2 de março de 2014

O primeiro carnaval depois do golpe de 64

Baianas descansam no Carnaval de 1965

Max Krebs era um diplomata norte-americano nascido em Cincinnati, Ohio. Ele foi designado para o posto de Conselheiro Político da Embaixada dos Estados Unidos no Rio de Janeiro.

Em 1965, o Conselheiro Krebs tinha a incumbência de destrinchar para o Departamento de Estado as complicadas questões políticas dos primeiros momentos da "Revolução de 1964".

Entretanto, Max entendiava-se com os relatórios meramente técnicos. Ele procurava acrescentar algo mais, aspectos culturais, talvez algum traço do caráter nacional brasileiro.

Dez meses após o golpe de 1964, o Rio de Janeiro vivia o primeiro carnaval do regime militar. A segurança foi intensificada. Roupas ousadas e bebedeiras foram vigiadas. O lança-perfume (que Max descreveu como um "uso popular perigoso de um atomizador cheio de éter e perfume barato") foi proibido. Para o Conselheiro, essa era uma estratégia do governo para melhorar a imagem brasileira no exterior, pois a "tendência à vulgaridade e à depravação" eram "talvez inerentes" ao povo.

Max tinha ouvido falar muito do carnaval carioca. Ele sabia que a festa "ofuscava todos os outros acontecimentos". Decidiu dar uma olhada.

A primeira coisa que chamou sua atenção foi o bolo de três toneladas feito para comemorar o quadricentenário de fundação da cidade. Ele procurou saber se a coisa era realmente comestível. Mas o carnaval era o que importava.

"O aspecto dominante do carnaval brasileiro parece ser o de catarse e liberação: é um mecanismo para dissipar a tensão, um meio de autoexpressão desinibida", procurou explicar. O que mais impressionou o Conselheiro foi a maneira como os cariocas dançavam: eles pulavam! Max descreveu tudo:

"O verbo usado em relação à execução da dança de carnaval afro-brasileira é 'pular', e pular é precisamente o que fazem uns três milhões de habitantes do Rio e seus convidados quase continuamente durante quatro dias e quatro noites".

"Em um mundo dos sonhos de extravagantes decorações de rua, esplendor e fantasias esbanjadoras (embora milhares tenham de se contentar com fantasias confeccionadas com coisas como toalhas coloridas e penas de galinha), as pessoas põem de lado, por algum tempo, suas preocupações com os crônicos problemas econômicos e sociais de seu país".

Max deve ter adorado o Carnaval de 1965.

Um comentário:

  1. Gostaria de ler o relatório na íntegra. Muito interessante a percepção do diplomata sobre a manifestação popular em 1965.

    ResponderExcluir