20 de novembro de 2014

50 anos do golpe: balanço

Carlos Fico

Ao longo de 2014, por ocasião dos 50 anos do golpe de Estado de 1964, fiz incontáveis palestras no Brasil  e no exterior, dei inúmeras entrevistas e lancei um livro de bolso voltado para o grande público.

Nos 30 anos do golpe, em 1994, o interesse pelo assunto era pequeno. Houve um ou outro evento acadêmico. Em 2004, organizei um grande evento sobre os 40 anos do golpe, com colegas de várias instituições do Rio de Janeiro, que repercutiu muito na imprensa e inaugurou polêmicas sobre a luta armada e a suposta vocação golpista da esquerda. Agora, em 2014, praticamente todos os programas de pós-graduação em História do país promoveram eventos, sem mencionar outros, realizados por instituições diversas. Também houve seminários nos Estados Unidos, na Argentina, na França e em outros países. Os jornais fizeram sites primorosos, com muitos documentos, incluindo filmes e depoimentos. Até mesmo o Jornal Nacional, da Rede Globo, fez uma reportagem muito correta.

Portanto, a primeira marca que fica desses 50 anos é o grande interesse do público, especialmente dos jovens, que lotaram auditórios com muito interesse e perguntas.

Como visitei muitos programas de pós-graduação em História, também pude perceber que há uma quantidade significativa de pesquisas sendo conduzidas sobre a ditadura militar, mais do que sobre o golpe propriamente. A abordagem do tema fora do eixo Rio/São Paulo certamente vai gerar uma historiografia mais completa sobre o período.

Os assuntos que, espontaneamente, mais despertam o interesse das plateias dizem respeito ao apoio norte-americano ao golpe por meio da Operação Brother Sam, ao papel da mídia e dos empresários na derrubada de Goulart, à ausência de resistência e a especulações sobre hipóteses contrafactuais do tipo "e se o golpe não tivesse acontecido"? Também foram frequentes perguntas que buscavam articular a atualidade (manifestações de 2013 e eleições presidenciais de 2014) com conjuntura.

Em minhas falas, busquei mencionar alguns aspectos que também levantaram polêmicas:

O golpe não continha a ditadura, isto é, quando o golpe foi dado, havia a expectativa de realização de eleições presidenciais no ano seguinte. Houve um percurso, relativamente rápido, que levou do golpe à ditadura.

O golpe não foi apenas militar, mas civil-militar, como muitos colegas também sustentam. Mas eu penso que ele foi civil não apenas porque houve apoio de setores significativos da sociedade, mas porque civis também deram o golpe, como Magalhães Pinto e Auro de Moura Andrade.

O golpe não foi um evento banal, decidido com uma "batalha de telefonemas" e sem violência. Houve mortes, prisões em massa e muita violência.

Quando um jornalista me perguntou qual era a causa, "em uma palavra", do golpe de 1964, eu respondi: "o medo". O autoritarismo que marcava e marca a sociedade brasileira expressou-se, naquela ocasião, no medo das elites e da classe média diante das possíveis conquistas sociais que as propostas de reforma de base representavam: mais vagas nas universidades, tabelamento dos aluguéis, reforma agrária etc. Essa talvez seja a principal atualidade do golpe de 1964.

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Apreciei o artigo, que encontro equilibrado, mas não o parágrafo final, que foi objeto de um longo comentário meu: "Sobre as 'causas' do golpe militar de 1964", postado em meu blog: Postado no blog Diplomatizzando (link: http://diplomatizzando.blogspot.com/2014/11/sobre-as-causas-do-golpe-militar-de.html)

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