18 de dezembro de 2016

Pedro Nava em pé

Carlos Fico

#rioape


Andar pelas ruas do Rio seria “prazer refinado”, segundo Pedro Nava: “é preciso um gênero de erudição” para corrigir as pessoas sem imaginação. Por exemplo, onde só veem a Av. Brasil, ele via o porto no qual Oswaldo Cruz atracava sua lancha indo para a Fazenda de Manguinhos. Uma tendência passadista de quem gosta de “ler muito (...) perder dias inteiros indo verificar um número de casa”. Ele trabalhou no serviço de ambulâncias do Hospital de Pronto Socorro, a “assistência”, e aprendeu muito sobre a cidade.




Nava registrou em suas memórias suas andanças pela Glória descrevendo a balaustrada sobre a Augusto Severo, o “relógio sempre desregulado”, as edificações e alguns tipos humanos. Quando descia a Taylor e virava na Rua da Lapa, costumava ver velha prostituta, “como aparição de outras eras, (...) espécie de celancanto, (...) velha rebocada (...) relíquia de uma prostituição superada (...) Conheço-a de vista de meus passeios a pé e quando ela da janela me rejuvenesce com seu discreto sinal de cabeça (...) nunca deixo de cumprimentá-la como a uma grande dama”.

Ele morava no apartamento 702 da Rua da Glória, 190, do qual avistava o Aterro do Flamengo e Niterói, desde Jurujuba até a Ilha da Boa Viagem. Escreveu sobre o bairro no quinto volume de suas memórias, Galo das Trevas, aos setenta e cinco anos. Matou-se seis anos depois.




Nava não se suicidou sentado num banco na Rua da Glória, versão que prevalece. Ele deu um tiro no lado direito da cabeça, em pé, ao lado do oitizeiro que fica em frente ao n. 64, onde está a Escola Deodoro – “com sua fachada imunda”, como dizia –, do outro lado da rua. Seu corpo foi encontrado ali, encostado à árvore, no espaço alargado da calçada entre a balaustrada e a rua.


A história do banco decorre do depoimento de D. Diva. Naquele dia 13 de maio de 1984, ela havia descido para comprar bolo e teria visto Nava sentado num banco, cabisbaixo, quando subia para seu apartamento no prédio de n. 122 por volta das 23h. Mais tarde ouviu o tiro, mas não se importou porque “a Glória se transformou num lugar extremamente tumultuado à noite”.

A esposa de Nava, Antonieta, havia atendido o telefone por volta das 21h. Era para ele, voz de homem. Nava ouviu, ficou abalado. Antonieta o inquiriu. Ele teria respondido: “Foi um telefonema de mau gosto. Acho que foi um trote”. A frase teria outras versões. Posteriormente, se afirmaria que Nava teria dito que “nunca tinha ouvido nada tão obsceno ao telefone".

A morte logo repercutiu, Nava era famoso. Nas redações dos jornais, chegou a notícia de que ele estava sendo vítima de chantagem por parte de um garoto de programa, Beto da Prado Júnior. O jornalista Artur Xexéo e o repórter José Castello da IstoÉ apuraram o caso, mas foram impedidos de publicar a matéria por Zuenir Ventura. O mesmo aconteceu em outros veículos. Ziraldo e Otto Lara Resende pressionaram redações para que nada publicassem a fim de poupar Nieta, a viúva. O caso foi abafado.

Nava havia comprado o revólver quatro anos antes. Tinha porte de arma. Ele sempre falava de velhice e morte, mas talvez não tivesse pensado em suicídio. Segundo Ziraldo, seu amigo no fim da vida, Nava teria descido naquela noite com o propósito de matar Beto, mas desistiu por alguma razão, sentiu-se em vias de ser publicamente humilhado e se matou: “Ele vinha recebendo muitas ligações desse rapaz (...) Nava dizia que seria impossível suportar uma humilhação”, garante Ziraldo.

A história é triste, de preconceito e censura. Mas quando passo por ali, todo dia, não lembro de nada disso, mas da escrita colorida, da memória viva, da adorável narrativa de Pedro Nava.

