30 de novembro de 2016

Calabouço

Deputado Fabio Vilanova com estudantes no primeiro Calabouço
Carlos Fico

#rioape


Onde ficava o Restaurante Calabouço? Situava-se exatamente em que lugar o famoso bandejão dos estudantes que, em março de 1968, com o assassinato do secundarista Edson Luís de Lima Souto, se tornou símbolo dos conflitos do regime militar? Sempre quis saber ao certo. Alguns me apontavam esquinas improváveis: Santa Luzia com Gen. Justo – como assim? Ora, a localização do restaurante na cidade do Rio de Janeiro desempenhou papel importante no episódio de 1968. Fui tirar a limpo.


O PRIMEIRO
O nome oficial do Calabouço era Restaurante Central dos Estudantes. Foi criado em 1951, no Flamengo, e transferido no ano seguinte para as proximidades do Aeroporto Santos Dumont, perto da “Ponta do Calabouço” – nome que remonta ao século XVI pois designava a prisão de escravos que se construiu ao lado do Forte de São Tiago da Misericórdia, onde hoje está o Museu Histórico Nacional. Esse antigo Restaurante Calabouço era construção precária, espécie de galpão. Quando foi demolido, havia escoras metálicas sustentando o teto, como se pode ver na foto principal desta postagem, tirada em maio de 1967.

Em 1960, com a mudança da capital para Brasília, a cidade do Rio se transformou no estado da Guanabara. Em 1965, ele era governado por Negrão de Lima, cuja eleição foi pretexto para a edição do AI-2, pois Negrão, pessedista, era visto como oposição ao regime militar. Foi esse governador o responsável, em última instância, pela repressão ao Calabouço.

Negrão havia decidido acabar com o problema do acesso ao Aeroporto Santos Dumont. Os veículos tinham de enfrentar cruzamento complicado da pista do Aterro do Flamengo com a Av. Beira-Mar. A construção de um trevo estava prevista desde as obras do aterro, mas havia galpões em frente ao aeroporto, um deles o que abrigava o velho Calabouço.

Haveria uma reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI) em setembro de 1967 no Museu de Arte Moderna (MAM). Negrão queria embelezar a cidade e decidiu fazer a obra. Anunciou a demolição do Calabouço, a construção do trevo e comprometeu-se com os estudantes a construir novo restaurante.

No dia 2 de agosto de 1967 foi servida a última refeição no velho Calabouço. As refeições eram fornecidas pelo Serviço de Alimentação da Previdência Social (SAPS). O governador chegou nas proximidades, de helicóptero, para inspecionar as obras do trevo, mas aproveitou para passar pelo restaurante por volta do meio-dia. Não houve tumultos no almoço, mas, no jantar, foram muitos os discursos. Os estudantes saíram em passeata protestando contra a ditadura e exigindo um restaurante: como ficaria a situação até a inauguração do novo restaurante (veja charge de Fortuna abaixo). Voltaram ao Calabouço. Alguns disseram que só sairiam dali mortos. Outros ameaçaram fazer uma “operação pendura”. Foi o que prevaleceu.


Correio da Manhã, 11 de agosto de 1967. 1o Caderno, p. 6.

Nos dias seguintes, alguns estudantes fizeram refeições em restaurantes da cidade e saíram sem pagar a conta. Foram muitos filés com fritas grátis. Insistiam em divulgar que não haviam pedido bebidas alcoólicas. A pendura era vista com resignação ou até mesmo simpatia pelos proprietários dos estabelecimentos, mas não durou muito tempo.

A Divisão de Educação Extra-Escolar do Ministério da Educação e Cultura (MEC) pensou em construir o novo restaurante na Av. Chile, perto do Largo da Carioca, mas o governo do estado, responsável pela doação do terreno, decidiu localizá-lo entre as avenidas Gen. Justo e Mal. Câmara, bem perto do antigo, no lugar que servia de estacionamento para a Secretaria de Economia, para a Companhia Central de Abastecimento (COCEA) e para a Companhia Siderúrgica do Estado da Guanabara (COSIGUA).


O NOVO
A construção foi financiada pelo estado, conduzida pelo engenheiro Custódio Meireles Miranda, pelo arquiteto Juan Scarpellini, da Superintendência de Urbanização e Saneamento do Estado da Guanabara (SURSAN), e orçada em NCr$ 143.000. Mobilizou 200 trabalhadores. Iniciou-se no dia 1o de julho e o restaurante foi entregue no dia 20 de agosto de 1967. A demolição do velho prédio, perto do Santos Dumont, terminou no dia 10 de agosto. A empresa responsável era a mesma que construía o trevo, associada a outra, especializada em estruturas metálicas. Houve dispensa de licitação. O Calabouço novo era maior: no velho cabiam 6.000 pessoas, no novo, 10.000. O prédio era uma estrutura metálica pré-fabricada, vinda de São Paulo, com telhas de amianto. Área útil de 1.080 m2, mais o espaço anexo para curso de alfabetização (6 salas), loja com produtos a preços especiais, sapataria, relojoaria, alfaiataria, barbearia, camisaria e bar, totalizando cerca de 2.000 m2. Equipamentos do antigo restaurante foram reaproveitados, como o panelões, que foram recondicionados pela Superintendência de Serviços Médicos (SUSEME) (veja imagem abaixo). O restaurante passaria a ser administrado pela Companhia Brasileira de Alimentos (COBAL) por determinação do presidente da República. A refeição (almoço ou jantar) custava NCr$ 0,20. Anteriormente, o SAPS pretendeu aumentar o preço para NCr$ 0,84.




