18 de dezembro de 2012

Carreira do pesquisador: escrita

Portrait of a Man Writing in His Study, Gustave Caillebotte

Estarei em recesso até março aproveitando para escrever um ensaio acadêmico sobre a violência nas ditaduras argentina e brasileira. Como coordenador da Área de História da Capes, eu avalio os programas de pós-graduação, mas também preciso produzir! Pensando em recesso e escrita, escrevi sobre esses temas; veja abaixo. Até a volta!



Carlos Fico

Quando digo que não vou adiar minha aposentadoria, meu colegas descreem e ameaçam: “Vai ficar deprimido”. Penso que terei todo o tempo do mundo para escrever livros e artigos. Faço história porque gosto de escrever. Descobertas surpreendentes fascinam: arquivos inéditos, buscas detetivescas. Também alego a questão teórica. Por exemplo, a proximidade temporal compromete ou facilita o trabalho do historiador? Mas não tenho dúvida de que a busca da palavra exata, da frase concisa, é o principal.

Reproduzo, então, três passagens de dois autores que sempre tenho em mente quando começo a redigir um novo trabalho. São trechos relativamente longos, voltados para a literatura, um pouco egolátricos, mas inspiradores para os que tenham a vocação para a escrita.

Os dois primeiros integram o diário de Alvaro Lins, Literatura e vida literária (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1963), livro bastante amargo:

“O momento de escrever sempre traz para o verdadeiro escritor uma sensação penosa e angustiante. Uma espécie de sentimento de medo ou de angústia. Certamente que não é indolência aquilo que o faz adiar o seu trabalho até o último instante possível. Ao contrário: o verdadeiro escritor ama e deseja o trabalho literário; e nessa situação mesma é que se encontrará a causa de suas hesitações. Imagina a literatura com a maior seriedade, e se imagina, por isso, indigno dela. Experimenta ao escrever um duplo sofrimento: antes, a incerteza, o receio, o medo de que nada consiga escrever; depois, o desgosto do que escreveu: a certeza de que o seu trabalho vale muito pouco, ou quase nada, porque tudo o que realiza se coloca infinitamente abaixo do que imagina e deseja. // Luta dramática esta que se desenvolve, no espírito do escritor, entre a sua idealização e a sua realização. As ideias, os pensamentos, os planos não são difíceis em si mesmos; a dificuldade toda se encontra na expressão em palavras. Não sei de nada mais comovente do que essa luta de um escritor com as palavras que precisam ser conquistadas e dominadas. // Fico assombrado diante da leviandade e da inconsciência com que os falsos escritores jogam com as palavras, como se elas fossem uns brinquedos inofensivos e fosse a literatura um divertimento sem consequências.” (p. 70).

“Exercício de vontade. – Ler com método, tomando notas e pondo em ordem, por escrito, as impressões. Escrever, escrever sempre, todos os dias, escrever mesmo banalidades, não para publicar, mas como quem pratica um ofício, com a finalidade de pesquisar os processos da forma. Muitos dos nossos estudos e leituras são mal aproveitadas por falta de método. Voltar a ler certos autores fundamentais como Bergson e Proust, com o lápis na mão e o caderno nas pernas. Dominar a preguiça, sufocar o gosto das evasões para livros mais agradáveis porque mais fáceis; não deixar-se vencer pelo simples prazer da leitura como um diletante.” (p. 186)

O terceiro trecho está em uma carta de Graciliano Ramos à mulher, Heloísa, de 3 de abril de 1935, fácil de encontrar na internet:

“Somos uns animais diferentes dos outros, provavelmente inferiores aos outros, duma sensibilidade excessiva, duma vaidade imensa que nos afasta dos que não são doentes como nós. Mesmo os que são doentes, os degenerados que escrevem história fiada, nem sempre nos inspiram simpatia: é necessário que a doença que nos ataca atinja outros com igual intensidade para que vejamos nele um irmão e lhe mostremos as nossas chagas, isto é, os nossos manuscritos, as nossas misérias, que publicamos cauterizadas, alteradas em conformidade com a técnica."

6 de dezembro de 2012

O mastro que Niemeyer não previu



O “mastro monumental” de Brasília não foi previsto pelo arquiteto Oscar Niemeyer. Foi projetado por Sérgio Bernardes, em 1969, em plena ditadura e, segundo muitos arquitetos, desrespeita a concepção original segundo a qual o prédio do Congresso deveria ser a última coisa visível no Eixo Monumental – depois, só o horizonte.

O “Monumento ao Pavilhão Nacional”, como é chamado, foi construído às pressas em 1972 para que sua inauguração coincidisse com o Dia da Bandeira. A ideia foi do coronel Rubem Ludwig, que pretendia erguer um pequeno mastro na Praça dos Três Poderes. Entretanto, o governador do Distrito Federal, Hélio Prates, influenciado pelo arquiteto Sérgio Bernardes, optou pelo mastro monumental. Ele é montado a partir de 24 tubos de aço, representando os estados e territórios então existentes. No alto de seus 200 metros, a peça de nylon, de 280 metros quadrados. O conjunto é iluminado por holofotes fotoelétricos, de modo que a bandeira nunca precisa ser arriada quando escurece.

Milhares de pessoas acompanharam a solenidade de inauguração. Alto-falantes, postos na cobertura do Palácio do Planalto, anunciaram a fala do presidente Médici: “Ordeno que seja hasteada a Bandeira Nacional!”, lacônica e solene como o texto da placa que assinala a inauguração, na qual se leem as palavras que o coronel Octávio Costa – responsável pela propaganda política do regime –  redigiu: “Sob a guarda do povo brasileiro, nesta Praça dos Três Poderes, a bandeira sempre no alto – visão permanente da pátria”.

Distanciamento e monumentalidade que nem mesmo a comoção nacional causada pelo morte de Tancredo Neves, treze anos depois, conseguiria anular: a multidão que esperava a chegada do caixão pedia que a bandeira também ficasse a meio-mastro, em função do luto no país: “Baixa! Baixa!”, e a bandeira sempre no alto...