30 de novembro de 2016

Calabouço

Deputado Fabio Vilanova com estudantes no primeiro Calabouço
Carlos Fico

#rioape


Onde ficava o Restaurante Calabouço? Situava-se exatamente em que lugar o famoso bandejão dos estudantes que, em março de 1968, com o assassinato do secundarista Edson Luís de Lima Souto, se tornou símbolo dos conflitos do regime militar? Sempre quis saber ao certo. Alguns me apontavam esquinas improváveis: Santa Luzia com Gen. Justo – como assim? Ora, a localização do restaurante na cidade do Rio de Janeiro desempenhou papel importante no episódio de 1968. Fui tirar a limpo.


O PRIMEIRO
O nome oficial do Calabouço era Restaurante Central dos Estudantes. Foi criado em 1951, no Flamengo, e transferido no ano seguinte para as proximidades do Aeroporto Santos Dumont, perto da “Ponta do Calabouço” – nome que remonta ao século XVI pois designava a prisão de escravos que se construiu ao lado do Forte de São Tiago da Misericórdia, onde hoje está o Museu Histórico Nacional. Esse antigo Restaurante Calabouço era construção precária, espécie de galpão. Quando foi demolido, havia escoras metálicas sustentando o teto, como se pode ver na foto principal desta postagem, tirada em maio de 1967.

Em 1960, com a mudança da capital para Brasília, a cidade do Rio se transformou no estado da Guanabara. Em 1965, ele era governado por Negrão de Lima, cuja eleição foi pretexto para a edição do AI-2, pois Negrão, pessedista, era visto como oposição ao regime militar. Foi esse governador o responsável, em última instância, pela repressão ao Calabouço.

Negrão havia decidido acabar com o problema do acesso ao Aeroporto Santos Dumont. Os veículos tinham de enfrentar cruzamento complicado da pista do Aterro do Flamengo com a Av. Beira-Mar. A construção de um trevo estava prevista desde as obras do aterro, mas havia galpões em frente ao aeroporto, um deles o que abrigava o velho Calabouço.

Haveria uma reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI) em setembro de 1967 no Museu de Arte Moderna (MAM). Negrão queria embelezar a cidade e decidiu fazer a obra. Anunciou a demolição do Calabouço, a construção do trevo e comprometeu-se com os estudantes a construir novo restaurante.

No dia 2 de agosto de 1967 foi servida a última refeição no velho Calabouço. As refeições eram fornecidas pelo Serviço de Alimentação da Previdência Social (SAPS). O governador chegou nas proximidades, de helicóptero, para inspecionar as obras do trevo, mas aproveitou para passar pelo restaurante por volta do meio-dia. Não houve tumultos no almoço, mas, no jantar, foram muitos os discursos. Os estudantes saíram em passeata protestando contra a ditadura e exigindo um restaurante: como ficaria a situação até a inauguração do novo restaurante (veja charge de Fortuna abaixo). Voltaram ao Calabouço. Alguns disseram que só sairiam dali mortos. Outros ameaçaram fazer uma “operação pendura”. Foi o que prevaleceu.


Correio da Manhã, 11 de agosto de 1967. 1o Caderno, p. 6.

Nos dias seguintes, alguns estudantes fizeram refeições em restaurantes da cidade e saíram sem pagar a conta. Foram muitos filés com fritas grátis. Insistiam em divulgar que não haviam pedido bebidas alcoólicas. A pendura era vista com resignação ou até mesmo simpatia pelos proprietários dos estabelecimentos, mas não durou muito tempo.

A Divisão de Educação Extra-Escolar do Ministério da Educação e Cultura (MEC) pensou em construir o novo restaurante na Av. Chile, perto do Largo da Carioca, mas o governo do estado, responsável pela doação do terreno, decidiu localizá-lo entre as avenidas Gen. Justo e Mal. Câmara, bem perto do antigo, no lugar que servia de estacionamento para a Secretaria de Economia, para a Companhia Central de Abastecimento (COCEA) e para a Companhia Siderúrgica do Estado da Guanabara (COSIGUA).


