28 de agosto de 2012

Como entrar no mestrado em História

Carlos Fico

Volto ao tema da carreira do pesquisador (veja links para outros posts relacionados mais abaixo) atendendo a pedidos de leitores que querem dicas sobre como ser aprovado em uma seleção para um curso de mestrado em História.

Antes de mais nada, vale a pena lembrar a importância do mestrado em História. Em outras áreas do conhecimento, existe a suposição de que o mestrado perde importância, porque seria melhor preparar logo os alunos para o doutorado, até mesmo em função da carência de doutores. No caso da História, isso não faz sentido.

O historiador precisa de maturidade intelectual, de erudição, e isso demanda algum tempo. No mestrado, o graduado poderá cursar disciplinas de pós-graduação, ampliar sua carga de leituras, receber orientação individualizada, frequentar eventos acadêmicos e, sobretudo, conduzir uma pesquisa profissional. Essas atividades lhe darão experiência e o prepararão para o doutorado.

O objetivo principal do mestrado é ensinar como se faz, autonomamente, uma pesquisa histórica. Não há exigência de grande originalidade, mas é essencial que o candidato ao grau de mestre comprove sua capacidade de propor um problema criativo, de lidar com as fontes e sistematizá-las e de redigir uma dissertação. Seu trabalho, finalmente, será arguido por uma banca em geral composta pelo orientador e mais dois examinadores, sendo comumente um de fora do próprio curso. Isso tudo deverá ser feito em dois anos.

Existem hoje no Brasil 62 cursos de mestrado recomendados pela Capes. Eles recebem notas entre 3 e 7, sendo 7 a melhor. Portanto, vale a pena dar uma olhada na nota do curso pretendido, embora todos esses cursos, inclusive os que contam com a nota menor, sejam chancelados por uma rigorosa avaliação governamental. Verifique, também, se o curso costuma oferecer bolsas para os selecionados.

A seleção, regra geral, consiste em algumas etapas: prova escrita baseada em uma bibliografia divulgada previamente no edital de seleção; análise do projeto ou pré-projeto de pesquisa apresentado pelo candidato; prova de língua estrangeira (normalmente, é possível escolher entre inglês e francês) e entrevista. Há variações, mas essas costumam ser as provas mais frequentes.

Leia com atenção o edital. Por exemplo, no programa de pós-graduação em que trabalho, até algum tempo atrás, era exigido que, na prova escrita, o candidato considerasse o seu projeto de pesquisa diante da bibliografia exigida. Em outros casos, a prova escrita tem um formato tradicional, quer dizer, você deverá responder a perguntas formuladas a partir da bibliografia. Verifique o que será solicitado e prepare-se nesse sentido. Evite resumir o que está dito nos livros, tentando, na medida do possível, levantar questões criativas, conduzindo sua prova para algum ponto que pareça significativo diante das questões formuladas. Aposte na densidade do texto e não em sua extensão, evitando provas enormes, até mesmo para dar tempo de lê-la e relê-la, evitando erros graves de português - o que é em geral mal visto pelos avaliadores.

O projeto de pesquisa é muito importante. Certifique-se, pelo menos, de três coisas: um problema claramente definido, um acervo de fontes que permita enfrentar a questão e um bom levantamento bibliográfico que indique que você está familiarizado com o que já foi publicado sobre seu tema. Hoje é relativamente fácil fazer um bom levantamento bibliográfico usando as bibliotecas, bancos de teses e portais de periódicos disponíveis na internet (procure, por exemplo, o Portal de Periódicos da Capes e o JSTOR). Você não precisa ter lido toda a bibliografia que listar, mas o básico, sim. Indique, no projeto, o que já leu. É essencial definir as fontes que usará: se você tem um problema claramente definido e fontes que permitam trabalhá-lo, está no caminho certo. Evite digressões teóricas muito genéricas e prefira discussões conceituais que sejam pertinentes ao seu projeto.