Foi efetivamente inaugurado no dia 21 de agosto de 1967. A primeira refeição, no almoço, consistiu de arroz com feijão, carne assada e macarrão, mais salada e pão. Refresco de uva para acompanhar e, de sobremesa, uma laranja. O governador esteve lá, mas não comeu. A comida, de início, vinha do restaurante da COBAL da Praça da Bandeira, depois passou a ser preparada lá mesmo. O chefe da cozinha, “Ceará”, dizia estar nessa função havia quase 17 anos. Os empregados do antigo Calabouço foram mantidos.

O problema é que o restaurante foi inaugurado às pressas, inacabado. Faltavam pisos e ladrilhos nas paredes. Muita poeira e calor (por causa das telhas de amianto).


CONFRONTOS
A tal reunião do FMI começaria no dia 25 de setembro de 1967 com o novo Trevo dos Estudantes – nome algo irônico – inaugurado no dia 15 de setembro de 1967 (hoje chamado Trevo Estudante Edson Luís de Lima Souto). Era a XXII Reunião das Juntas de Governadores do FMI/BIRD. Os estudantes planejaram algum protesto para o dia 20. Para esvaziar seus planos, no dia 19 a PM e agentes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) prenderam Elionor Mendes Brito, presidente da Frente Unida dos Estudantes do Calabouço. Isso foi durante o dia: na hora do jantar, muitos protestos no Calabouço. O presidente da União Metropolitana dos Estudantes (UME), Daniel Aarão Reis, criticou a reunião do FMI, o governo de Costa e Silva e o imperialismo norte-americano. Lançou, ainda, um ultimato às autoridades exigindo a libertação de Elionor. Nada foi obtido. Outras prisões foram feitas nos dias seguintes.

Esse clima hostil entre os estudantes, o governo estadual, a PM e o DOPS prosseguiria até o fim do ano de 1967.

Negrão de Lima não queria fazer os acabamentos necessários alegando que já havia cumprido sua promessa de construir o novo restaurante. No início de 1968, os estudantes decidiram recolher dinheiro para concluir as obras vendendo bônus pela cidade. No dia 19 de janeiro de 1968, foram para a frente do Edifício Central (Largo da Carioca), mas a PM e agentes do DOPS os escurraçaram a tiros e pontapés. Prenderam vários estudantes quebrando o braço de Dirceu Regis. No dia seguinte, os estudantes insistiram na frente do Cinema Roxy e no trevo. Denunciaram a polícia, que os teria obrigado a assinar folhas em branco e recolhido os NCr$ 500 que tinham conseguido arrecadar. Os presos tinham sido soltos sob fiança.

No dia 26 de janeiro, novos confrontos, mas os estudantes puseram para correr os agentes do DOPS. A venda de bônus foi suspensa. A animosidade entre PM/DOPS e estudantes permaneceu.

Dois meses se passaram depois dessa surra dos estudantes na polícia. No fatídico 28 de março de 1968, os estudantes planejavam uma passeata para o dia seguinte para protestar contras as condições precárias do restaurante. Subitamente, choques da PM invadiram o local, espancando rapazes e moças. Houve tentativa de reação dos estudantes, que buscavam repetir a façanha do dia 26 de janeiro, mas a PM, prevenida, posicionou-se em ponto estratégico e abriu fogo. A violência incomum só pode ser compreendida em função do histórico anterior. O que aconteceu nesse dia 28 é conhecido. As paredes ficaram crivadas de balas. O secundarista Edson Luís foi atingido e morreu às 18h30min.

Houve muitos outros feridos levados para o Sousa Aguiar. Benedito Frazão Dutra, estudante, maranhense, recebeu golpes de cassetete. Correu sob chuva de balas, tentou se esconder debaixo de um carro, mas levou chutes no rosto. foi atendido no Sousa Aguiar. Quase todos analistas afirmam que Benedito não resistiu aos ferimentos e morreu, mas isso não é verdade. Há foto dele saindo do hospital (veja imagem). Sobreviveu e deu depoimento à comissão de inquérito instalada sobre o assunto no dia 15 de maio de 1968. Telmo Matos Henriques, 39 anos, comerciário, não tinha nada a ver com a história: estava trabalhando na empresa 3M, perto dali, na Av. Gen Justo, 365, sobreloja, quando foi atingido por uma bala. Também sobreviveu.