O NOVO
A construção foi financiada pelo estado, conduzida pelo engenheiro Custódio Meireles Miranda, pelo arquiteto Juan Scarpellini, da Superintendência de Urbanização e Saneamento do Estado da Guanabara (SURSAN), e orçada em NCr$ 143.000. Mobilizou 200 trabalhadores. Iniciou-se no dia 1o de julho e o restaurante foi entregue no dia 20 de agosto de 1967. A demolição do velho prédio, perto do Santos Dumont, terminou no dia 10 de agosto. A empresa responsável era a mesma que construía o trevo, associada a outra, especializada em estruturas metálicas. Houve dispensa de licitação. O Calabouço novo era maior: no velho cabiam 6.000 pessoas, no novo, 10.000. O prédio era uma estrutura metálica pré-fabricada, vinda de São Paulo, com telhas de amianto. Área útil de 1.080 m2, mais o espaço anexo para curso de alfabetização (6 salas), loja com produtos a preços especiais, sapataria, relojoaria, alfaiataria, barbearia, camisaria e bar, totalizando cerca de 2.000 m2. Equipamentos do antigo restaurante foram reaproveitados, como o panelões, que foram recondicionados pela Superintendência de Serviços Médicos (SUSEME) (veja imagem abaixo). O restaurante passaria a ser administrado pela Companhia Brasileira de Alimentos (COBAL) por determinação do presidente da República. A refeição (almoço ou jantar) custava NCr$ 0,20. Anteriormente, o SAPS pretendeu aumentar o preço para NCr$ 0,84.




Foi efetivamente inaugurado no dia 21 de agosto de 1967. A primeira refeição, no almoço, consistiu de arroz com feijão, carne assada e macarrão, mais salada e pão. Refresco de uva para acompanhar e, de sobremesa, uma laranja. O governador esteve lá, mas não comeu. A comida, de início, vinha do restaurante da COBAL da Praça da Bandeira, depois passou a ser preparada lá mesmo. O chefe da cozinha, “Ceará”, dizia estar nessa função havia quase 17 anos. Os empregados do antigo Calabouço foram mantidos.

O problema é que o restaurante foi inaugurado às pressas, inacabado. Faltavam pisos e ladrilhos nas paredes. Muita poeira e calor (por causa das telhas de amianto).


CONFRONTOS
A tal reunião do FMI começaria no dia 25 de setembro de 1967 com o novo Trevo dos Estudantes – nome algo irônico – inaugurado no dia 15 de setembro de 1967 (hoje chamado Trevo Estudante Edson Luís de Lima Souto). Era a XXII Reunião das Juntas de Governadores do FMI/BIRD. Os estudantes planejaram algum protesto para o dia 20. Para esvaziar seus planos, no dia 19 a PM e agentes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) prenderam Elionor Mendes Brito, presidente da Frente Unida dos Estudantes do Calabouço. Isso foi durante o dia: na hora do jantar, muitos protestos no Calabouço. O presidente da União Metropolitana dos Estudantes (UME), Daniel Aarão Reis, criticou a reunião do FMI, o governo de Costa e Silva e o imperialismo norte-americano. Lançou, ainda, um ultimato às autoridades exigindo a libertação de Elionor. Nada foi obtido. Outras prisões foram feitas nos dias seguintes.

Esse clima hostil entre os estudantes, o governo estadual, a PM e o DOPS prosseguiria até o fim do ano de 1967.

Negrão de Lima não queria fazer os acabamentos necessários alegando que já havia cumprido sua promessa de construir o novo restaurante. No início de 1968, os estudantes decidiram recolher dinheiro para concluir as obras vendendo bônus pela cidade. No dia 19 de janeiro de 1968, foram para a frente do Edifício Central (Largo da Carioca), mas a PM e agentes do DOPS os escurraçaram a tiros e pontapés. Prenderam vários estudantes quebrando o braço de Dirceu Regis. No dia seguinte, os estudantes insistiram na frente do Cinema Roxy e no trevo. Denunciaram a polícia, que os teria obrigado a assinar folhas em branco e recolhido os NCr$ 500 que tinham conseguido arrecadar. Os presos tinham sido soltos sob fiança.

