15 de abril de 2016

Estupefação

Carlos Fico

Para o especialista em História do Tempo Presente, a crise atual é um laboratório privilegiado – afirmação que, reconheço, deve soar egoísta.

Mas não pude deixar de circular pelo Congresso Nacional e conversar com “pessoas comuns” em Brasília para sentir, “ao vivo”, algo que normalmente só detectamos por meio de vestígios históricos.

À excitação das pessoas que têm posições definidas, corresponde a apatia ou entorpecimento das que não se interessam pela crise ou a entendem pouco.

Para usar palavra que passou ao vocabulário cotidiano, as primeiras construirão “narrativas” nas quais prevalecerão testemunhos de algum modo românticos com vários heróis, algozes, vítimas etc.

O comportamento das demais prenuncia fase corriqueira após períodos críticos ou traumáticos. Chamamos essa fase – que ainda virá – de “suspensão”. Ela em geral nos sensibiliza por suas características patéticas (no verdadeiro sentido dessa palavra). São períodos, como teorizou Hans Gumbrecht, nos quais a ausência de uma ruptura real e a inauguração de uma fase de latência indicam que não houve a superação do passado recente.

Essas questões teóricas talvez sejam inadequadas para um simples blog. Mas alguns sinais são eloquentes no sentido de que os principais atores do lado antigovernamental aos poucos se dão conta de que terão de lidar com o passado caso se confirme a vitória do impeachment.

Por exemplo, o discurso da mídia que defende o impeachment já se torna mais "respeitoso", por assim dizer. Do mesmo modo, aqui e ali vão se evidenciando as contradições de todo o processo, até agora bastante ocultadas, como o fato de que algum tipo de ajuste fiscal - com provável aumento de impostos - terá de receber apoio dos que se recusaram a fazê-lo no governo Dilma. O mesmo pode ser dito do enfraquecimento da Operação Lava Jato, da promoção de Eduardo Cunha ao segundo lugar na linha sucessória, enfim, da tremenda frustração que advirá quando, após a fase de suspensão, a sociedade perceber que não terá havido nenhuma ruptura real ou superação do "passado" (no sentido do discurso moralista prevalecente de "combate à corrupção"), pois, muito ao contrário, tudo indica que o novo elenco que assumirá a cena política será marcado por éthos bastante antipopular.


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