“Por que os jovens, hoje em dia, não têm uma atuação
política forte como em 1968?”. Essa é uma das perguntas mais frequentes nas
palestras que faço. Curiosamente, ela é feita pelos próprios jovens, que se
considerariam, portanto, politicamente apáticos.
Há uma visão romântica sobre o movimento estudantil em 1968.
Quando se fala em resistência à ditadura, a imagem que logo surge é a das
passeatas estudantis. Acho que eu vi a foto do estudante dando um salto no ar, depois de jogar uma pedra nos policiais, em todos os eventos que frequentei sobre o tema
– e foram muitos.
Hoje, então, os jovens seriam politicamente apáticos já que
não fazem passeatas numerosas ou enfrentam a polícia.
Não me parece que seja assim. Essa é uma visão
descontextualizada. Se os jovens são apáticos porque não participam desse tipo
de movimento “revolucionário”, os adultos também o seriam, já que virtualmente
ninguém fala em revolução hoje em dia ou vai às ruas para combater a corrupção
ou outros problemas.
Quando surgiu o importante movimento dos “cara-pintadas”, que ajudou a
afastar Collor da presidência da República, os nostálgicos o saudaram como se ele fosse uma retomada dos velhos combates. É claro que esses
movimentos massivos são importantes, até para o surgimento de novas lideranças
políticas. Mas eles não são frequentes.
Quando as redes sociais passaram a ser amplamente usadas,
muita gente acreditou – e ainda acredita – que elas tomariam o lugar das
manifestações sociais presenciais, mas isso não tem sido assim. Elas funcionam
como auxiliares nos preparativos e mobilização, mas os atos públicos nas ruas
ainda são importantes.
Os escrachos ou esculachos do Levante Popular da Juventude
têm repercutido bastante, até na grande imprensa, apesar de não serem massivos.
Esses jovens – que nada têm de apáticos – acertaram ao usar o elemento surpresa
e a imagem impactante para fazer uma manifestação eficaz, apesar de não
numerosa. Provavelmente usaram a internet nos preparativos, mas não apostaram
tudo nela.
Infelizmente, um das consequências da ditadura foi o descrédito em
que caiu a atividade político-parlamentar e o não surgimento de novas lideranças: a classe
política brasileira tem poucos jovens.
Isso não decorre de uma possível apatia política, mas de uma
circunstância histórica. Com o tempo, as coisas mudam.

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