No dia 26 de janeiro, novos confrontos, mas os estudantes puseram para correr os agentes do DOPS. A venda de bônus foi suspensa. A animosidade entre PM/DOPS e estudantes permaneceu.

Dois meses se passaram depois dessa surra dos estudantes na polícia. No fatídico 28 de março de 1968, os estudantes planejavam uma passeata para o dia seguinte para protestar contras as condições precárias do restaurante. Subitamente, choques da PM invadiram o local, espancando rapazes e moças. Houve tentativa de reação dos estudantes, que buscavam repetir a façanha do dia 26 de janeiro, mas a PM, prevenida, posicionou-se em ponto estratégico e abriu fogo. A violência incomum só pode ser compreendida em função do histórico anterior. O que aconteceu nesse dia 28 é conhecido. As paredes ficaram crivadas de balas. O secundarista Edson Luís foi atingido e morreu às 18h30min.

Houve muitos outros feridos levados para o Sousa Aguiar. Benedito Frazão Dutra, estudante, maranhense, recebeu golpes de cassetete. Correu sob chuva de balas, tentou se esconder debaixo de um carro, mas levou chutes no rosto. foi atendido no Sousa Aguiar. Quase todos analistas afirmam que Benedito não resistiu aos ferimentos e morreu, mas isso não é verdade. Há foto dele saindo do hospital (veja imagem). Sobreviveu e deu depoimento à comissão de inquérito instalada sobre o assunto no dia 15 de maio de 1968. Telmo Matos Henriques, 39 anos, comerciário, não tinha nada a ver com a história: estava trabalhando na empresa 3M, perto dali, na Av. Gen Justo, 365, sobreloja, quando foi atingido por uma bala. Também sobreviveu.


Jornal do Brasil, 29 de março de 1968. 1o Caderno, p. 5.

ONDE FICAVAM?
O primeiro Calabouço, portanto, ficava perto do Aeroporto Santos Dumont. Há raras imagens dele. Em uma delas, publicada pelo Jornal do Brasil no dia 1o de janeiro de 1960, os estudantes aparecem em frente a um galpão de cobertura arredondada, observados pela PM, protestando contra o aumento do preço da refeição de Cr$ 2 para Cr$ 25 (veja imagem abaixo). O jornal identifica o prédio como sendo o Calabouço. Em uma foto do catálogo de vendas da Incorporadora Brasília Imobiliária, tirada nos anos 1950, do topo do Edifício Brasília (esquina da Av. Presidente Wilson com Av. Rio Branco), pode-se ver tal galpão um pouco modificado (também reproduzida abaixo). Fiz uma foto do mesmo ângulo, de modo que podemos ver onde era o primeiro Calabouço (veja também na sequência).


Jornal do Brasil, 1 de janeiro de 1960. 1o Caderno, p. 1.
Foto do catálogo de vendas do Edifício Brasília (Incorporadora Brasília Imobiliária)
Foto atual tirada do mesmo ponto da que consta do catálogo da Incorporadora Brasília Imobiliária

Para localizar o segundo Calabouço, os episódios do dia 28 de março de 1968 são importantes.  O Jornal do Brasil publicou no dia 30 um esquema mostrando como se deu a invasão do restaurante pelo choque da PM (veja abaixo). Após a surpresa inicial e a tentativa de reação dos estudantes, a PM posicionou-se, atirando, na galeria entre os prédios 350 e 370 da Av. Mal. Câmara. Edson Luís vinha do Calabouço, à direita, e foi atingido. Telmo Matos Henriques foi atingido do outro lado, na Av. Gen Justo, 365 – linha reta em direção à galeria. O terreno onde ficava o segundo Calabouço, hoje com algumas árvores, é bem fácil de visualizar no Google Maps entre a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro e o Senac Downtwn Restaurante Escola: é o estacionamento da Defensoria Pública.


Esquema intitulado "Planta da morte". Jornal do Brasil, 30 de março de 1968. 1o Caderno, p. 5.


Meus agradecimentos a Claudio Gindlesberger, gerente do condomínio do Edifício Brasília, por permitir meu acesso ao topo do prédio para fazer a foto que integra esta postagem.