A prova de língua estrangeira pretende verificar se você é capaz de ler um texto de História naquele idioma. Um bom treinamento consiste em ler textos na língua em pauta que tenham a ver com o tema do seu projeto: assim, você poderá incorporar bibliografia internacional ao seu projeto e estudar para a prova de língua estrangeira ao mesmo tempo.

Quando houver uma entrevista ou algo assemelhado (arguição do projeto, por exemplo), procure manter a tranquilidade. Se isso for muito difícil, comece dizendo aos examinadores que está nervoso: isso ajuda a relaxar. Ouça com atenção as perguntas e responda objetivamente, sem monopolizar a palavra. Se não souber responder, diga que ainda não havia pensado nesse aspecto e agradeça a sugestão. 

Os alunos que se graduam em um departamento de História que conte com curso de mestrado têm maior familiaridade com os possíveis orientadores e com as linhas de pesquisa do curso. Para um aluno que venha de fora, convém buscar, previamente, o máximo de conhecimento sobre o curso e suas linhas de pesquisa. Também é uma boa ideia verificar o currículo Lattes do orientador pretendido e dos membros da banca.

Boa sorte!

Carreira do pesquisador: marca profissional (doutorado)
http://www.brasilrecente.com/2011/11/carreira-do-pesquisador-marca.html

Carreira do pesquisador: marca profissional (mestrado)
http://www.brasilrecente.com/2011/10/carreira-do-pesquisador-experiencia.html

Carreira do pesquisador: a difícil escolha do tema
http://www.brasilrecente.com/2011/10/carreira-do-pesquisador-dificil-escolha.html

A carreira do professor de história
http://www.brasilrecente.com/2011/07/carreira-do-professor-de-historia.html

7 comentários:

  1. Excelente texto, Fico! Vou divulgá-lo para os meus alunos. Um abraco.

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  2. Acho que o problema do mestrado é o tempo, dois anos é pouco para realização de uma boa pesquisa. Muitas pessoas acabam pedindo adiamento do tempo e defendem após o prazo oficial que é de dois anos, observo isso não só no programa do qual faço parte mas em outros também. Três anos seria o ideal na minha opinião.

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  3. Na teoria tudo é belo e sublime. O pior é que muitos leem o que está escrito nessa cartilha e, de fato, acreditam em tudo o que nela está escrito. Seguem a risca, sem se dar conta de que o mais importante para entrar em um programa de mestrado não é a capacidade intelectual do aluno; pelo contrário, o que importa de fato é o currículo e os interesses de seu orientador.

    O que reina na academia é o dito interesse desinteressado. Nas salas, a retórica da democracia e do 'saber científico' é elevada a níveis sacrossantos, como se de fato tudo o que os 'doutores' dizem são seguido pelos mesmos. Pura bobagem! O que reina na academia é o mesmo obscurantismo que rege as coisas fora dela.

    Em suma, a pergunta implícita no título pode ser respondida da seguinte maneira: puxe o saco de seu orientador a ponto deste lhe conceder o 'privilégio' de fazer parte desse mundo. Reproduza tudo o que este faz e escreve, sem questionar. Apesar de dizerem que o dito 'saber científico' ser crítico, os doutores odeiam ser contrariados. Afinal, possuem uma titulação e todo o aparato acadêmico para os legitimarem como detentores do saber.

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  4. Olá , passei pela net encontrei o seu blog e o achei muito bom, li algumas coisas folhe-ei algumas postagens, gostei do que li e desde já quero dar-lhe os parabéns, e espero que continue se esforçando para sempre fazer o seu melhor, quando encontro bons blogs sempre fico mais um pouco meu nome é: António Batalha. Como sou um homem de Deus deixo-lhe a minha bênção. E que haja muita felicidade e saude em sua vida e em toda a sua casa.
    PS. Se desejar seguir o meu humilde blog, Peregrino E Servo, fique á vontade, eu vou retribuir.

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