27 de outubro de 2018

Risco democrático

Carlos Fico


O  general Golbery do Couto e Silva explicou a Saïd Farhat porque Geisel – tão sério – havia escolhido o desastrado general João Figueiredo como sucessor: “A escolha de Figueiredo deveu-se, exatamente, ao seu modo de ser. Seus defeitos, vistos do lado ‘de fora’, são qualidades apreciadas nos meios militares”. Figueiredo serviria como ponte entre o regime e o povo – disse Golbery – por causa de seu “jeitão” franco e aberto, quase populista, “meio largadão”.

A linguagem insolente vista como qualidade.

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Em 2012, critiquei analistas da História do Tempo Presente, como Dominick LaCapra, que apontavam o “trauma” como marca do final do século XX. Eu escrevi que a especificidade do terço final do século XX era marcada pela “reconfiguração da experiência temporal, sobretudo ditada pela informática – que, entretanto, aponta para a atividade lúdica e não para o sofrimento passivo”.

A linguagem insolente das redes sociais é vitoriosa na boca de líderes políticos que, assim, “falam como o povão”. Quando a insolência é criticada, a resposta corriqueira consiste em dizer que "era brincadeira".

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Nem tudo que é popular é progressista.

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Nem todo eleitor conservador é antidemocrático ou “fascista”.

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Falta de segurança pública, precariedade do atendimento médico, sérios problemas na educação pública compõem a rotina da maioria da população brasileira há décadas, apesar dos espasmos de crescimento econômico nesse ou naquele momento.

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Verifica-se no Brasil amplo movimento de repulsa às elites políticas e intelectuais, de esquerda, de centro, liberais ou quaisquer outras. Não há apenas “antipetismo”, mas descrédito contra formuladores em geral, contra todos que pretendam dizer o que é certo.

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Há grande rejeição dos discursos “politicamente correto” e de “valorização das diferenças” (questões identitárias), que prevalecem sobre o debate de questões materiais como segurança ou desemprego. Tais discursos soam como arrogantes, pretensiosos.

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Conforme os manuais militares de inteligência e contrainformação, uma das formas clássicas de “neutralizar propaganda adversa” consiste em chamar atenção para outros temas, atuando de forma “diversionista”. Também é eficaz o silêncio, não dizer nada, não se expor: os assuntos delicados caem no esquecimento, se diluem naturalmente nos veículos de comunicação com o passar do tempo.

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Bolsonaro fez sua campanha atacando a agenda indentitária e o politicamente correto (política de igualdade de gênero, direitos LGBT, ações afirmativas para afro-brasileiros e indígenas etc.) reverberando a ideia de que tais políticas favorecem injustamente as minorias. Nada disse sobre questões econômicas.

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A onda conservadora que existe também em outros países se expressa, no caso brasileiro, por meio da presença dos militares na política. Isso não é surpresa se pensarmos na tradição intervencionista dos militares na história republicana.

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A possível guinada para a direita no Brasil vai produzir uma enxurrada de propostas ou medidas autoritárias que colocarão em xeque a capacidade de reação de grupamentos democráticos que não se conciliam. Haverá também grande quantidade de propostas ou medidas frágeis, capengas, em função da inexperiência e despreparo do grupo que pode chegar ao poder.

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Além disso, existe possibilidade de escalada autoritária capaz de fragilizar a democracia. A ideia otimista de que “as instituições estão funcionando” é paralisante. Plebiscitos, referendos ou o Congresso Nacional podem aprovar legislação que paulatinamente vá corroendo a democracia. A aliança de democratas de diversos matizes é essencial. Compreensão mais refinada do que é popular, sobretudo por parte da esquerda, também.

18 de outubro de 2018

Ressentimento na política / Política do ressentimento

Carlos Fico

Dei uma entrevista esses dias para um blog durante a qual lamentei o que chamei de “política do ressentimento”.

Eu estava me referindo a duas coisas: (1) o eleitorado brasileiro – ou boa parte dele – é conservador e se ressente de suas “elites” (elites políticas, intelectuais, econômicas) que, tanto em governos à esquerda, quanto na direita ou ao centro, não conseguiram responder satisfatoriamente às tremendas necessidades básicas (segurança, saúde e educação, principalmente) da população mais pobre e de classe média. Tudo isso agravado pelo problema da corrupção.

Também me referia (2) ao fato mais conjuntural da exigência de autocrítica do PT para que eleitores democratas de outros candidatos no primeiro turno apoiassem Haddad no segundo (“só se pedir perdão de joelhos te darei meu voto...”). Uma aparente contradição porque é difícil obter votos para quem se humilha em público.

Eu argumentei na entrevista que o antipetismo decorre não apenas das políticas econômicas equivocadas (sobretudo do governo Dilma) ou dos desvios ideológicos da política externa dos governos do PT em relação à Venezuela ou Cuba: erros de política econômica ou externa já aconteceram diversas vezes no Brasil e não geraram a mesma reação. O "antipetismo" é alimentado por forte ressentimento classista.