21 de agosto de 2016

Alto desempenho

Carlos Fico

Este não é um texto de análise histórica. Ele expressa opinião pessoal.

Afora o constrangimento que o nado sincronizado me causa, gosto de ver boa parte dos esportes olímpicos, apesar das enormes reservas que tenho em relação a esses eventos.

Gosto porque parece ser inerente a todos nós o desejo de saber quem faz mais pontos, quão alto, quão longe, quão rápido podemos ir.

Mas a valorização extremada da separação por nações acirra vocações xenofóbicas e desperta discursos sentimentalistas de congraçamento. Por outro lado, o chamado "atleta de alto rendimento" trabalha em ritmo desconcertante, sempre tem seu corpo gravemente prejudicado pelo esforço desmedido e, frequentemente, sofre consequências das enormes pressões psicológicas a que é submetido. Há estudos científicos que demonstram como esse tipo de prática é doentia, mas são ignorados. Esses atletas persistem como exemplos de "vida saudável".

A separação entre nações, a ação frenética que demanda homens e mulheres preparados em patamares acima do normal, a possibilidade de se machucar ou morrer e a pressão psicológica constante são características inerentes à guerra. Por isso, os militares sempre deram atenção especial às competições esportivas.

No Brasil, as Forças Armadas criaram, em 2008, o programa "Atletas de Alto Rendimento", tendo em vista os Jogos Militares de 2011. É um programa muito bem estruturado e que consome pequena parcela do orçamento do Ministério da Defesa. O jovem atleta interessado (homens ou mulheres) faz concurso e, se aprovado, torna-se terceiro-sargento, mas atuará, basicamente, como atleta em treinamento esportivo. O programa deu excelentes resultados nos jogos olímpicos no Rio de Janeiro neste ano. Que resulte em melhora da imagem das Forças Armadas é justo.

Muitos se incomodaram com os atletas militares prestando continência ao hasteamento da Bandeira e à execução do Hino. Não vejo problema nisso. Outra coisa chamou minha atenção: os atletas militares, em geral, pareciam psicologicamente mais bem preparados.

É bom que as Forças Armadas tenham criado um programa perene e bem estruturado nesses moldes. Deveria haver algo assim da parte dos ministérios da Educação e dos Esportes abrangendo as escolas. Isso traria benefícios para um número maior de pessoas e diminuiria a força do discurso segundo o qual todos podem "vencer" se adotarem um ritmo frenético de trabalho e desprezarem seu bem-estar físico e mental.

3 de julho de 2016

Jornalista/historiador, historiador/jornalista

Carlos Fico

Quando do lançamento do último livro de Elio Gaspari (A ditadura acabada), um jornalista me ligou para entrevistar-me. Fiz alguns elogios, poucas críticas e pensei "não vai sair". Não saiu. É compreensível: a festa de lançamento não é o melhor momento para críticas. "Mas a censura deve ter sido feita por falta de espaço" - diria Eremildo.

Gaspari, talvez sem querer, encarna, juntamente com Alberto Dines e poucos outros jornalistas, o papel de "decano", sendo muito protegido no campo, como é natural. No ambiente da esquerda, ele é visto com alguma desconfiança e confundiu muitos quando de algum modo apoiou, recentemente, interpretações prevalecentes no grupo "Historiadores pela Democracia".

Eu mesmo sempre o vi com simpatia, não apenas porque, jovem e ainda muito desconhecido, ganhei dele crítica elogiosa a minha tese de doutorado publicada em 1997 pela FGV, mas, sobretudo, porque sempre me beneficiei de suas colunas informativas e analíticas.

Sua coleção de livros sobre a ditadura militar é contribuição notável à historiografia sobre o período, não havendo qualquer autor que possa competir com Gaspari em termos de divulgação dessa história para o grande público.

As críticas que fiz na entrevista inédita não são novas, mas as mesmas que já fiz em relação aos livros anteriores (que, inclusive, já publiquei em livro meu). São duas.

