18 de dezembro de 2016

Pedro Nava em pé

Carlos Fico

#rioape


Andar pelas ruas do Rio seria “prazer refinado”, segundo Pedro Nava: “é preciso um gênero de erudição” para corrigir as pessoas sem imaginação. Por exemplo, onde só veem a Av. Brasil, ele via o porto no qual Oswaldo Cruz atracava sua lancha indo para a Fazenda de Manguinhos. Uma tendência passadista de quem gosta de “ler muito (...) perder dias inteiros indo verificar um número de casa”. Ele trabalhou no serviço de ambulâncias do Hospital de Pronto Socorro, a “assistência”, e aprendeu muito sobre a cidade.




Nava registrou em suas memórias suas andanças pela Glória descrevendo a balaustrada sobre a Augusto Severo, o “relógio sempre desregulado”, as edificações e alguns tipos humanos. Quando descia a Taylor e virava na Rua da Lapa, costumava ver velha prostituta, “como aparição de outras eras, (...) espécie de celancanto, (...) velha rebocada (...) relíquia de uma prostituição superada (...) Conheço-a de vista de meus passeios a pé e quando ela da janela me rejuvenesce com seu discreto sinal de cabeça (...) nunca deixo de cumprimentá-la como a uma grande dama”.

Ele morava no apartamento 702 da Rua da Glória, 190, do qual avistava o Aterro do Flamengo e Niterói, desde Jurujuba até a Ilha da Boa Viagem. Escreveu sobre o bairro no quinto volume de suas memórias, Galo das Trevas, aos setenta e cinco anos. Matou-se seis anos depois.




Nava não se suicidou sentado num banco na Rua da Glória, versão que prevalece. Ele deu um tiro no lado direito da cabeça, em pé, ao lado do oitizeiro que fica em frente ao n. 64, onde está a Escola Deodoro – “com sua fachada imunda”, como dizia –, do outro lado da rua. Seu corpo foi encontrado ali, encostado à árvore, no espaço alargado da calçada entre a balaustrada e a rua.


A história do banco decorre do depoimento de D. Diva. Naquele dia 13 de maio de 1984, ela havia descido para comprar bolo e teria visto Nava sentado num banco, cabisbaixo, quando subia para seu apartamento no prédio de n. 122 por volta das 23h. Mais tarde ouviu o tiro, mas não se importou porque “a Glória se transformou num lugar extremamente tumultuado à noite”.

A esposa de Nava, Antonieta, havia atendido o telefone por volta das 21h. Era para ele, voz de homem. Nava ouviu, ficou abalado. Antonieta o inquiriu. Ele teria respondido: “Foi um telefonema de mau gosto. Acho que foi um trote”. A frase teria outras versões. Posteriormente, se afirmaria que Nava teria dito que “nunca tinha ouvido nada tão obsceno ao telefone".

A morte logo repercutiu, Nava era famoso. Nas redações dos jornais, chegou a notícia de que ele estava sendo vítima de chantagem por parte de um garoto de programa, Beto da Prado Júnior. O jornalista Artur Xexéo e o repórter José Castello da IstoÉ apuraram o caso, mas foram impedidos de publicar a matéria por Zuenir Ventura. O mesmo aconteceu em outros veículos. Ziraldo e Otto Lara Resende pressionaram redações para que nada publicassem a fim de poupar Nieta, a viúva. O caso foi abafado.

Nava havia comprado o revólver quatro anos antes. Tinha porte de arma. Ele sempre falava de velhice e morte, mas talvez não tivesse pensado em suicídio. Segundo Ziraldo, seu amigo no fim da vida, Nava teria descido naquela noite com o propósito de matar Beto, mas desistiu por alguma razão, sentiu-se em vias de ser publicamente humilhado e se matou: “Ele vinha recebendo muitas ligações desse rapaz (...) Nava dizia que seria impossível suportar uma humilhação”, garante Ziraldo.

A história é triste, de preconceito e censura. Mas quando passo por ali, todo dia, não lembro de nada disso, mas da escrita colorida, da memória viva, da adorável narrativa de Pedro Nava.

30 de novembro de 2016

Calabouço

Deputado Fabio Vilanova com estudantes no primeiro Calabouço
Carlos Fico

#rioape


Onde ficava o Restaurante Calabouço? Situava-se exatamente em que lugar o famoso bandejão dos estudantes que, em março de 1968, com o assassinato do secundarista Edson Luís de Lima Souto, se tornou símbolo dos conflitos do regime militar? Sempre quis saber ao certo. Alguns me apontavam esquinas improváveis: Santa Luzia com Gen. Justo – como assim? Ora, a localização do restaurante na cidade do Rio de Janeiro desempenhou papel importante no episódio de 1968. Fui tirar a limpo.


