21 de julho de 2013

Rebeliões populares

Carlos Fico

Há algumas semelhanças entre as manifestações sociais que atualmente ocorrem no Brasil e as que eram frequentes durante a Primeira República, sobretudo no Rio de Janeiro.

No mestrado (muitos anos atrás), estudei os “quebra-quebras” que aconteceram com muita frequência na então capital do Brasil desde a Proclamação da República até 1945. Nunca publiquei essa dissertação porque não gosto dela: é muito convencional, monótona. Mas a pesquisa que fiz, na época, minha primeira pesquisa de grande fôlego, me agradou muito.

As manifestações daquele tempo que me parecem assemelhadas com as de hoje aconteceram nos primeiros anos do século XX, até 1930, aproximadamente. Eram motivadas acima de tudo pela então chamada “carestia da vida”, isto é, a alta dos preços, da inflação. Tal como aconteceu no Brasil no primeiro semestre deste ano de 2013, as altas inflacionárias eram imediatamente percebidas pela população, sobretudo quando afetavam o preço dos alimentos, como ocorreu agora.

Utilizei, na dissertação, a noção de “economia moral da multidão”, de E. P. Thompson. Em certa medida, ela também me parece adequada à compreensão das manifestações de hoje em dia. Parece haver um entendimento tácito sobre determinadas normas e obrigações sociais, bem como sobre as funções econômicas. As “multidões” não admitem a ultrapassagem de alguns limites, sobretudo no que diz respeito a itens simbólicos, como o preço do pão. Vários quebra-quebras tinham como alvo as padarias.

Curiosamente, muitas manifestações populares durante a Primeira República foram motivadas, justamente, pelo aumento abusivo do custo do transporte público. Naquela época, tratava-se do preço da passagem de bonde. Muitos bondes foram depredados.

Também na época houve a contestação de obras suntuosas, já que o Rio de Janeiro, na Primeira República, passou por muitas reformas. Houve desalojamento de pessoas pobres, afastadas do centro da cidade para regiões distantes.

Nas manifestações, a população aprendia rapidamente a enfrentar a polícia. Era comum juntar rolhas de garrafas de vinho que, lançadas nas ruas calçadas com paralelepípedos, dificultavam o avanço da cavalaria.

A violência era frequente. As autoridades, assim como hoje, reiteravam que as manifestações, inicialmente pacíficas, acabavam em confrontos e depredação. Na época falava-se mais em “baderneiros” do que em “vândalos”.

Essas manifestações da Primeira República obviamente não se equiparavam, em termos de números de participantes, às de hoje. Mas a composição desses movimentos sociais assemelha-se no que diz respeito à presença de setores populares e da classe média. Entretanto, a presença de jovens é um traço distintivo dos movimentos de hoje.


Faço essas comparações ligeiras sem intuito de explicar as manifestações de hoje. Apenas me ocorre que a historiografia sobre os movimentos sociais diminuiu muito desde a crise do marxismo. É uma pena. Ela nos ajudaria bastante a entender o que vai pelo Brasil.