A primeira diz respeito ao fato de que os documentos utilizados por Gaspari são apenas parcialmente acessíveis. Qualquer conhecimento objetivo ou científico só é assim considerado quando submetido ao que chamamos de "processo social do conhecimento", que depende da "intersubjetividade do método". Numa linguagem menos arrogante, isso significa que os "pares", isto é, os outros pesquisadores, devem ser capazes de reproduzir o caminho que trilhamos para checar se procedemos acertadamente. Ora, no caso do historiador, isso depende obviamente do acesso às fontes. Se eu não digo onde estão, quais são e como é possível acessar tais fontes, os demais historiadores não poderão checar minha análise. Desse modo, o conhecimento histórico proposto por Gaspari sustenta-se graças a uma espécie de licença histórica decorrente da notável credibilidade que possui. Gaspari parece ter afirmado que ninguém, até hoje, lhe pediu quaisquer documentos (presumo, então, que ele os cederia). O certo, entretanto, seria doar toda a documentação ao Arquivo Nacional ou ao CPDOC.

A segunda crítica tem a ver com a abordagem teórica de Gaspari, provavelmente inadvertida, que repousa em concepção segundo a qual a história é conduzida por "heróis" e "vilões", mais do que por causas estruturais. Trata-se de enfoque muito conhecido pelos historiadores, tendo prevalecido desde sua consolidação no final do século XIX, na Universidade de Berlim, até aproximadamente os anos 1940, quando os Annales e o marxismo praticamente varreram a velha escola historicista ou positivista, como era chamado. Tal concepção está muito associada à história política tradicional e costuma ser bastante influenciada por fontes como as que Gaspari usou, isto é, documentos produzidos pelos próprios "heróis" cuja leitura acaba sendo em alguns momentos incorporada pelo analista. Geisel, Golbery e Heitor Ferreira saem muito bem no retrato feito por Gaspari.

Essas são críticas antigas. Ao ler este último volume da série, me ocorreu outra coisa. O historiador tem mais dúvidas do que o jornalista. Gaspari e outros jornalistas gostam de uma expressão que causa arrepios nos historiadores: "aos fatos!". Em geral, essa expressão inicia narrativa que se pretende verdadeira de acontecimentos incontestáveis. Os historiadores, bem sabemos que tal não existe. Não há fato incontestável. O que me ocorreu lendo A ditadura acabada foi certo desconforto com a quantidade de juízos definitivos, muitas certezas...

São críticas menores. O livro de Gaspari deve ser lido porque se aprende muito com ele. Há poucas revelações, dessas que encantam os jornalistas, de fato não havendo nada de desconhecido, mas há o reforço de teses historiográficas que me são caras, embora Gaspari não as sustente com todas as letras. Refiro-me à desagradável percepção de que os militares conduziram a transição a seu modo, conforme projeto estabelecido ainda em 1975 e que pressupunha a autoanistia, o fim do bipartidarismo (com o enfraquecimento do MDB) e a eleição (indireta) de candidato palatável. A atuação de Golbery, desde 1975, conduzindo tal projeto, talvez seja a melhor contribuição do livro. Note-se, entretanto, que Gaspari menciona projeto de poder que se estenderia até 1991: esse teria fracassado.

Os poucos vícios de estilo - como a repetição do vocabulário marcante do autor por meio de palavras como "tigrada" e "banca" - que parecem querer dizer algo que não sabemos o que é   - não encobrem a escrita agradável e visual que transparece um filme.

Intitulei esta postagem "Jornalista/historiador, historiador/jornalista" porque pretendia comparar o livro de Gaspari com o recente livro de Marco Antonio Villa, Collor presidente. Mas ela já vai muito grande: fica para a próxima.

9 de junho de 2016

A hora de Dilma

Carlos Fico

Este não é um texto de análise histórica. Ele expressa opinião política pessoal.

A gravidade do momento atual impõe a necessidade de solução que represente, para a população, a recriação do sistema político nacional.

Isso tem de ser feito sem o recurso a fórmulas que contornem a Constituição, como é tradição da cultura política autoritária brasileira (golpes, contragolpes, emenda parlamentarista, prorrogação de mandatos ou eleições fora do calendário). Nesse sentido, ou ficamos com Temer ou Dilma volta ou Dilma não volta e Temer também cai.

