANDIDO...

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  14. A turma que se dizia socialista está nadando no dinheiro hahaha

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  15. Em um país que se afirma democracia (não existe democracia “perfeita”), mas não institui o voto facultativo, onde o clube militar do rio de Janeiro comemora o golpe que nos levou a ditadura, protestos são formas normais de externar opiniões.

    Muitos jovens podem não ter vivido os “anos de chumbo”, mas os pais e esta grande memória da humanidade que é a internet estão aí para que eles compreendam o que se passou...

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  16. Ditadura?
    Gilberto Gil engordou 4 Kg na prisão e ainda cantava par os soldados.

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  17. Não sei Carlos, eu fico preocupada. Sabemos o contexto em que o golpe foi "anunciado"...os militares se "preocupavam" com a possibilidade de "comunistas baderneiros" tomarem conta da sociedade. E utilizaram deste argumento para convencer pessoas leigas, com ausência de senso crítico, a apoiar o golpe. Hoje, ouço comentários conservadores do tipo: "baderneiros, estudantes burguesinhos"... enfim, eu ouvi de uma professora que ela está até criando simpatia pelo exército... ou seja... o povo é tão alienado, com memória curta, que considera apenas o ato imediato, não compreende em sua dimensão total. E outra, recebi vários comentários em meu blog, anônimos como sempre, dizendo que agora a sociedade vai ver quem tinha razão...quem eram os baderneiros... enfim... os militares adoram deturpar tudo, pra subsidiar suas idéias mirabolante e sem escrupulo algum, são capazes de criar este tipo de situação - que chamam de desordem - pra justificar a necessidade de "ordem". E também, em relação a mídia, a forma como divulgam... é tendenciosa, fazem questão de enfatizar a "manifestação violenta"...deixando para segundo plano o que realmente importa, ou seja... a necessidade de trazer à tona um período triste e nebuloso de nossa história.

    sei lá... posso estar "viajando"..mas o clima não está bom.

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  18. Já que não existe justiça de fato, nenhum torturador foi julgado, ao menos os protestos mesmo em forme de escracho servem para levantar a discussão e a memória do triste passado recente do Brasil

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  19. CARLOS
    EXISTEM MILHARES DE TORTURADORES SOLTOS PELAS RUAS,SÃO BANDIDOS,TRAFICANTES.ELES TORTURAM FAMÍLIAS DIÁRIAMENTE.MATAM EM PLENA LUZ DO DIA,ASSALTAM,HUMILHAM.
    ACHO ESTRANHO ALGUNS FICAREM PREOCUPADOS COM 20 0U 30 QUE EXAGERARAM DURANTE A DITADURA.ISSO ESTÁ ME PARECENDO COISA IDEOLÓGICA,APENAS ISSO.

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  20. Um duplo parabénsss, pela iniciativa desde que continue a ser pacífica e parabéns Carlos Fico pela coragem de assumir diante de todos que apóia esse movimento. Pois por mais que haja luta pela abertura dos arquivos militares, pouco ou nenhum resultado foi alcançado até o momento.

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  21. Deveriam indenizar as famílias dos militares mortos na Intentona Comunista de 1935

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  22. Esse debate, com efeito, é bastante interessante (e polêmico).

    Dentre outros aspectos, me chama a atenção os nomes de logradouros e monumentos que homenageiam líderes da ditadura. Inclusive, dentro da própria UFRJ.

    Por exemplo, me causa um mal-estar entrar na Escola de Educação Física dessa Universidade e, de cara, me daparar com o seu principal ginásio - que recebeu o nome de Emílio Garrastazu Médici.

    Atualmente, a placa que contém o nome do ginásio foi arrancada. Contudo, até o momento, me parece que ainda não houve tentativas de mudar o nome (vergonhoso) dessa instalação.

    Fico por aqui.

    Um abraço, Bruno.

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  23. Acho errado ou pelo menos sem importância.
    Ficar chafurdando no passado é uma ótima maneira de deixar o presente desasistido, com o País sendo saqueado na nossa cara (e com certeza alguns destes atuais saqueadores patrocinam estes escrachos...).
    Ocorreu uma anistia. Os exilados puderam voltar (voltaram de Paris ou Londres já que eram espertos demais para terem se exilado em Cuba ou URSS...)Zés Dirceus, Genoínos e Gabeiras puderam voltar, se candidatar e mostrarem o que realmente queriam do poder ou seja, só a grana e o status...)
    E vale lembrar que alguns dos torturados queriam impor no Brasil um sistema a moda albanesa, meio phol potiana e quem sabe submeter o País a um atraso idêntico ao cubano ou seja, qualquer um com o mínimo de inteligencia não admitiria que esta nação se transformasse num 'paraíso proletário-camponês'e acabar como acabaram as nações que cairam nesta cascata esquerdista.
    Claro que ocorreram excessos. Sempre ocorrem excessos nestes casos e é claro que todos os criminosos dos anos de chumbo precisariam serem punidos - mas TODOS eles, não apenas os deste ou daquele lado.
    Se é para rever a lei da Anistia, então que ela seja revista de forma ampla e irrestrita de maneira que todos os que participaram dos entreveros sejam julgados.
    O fato de que uns e outros fizeram o que fizeram em nome da 'causa soocialista' ou 'pelo proletariado brasileiro' não os tornam menos culpados que os outros. Já chega deste papinho furrepa de que os crimes da esquerda são 'atos heróicos pela causa'.


    Abraços.
    Brancaleone.

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  24. Totalmente a fovar das manifestações. Aliás, elas começaram tarde. Na Argentina, Uruguai e Chile ações contra os Ditadores e torturadores foram bastante anteriores. Belo texto professor e parabéns pela coragem de se posicionar e apoiar atitudes concretas contra o esquecimento e impunidade.

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