Jornal do Brasil, 29 de março de 1968. 1o Caderno, p. 5.

ONDE FICAVAM?
O primeiro Calabouço, portanto, ficava perto do Aeroporto Santos Dumont. Há raras imagens dele. Em uma delas, publicada pelo Jornal do Brasil no dia 1o de janeiro de 1960, os estudantes aparecem em frente a um galpão de cobertura arredondada, observados pela PM, protestando contra o aumento do preço da refeição de Cr$ 2 para Cr$ 25 (veja imagem abaixo). O jornal identifica o prédio como sendo o Calabouço. Em uma foto do catálogo de vendas da Incorporadora Brasília Imobiliária, tirada nos anos 1950, do topo do Edifício Brasília (esquina da Av. Presidente Wilson com Av. Rio Branco), pode-se ver tal galpão um pouco modificado (também reproduzida abaixo). Fiz uma foto do mesmo ângulo, de modo que podemos ver onde era o primeiro Calabouço (veja também na sequência).


Jornal do Brasil, 1 de janeiro de 1960. 1o Caderno, p. 1.
Foto do catálogo de vendas do Edifício Brasília (Incorporadora Brasília Imobiliária)
Foto atual tirada do mesmo ponto da que consta do catálogo da Incorporadora Brasília Imobiliária

Para localizar o segundo Calabouço, os episódios do dia 28 de março de 1968 são importantes.  O Jornal do Brasil publicou no dia 30 um esquema mostrando como se deu a invasão do restaurante pelo choque da PM (veja abaixo). Após a surpresa inicial e a tentativa de reação dos estudantes, a PM posicionou-se, atirando, na galeria entre os prédios 350 e 370 da Av. Mal. Câmara. Edson Luís vinha do Calabouço, à direita, e foi atingido. Telmo Matos Henriques foi atingido do outro lado, na Av. Gen Justo, 365 – linha reta em direção à galeria. O terreno onde ficava o segundo Calabouço, hoje com algumas árvores, é bem fácil de visualizar no Google Maps entre a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro e o Senac Downtwn Restaurante Escola: é o estacionamento da Defensoria Pública.


Esquema intitulado "Planta da morte". Jornal do Brasil, 30 de março de 1968. 1o Caderno, p. 5.


Meus agradecimentos a Claudio Gindlesberger, gerente do condomínio do Edifício Brasília, por permitir meu acesso ao topo do prédio para fazer a foto que integra esta postagem.



21 de agosto de 2016

Alto desempenho

Carlos Fico

Este não é um texto de análise histórica. Ele expressa opinião pessoal.

Afora o constrangimento que o nado sincronizado me causa, gosto de ver boa parte dos esportes olímpicos, apesar das enormes reservas que tenho em relação a esses eventos.

Gosto porque parece ser inerente a todos nós o desejo de saber quem faz mais pontos, quão alto, quão longe, quão rápido podemos ir.

Mas a valorização extremada da separação por nações acirra vocações xenofóbicas e desperta discursos sentimentalistas de congraçamento. Por outro lado, o chamado "atleta de alto rendimento" trabalha em ritmo desconcertante, sempre tem seu corpo gravemente prejudicado pelo esforço desmedido e, frequentemente, sofre consequências das enormes pressões psicológicas a que é submetido. Há estudos científicos que demonstram como esse tipo de prática é doentia, mas são ignorados. Esses atletas persistem como exemplos de "vida saudável".

A separação entre nações, a ação frenética que demanda homens e mulheres preparados em patamares acima do normal, a possibilidade de se machucar ou morrer e a pressão psicológica constante são características inerentes à guerra. Por isso, os militares sempre deram atenção especial às competições esportivas.

No Brasil, as Forças Armadas criaram, em 2008, o programa "Atletas de Alto Rendimento", tendo em vista os Jogos Militares de 2011. É um programa muito bem estruturado e que consome pequena parcela do orçamento do Ministério da Defesa. O jovem atleta interessado (homens ou mulheres) faz concurso e, se aprovado, torna-se terceiro-sargento, mas atuará, basicamente, como atleta em treinamento esportivo. O programa deu excelentes resultados nos jogos olímpicos no Rio de Janeiro neste ano. Que resulte em melhora da imagem das Forças Armadas é justo.

Muitos se incomodaram com os atletas militares prestando continência ao hasteamento da Bandeira e à execução do Hino. Não vejo problema nisso. Outra coisa chamou minha atenção: os atletas militares, em geral, pareciam psicologicamente mais bem preparados.

É bom que as Forças Armadas tenham criado um programa perene e bem estruturado nesses moldes. Deveria haver algo assim da parte dos ministérios da Educação e dos Esportes abrangendo as escolas. Isso traria benefícios para um número maior de pessoas e diminuiria a força do discurso segundo o qual todos podem "vencer" se adotarem um ritmo frenético de trabalho e desprezarem seu bem-estar físico e mental.