No momento em que escrevo, o vice-presidente no exercício da Presidência mostra-se líder desastrado e com os principais chefes de seu partido ameaçados de prisão. Tampouco a ninguém escapa o esforço de alguns setores (mercado financeiro e certo jornalismo à frente) no sentido de produzir "boas notícias" que apenas sublinham pateticamente o desespero dos que se encontram no poder. Esses sintomas da fragilidade de Temer associam-se à legitimidade pelo menos discutível de seu governo, haja vista as irregularidades que cercaram a etapa inicial do processo de impeachment.

Dilma não foi afastada por supostamente ter cometido crime de responsabilidade. O esgarçamento paroxístico da política que se verificou (e se verifica) foi motivado por ela própria, pela Operação Lava Jato e pelo esgotamento do modelo político. Não houve golpe. A bandeira "não vai ter golpe" foi inadequada; a persistência do discurso de denúncia do "golpe" impede ação política consequente. Nada há de semelhante entre 1964 e 2016.

A possibilidade do retorno de Dilma Rousseff depende em grande medida da própria presidente afastada: por que os senadores deveriam votar em seu favor? Ela acusa a maioria do Congresso Nacional de golpista. A presidente deveria parar de falar em golpe. Deveria dirigir-se à nação reconhecendo o grave erro que cometeu ao prometer, na campanha eleitoral de 2014, aquilo que não poderia cumprir e, sobretudo, ao tentar fazer no governo o que acusara seu oponente de planejar fazer. Deveria desculpar-se. Deveria explicar porque foi levada a esse erro.

Também deveria dizer o que pretende fazer caso o Senado a livre do impeachment. Ela mesma, em junho de 2013, propôs um plebiscito que autorizasse processo constituinte específico para fazer a reforma política. A fórmula é juridicamente problemática, mas pode ser aprimorada por pessoal qualificado. É indispensável que haja reforma política para a melhoria do sistema político brasileiro antes das próximas eleições gerais. Há distorções graves, amplamente diagnosticadas. Dilma deveria, inclusive, apresentar sua proposta de reforma política.

A presidente afastada também deveria buscar justificar seu retorno à Presidência da República anunciando previamente programa econômico condizente com as necessidades de ajuste fiscal e, na medida do possível, preservando programas sociais - mas sem promessas demagógicas. Esse é um problema de difícil solução que, por isso mesmo, não pode ser entregue a técnicos supostamente neutros que implementariam soluções "isentas" a partir de diagnóstico tido como indiscutível segundo o qual os gastos decorrentes dos direitos sociais provenientes da Constituição de 1988 não caberiam no orçamento. Do mesmo modo, a superação do impasse econômico não pode ser impedida pelo discurso fácil de parte da esquerda que parece entender o Estado como fonte infinita de recursos. A solução é política e deve ser negociada com a sociedade, claramente, sem subterfúgios.

A população merece ser tratada com sinceridade. Está na hora de os políticos brasileiros abandonarem a concepção que marcou a ditadura militar segundo a qual os brasileiros seriam "despreparados", isto é, incapazes de compreender os problemas e de enfrentar soluções amargas.

Também creio que Dilma deveria sinalizar no sentido de romper com o fisiologismo do chamado "presidencialismo de coalizão" anunciando previamente os nomes que comporiam um ministério pequeno, formado por pessoal qualificado. É indispensável reduzir o número de ministérios, reduzir ainda mais o número de cargos comissionados e não repetir a entrega de ministérios com "porteira fechada" a partidos.

Atitudes como essas talvez frustrassem parte dos que apoiam Dilma Rousseff, mas eventualmente a aproximariam de muitos que se sentem perplexos com a gravidade da crise e com a ausência de propostas factíveis que tenham em vista o interesse nacional. O debate político está quase inteiramente marcado por clivagens partidaristas simplórias, sobressaindo o azedume das defesas apaixonadas daquilo que é indefensável.

Dilma já deu mostras de ser bastante forte. Certamente não é indiferente ao sofrimento, mas consegue se manter impassível em momentos críticos. Deveria reunir suas melhores energias e dizer a que veio. Nessa hora tão grave, ela pode fazer a diferença se tiver coragem de se apresentar diante da nação com propostas claras, factíveis, compreensíveis, verdadeiras. Até porque não tem nada a perder.