Além disso, me parece – como já havia escrito – que a esquerda não soube bem modular as questões identitárias, que assustam o eleitorado conservador e soam como ameaças de mudanças que lhe parecem radicais, exageradas. Bolsonaro faz sua campanha atacando a agenda identitária e o politicamente correto (política de igualdade de gênero, ações afirmativas, direitos LGBT). O voto conservador em um candidato autoritário é também devido ao ressentimento: parte da população considera que essas políticas favorecem minorias injustamente.

A ideia do ressentimento (que formulei para mim mesmo, muita vagamente, dias antes da entrevista) ficou na minha cabeça. Procurei autores que já teriam refletido sobre isso.

Eu ainda não havia lido o livro de Francis Fukuyama, Identity: The Demand for Dignity and the Politics of Resentment, lançado mês passado pela Farrar, Straus and Giroux nos EUA e que, dia 16, teve versão em português lançada em Portugal pela Editora D. Quixote. O original em inglês está disponível para o Kindle, na Amazon, e eu o li.

Fukuyama é autor complicado. Tem alguns insights, mas flutua, teoricamente, em um mar de superficialidades. Desde que lançou seu livro The End of History and the Last Man, em 1992 (anteriomente um artigo publicado em 1989), dedicou boa parte do seu tempo a justificá-lo, tantas são as fragilidades daquele trabalho. Também neste último livro, volta a explicar o antigo: diz que usava a palavra “história” no sentido hegeliano-marxista e a ideia de “fim” como alvo ou objetivo. Ou seja, não era nem o “fim” nem da “história”. Trata-se de discussão muito velha que não vou retomar.

No seu novo livro, Fukuyama usa a estratégia de tratar temas complexos por meio de abordagens simplificadoras. Cita filósofos gregos clássicos ou pensadores iluministas para discutir a questão do eu interior e da exteriorização da sociedade, mas o faz de maneira muito resumida. Busca estabelecer enunciados gerais, mas há poucas evidências empíricas. Suas afirmações sobre “sociedades agrárias” com papeis sociais fixos, sem pluralismo ou diversidade, são apenas tolas.

Mas o livro serve para pensar.

Ele também fala de política do ressentimento. Eu pensei: “estarei de acordo com Fukuyama?”. Não estou, pelas razões acima apontadas e outras que não vou mencionar.

Mas alguns insights do autor merecem reflexão.

O mais importante é que ele (e muitos outros que já escreveram isso de maneira mais sofisticada) considera que as pessoas não são apenas motivadas por interesses materiais. Elas também anseiam por julgamentos positivos sobre o seu valor ou dignidade. Não querem apenas “coisas”, mas reconhecimento. Se a dignidade de um grupo é afrontada, ou não está sendo reconhecida, surge a política do ressentimento.

Esse ressentimento não seria apenas motivado por perdas materiais, econômicas, mas também pelas questões da “dignidade perdida” ou da “invisibilidade”: ser pobre é ser invisível (sempre nas palavras do autor), o que seria pior do que a simples falta de recursos materiais. Assim, as dificuldades econômicas seriam percebidas não como falta de recursos, mas como perda de identidade.

Ora, diz Fukuyama, as queixas econômicas se tornam muito mais agudas quando se conectam com sentimentos de indignidade e de desrespeito.

Os partidos de esquerda não têm sido capazes de enfrentar a questão, segundo Fukuyama: atualmente, as forças políticas mais dinâmicas seriam as que surgem no contexto do “novo populismo de direita”. A esquerda, atualmente, estaria mais preocupada em defender os “marginalizados” do que a “ampla igualdade econômica” como, anteriormente, a “velha esquerda”, baseada no paradigma de classe, o fez. E essa velha esquerda estaria em declínio.

Conforme Fukuyama, as esquerdas se moveram para o centro, aceitando a lógica do mercado e se tornaram difíceis de distinguir dos eventuais parceiros de coalizão da centro-direita.

Ele diz que “o populismo de esquerda fez forte demonstração principalmente em partes da América Latina nos anos 1990 e 2000 com o surgimento de Hugo Chávez na Venezuela, Luiz Inácio Lula da Silva, no Brasil” e outras lideranças, mas essa onda já teria recuado: os partidos de esquerda não seriam as forças dominantes no final do século XX.

Ao contrário da esquerda, a direita (de maneira mais eficaz) se mostra patriótica, defendendo a “identidade nacional tradicional” relacionada à raça, à etnia e à religião. Assim, os altos níveis de desigualdade que subsistem não favoreceram nenhum grande renascimento de uma esquerda populista – como seria em tese esperado – mas de uma direita nacionalista.

Mundialmente, os praticantes dessa política do ressentimento se reconheceriam – o que explicaria a admiração de Trump por Putin, tendo por base a defesa de uma grandeza nacionalista. Podemos lembrar a admiração de Bolsonaro por Trump.