É atitude muito difícil de sustentar e que facilmente poderia resultar em fracasso, sobretudo em terra na qual a política foi transformada em especialidade de espertalhões notabilizados por levar vantagem em tudo e em habitat de bandidos notórios que se mantêm livres escarnecendo de todos. Mas seria gesto marcado pela dignidade e elevação  - que tanta falta fazem nesse momento.

25 de maio de 2016

Para trás e para baixo

Carlos Fico

Adhemar de Barros, político paulista tido como corrupto, gostava do lema "Para frente e para o alto!", que ele supunha expressar decisão e energia, além de indicar posição política de centro, "nem esquerda nem direita".

Ele concorreu à Presidência da República duas vezes, em 1955 e 1960, tendo sido derrotado em ambas, ficando nas duas em terceiro lugar. Na eleição de 1960 propunha uma espécie de racionalidade econômica e empresarial com seu slogan "Será o gerente do Brasil". Outro lema de campanha dizia "Adhemar realiza", eco da frase "rouba, mas faz" - que o tornara nacionalmente conhecido. Adhemar, como governador de São Paulo, apoiaria o golpe de 1964, pois tinha esperança de concorrer às eleições presidenciais de 1965, mas o primeiro marechal-presidente do regime militar cassou-lhe o mandato devido ao seu perfil populista e a sua fama de corrupto.

Seria possível fazer muitas analogias entre a atual conjuntura política do Brasil e a imagem de político corrupto mas empreendedor de Adhemar. Entretanto, o que me veio à mente foi sua fulminante trajetória de fracasso, em contraste com o arrogante slogan "Para a frente e para o alto!".

Michel Temer não é Adhemar, mas o vice-presidente no exercício da presidência, além de expressar a arrogância dos que pretendem resolver os problemas dizendo "Agora vai!"- é habilidoso em escolher os melhores ingredientes para uma boa receita de fracasso.

Não me refiro às muitas trapalhadas do início de seu governo, com as idas e vindas no número de pastas ministeriais; os convites públicos a pessoas que recusavam ministérios; a ausência de mulheres, negros e quadros renovados no primeiro escalão; a escolha do lema positivista para slogan do governo; a linguagem empolada e passadista em época de comunicação fluida; a extinção e recriação de ministério; a promessa não cumprida de formar equipe apenas com "notáveis" e por aí afora. Tudo isso culminou com a esperada mas sempre reveladora constatação de que auxiliar muito próximo considerava o impeachment de Dilma Rousseff uma forma de abrandar a Operação Lava Jato.

O mais surpreendente é a disposição de Temer para implementar medidas que buscam não apenas equilibrar o orçamento por meio de ajuste fiscal, mas também que configuram políticas de governo derrotadas na última eleição presidencial e que minaram a popularidade de Dilma Rousseff quando a presidente afastada praticou uma espécie de "estelionato eleitoral" tentando efetivar o que não prometera na campanha. O governo Temer está propondo reformas muito amplas, que ficarão claras para a população nas próximas semanas.

Parece a muitos analistas que esse interregno seria uma boa oportunidade para aprovar medidas amargas e impopulares: são as "reformas de que o Brasil tanto necessita", para usar o mantra que se tornou lugar-comum de muitos comentaristas.

Não se discute a necessidade de o Brasil promover reformas que reconfigurem seus sistemas previdenciário ou tributário - sem falar no político. Isso, entretanto, deve ser feito a partir de diagnóstico corajosamente exposto ao escrutínio dos cidadãos brasileiros, por candidatos que tenham propostas que os convençam e engajem. Tais reformas não podem ser enfiadas goela abaixo da sociedade como se fossem consenso técnico de especialistas neutros que, aproveitando esse momento de suspensão ou latência da normalidade política, as aprovariam como medida de salvação nacional. Essa perspectiva, em uma palavra, é autoritária.

Ademais, é fadada ao fracasso. Só um governo fortalecido - venha essa força de onde vier, temos infelizmente de admitir - seria capaz de implementar reformas estruturais. Parece evidente que o atual governo não tem essa fortaleza.