Esses líderes explorariam o ressentimento do cidadão que culpa as elites, mas que também culpa os pobres/"minorias" – que estariam sendo injustamente favorecidos. A bandeira do “quero meu país de volta” seria alimentada pela esquerda que critica a noção de identidade nacional como racista e intolerante – diz Fukuyama.

A ideia de injusto favorecimento das minorias teria relação com a centralidade – nas esquerdas – do discurso identitário: Fukuyama cita as discussões sobre “casamento gay”, sobre o #Metoo e sobre o Black Lives Matter como exemplos. A questão da igualdade de salário entre homens e mulheres que desempenham as mesmas funções também é mencionada: o problema, diz Fukuyama, não seria o valor do salário em si, mas uma questão de justiça: o salário como marca de dignidade. Todos lembramos do debate do tema na entrevista de Bolsonaro ao Jornal Nacional, na Rede Globo.

O “politicamente correto” também é mencionado: apesar de praticado apenas por pequeno grupo, ele seria amplificado pela mídia conservadora como representativo da esquerda como um todo. A popularidade de líderes como Trump (e, poderíamos acrescentar, como Bolsonaro) se deveria ao fato de que eles confrontam tal discurso, ficando assim imunes diante de "gafes" que, em outra situação, fulminariam aqueles as cometem.

Fukuyama admite que as últimas ondas de recessão prejudicaram a reputação da democracia liberal. Mas o foco nas lutas pela identidade acabaram por nos distrair do debate sobre políticas que poderiam concretamente atenuar essas questões.

Ele também chama atenção para a internet, outrora vista como promotora de valores democráticos e atualmente temida como capaz de fragmentar a democracia: ela teria facilitado o surgimento de comunidades autossuficientes, cercadas não por barreiras físicas, mas pela crença na identidade compartilhada.

Não quero resenhar o livro de Fukuyama. Mas algumas questões se impõem.

As críticas mais sonoras de Bolsonaro têm como alvo questões identitárias: "kit gay", política de cotas, escola sem partido, ideologia de gênero etc.

Muitos de seus eleitores situam-se entre aqueles que recebem cinco salários mínimos ou menos. Um apoio popular e conservador: nem tudo que é popular é progressista, o que é óbvio, mas não suficientemente dito. Tais eleitores e suas famílias numerosas não têm acesso satisfatório, há décadas, a serviços universalmente considerados como básicos (saúde, educação, segurança) e que devem ser providos pelo Estado. Boa parte desses eleitores paga impostos elevados.

Nos últimos anos, eles foram bombardeados com informações sobre o caráter criminoso da política. A ideia do “político = corrupto” já existia. Agora se trata de algo mais abrangente: descrédito contra formuladores em geral, todos os que estiveram no poder ou próximo do poder ou com algum tipo de interlocução com o poder (inclusive as eventuais oposições, em algum momento, na trajetória política do PSDB/PT).

No caso do Brasil, penso eu, ao contrário do que muitos afirmam, não se trata apenas de “antipetismo”: verifica-se movimento mais amplo, de repulsa às “elites”. Elites políticas (da direita, do centro e da esquerda), econômicas e intelectuais.

Contra essas últimas (as elites intelectuais), há grande rejeição dos discursos “politicamente correto” e de “valorização das diferenças” (questões identitárias), que prevalecem sobre o debate de questões materiais momentosas como, por exemplo, segurança ou desemprego. Tais discursos soam como arrogantes, pretensiosos.

Esses discursos favorecem não apenas o voto conservador, mas também o voto galhofeiro, fanfarrão, que confronta as bandeiras negativas da esquerda (“Não vai ter golpe”, “Eleição sem Lula é fraude”, “Ele não”, “não isso”, “não aquilo"... ) como quem reage dizendo “Quem disse que não? Ah, estão dizendo que não? Pois agora vão ver!”

Tudo isso é amplificado pela internet, como Fukuyama também destaca. Em texto mais antigo (História que temos vivido) eu dizia que a especificidade do terço final do século XX era marcada pela "reconfiguração da experiência temporal, sobretudo ditada pela informática – que, entretanto, aponta para a atividade lúdica e não para o sofrimento passivo" - base do voto galhofeiro.

Assim é que o argumento racional, o “politicamente correto” e as manifestações sociais da esquerda são vistos como arrogantes, avaliados como incapazes de resolver os problemas da população e, pior, tendentes a favorecer injustamente um “eles”  –  sejam eles os corruptos, a elite tradicional ou, mesmo, as minorias “injustamente” privilegiadas por cotas ou quaisquer outras políticas públicas que as favoreceram.

O eleitorado brasileiro é conservador. Isso não significa que seja majoritariamente golpista, antidemocrático, misógino, homofóbico etc. Pelo menos é o que mostram as pesquisas de opinião quando indicam a majoritária valorização da democracia - inclusive entre os eleitores de Bolsonaro.


Já é tempo de a esquerda lidar com isso.