O PRIMEIRO
O nome oficial do Calabouço era Restaurante Central dos Estudantes. Foi criado em 1951, no Flamengo, e transferido no ano seguinte para as proximidades do Aeroporto Santos Dumont, perto da “Ponta do Calabouço” – nome que remonta ao século XVI pois designava a prisão de escravos que se construiu ao lado do Forte de São Tiago da Misericórdia, onde hoje está o Museu Histórico Nacional. Esse antigo Restaurante Calabouço era construção precária, espécie de galpão. Quando foi demolido, havia escoras metálicas sustentando o teto, como se pode ver na foto principal desta postagem, tirada em maio de 1967.

Em 1960, com a mudança da capital para Brasília, a cidade do Rio se transformou no estado da Guanabara. Em 1965, ele era governado por Negrão de Lima, cuja eleição foi pretexto para a edição do AI-2, pois Negrão, pessedista, era visto como oposição ao regime militar. Foi esse governador o responsável, em última instância, pela repressão ao Calabouço.

Negrão havia decidido acabar com o problema do acesso ao Aeroporto Santos Dumont. Os veículos tinham de enfrentar cruzamento complicado da pista do Aterro do Flamengo com a Av. Beira-Mar. A construção de um trevo estava prevista desde as obras do aterro, mas havia galpões em frente ao aeroporto, um deles o que abrigava o velho Calabouço.

Haveria uma reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI) em setembro de 1967 no Museu de Arte Moderna (MAM). Negrão queria embelezar a cidade e decidiu fazer a obra. Anunciou a demolição do Calabouço, a construção do trevo e comprometeu-se com os estudantes a construir novo restaurante.

No dia 2 de agosto de 1967 foi servida a última refeição no velho Calabouço. As refeições eram fornecidas pelo Serviço de Alimentação da Previdência Social (SAPS). O governador chegou nas proximidades, de helicóptero, para inspecionar as obras do trevo, mas aproveitou para passar pelo restaurante por volta do meio-dia. Não houve tumultos no almoço, mas, no jantar, foram muitos os discursos. Os estudantes saíram em passeata protestando contra a ditadura e exigindo um restaurante: como ficaria a situação até a inauguração do novo restaurante (veja charge de Fortuna abaixo). Voltaram ao Calabouço. Alguns disseram que só sairiam dali mortos. Outros ameaçaram fazer uma “operação pendura”. Foi o que prevaleceu.


Correio da Manhã, 11 de agosto de 1967. 1o Caderno, p. 6.

Nos dias seguintes, alguns estudantes fizeram refeições em restaurantes da cidade e saíram sem pagar a conta. Foram muitos filés com fritas grátis. Insistiam em divulgar que não haviam pedido bebidas alcoólicas. A pendura era vista com resignação ou até mesmo simpatia pelos proprietários dos estabelecimentos, mas não durou muito tempo.

A Divisão de Educação Extra-Escolar do Ministério da Educação e Cultura (MEC) pensou em construir o novo restaurante na Av. Chile, perto do Largo da Carioca, mas o governo do estado, responsável pela doação do terreno, decidiu localizá-lo entre as avenidas Gen. Justo e Mal. Câmara, bem perto do antigo, no lugar que servia de estacionamento para a Secretaria de Economia, para a Companhia Central de Abastecimento (COCEA) e para a Companhia Siderúrgica do Estado da Guanabara (COSIGUA).


O NOVO
A construção foi financiada pelo estado, conduzida pelo engenheiro Custódio Meireles Miranda, pelo arquiteto Juan Scarpellini, da Superintendência de Urbanização e Saneamento do Estado da Guanabara (SURSAN), e orçada em NCr$ 143.000. Mobilizou 200 trabalhadores. Iniciou-se no dia 1o de julho e o restaurante foi entregue no dia 20 de agosto de 1967. A demolição do velho prédio, perto do Santos Dumont, terminou no dia 10 de agosto. A empresa responsável era a mesma que construía o trevo, associada a outra, especializada em estruturas metálicas. Houve dispensa de licitação. O Calabouço novo era maior: no velho cabiam 6.000 pessoas, no novo, 10.000. O prédio era uma estrutura metálica pré-fabricada, vinda de São Paulo, com telhas de amianto. Área útil de 1.080 m2, mais o espaço anexo para curso de alfabetização (6 salas), loja com produtos a preços especiais, sapataria, relojoaria, alfaiataria, barbearia, camisaria e bar, totalizando cerca de 2.000 m2. Equipamentos do antigo restaurante foram reaproveitados, como o panelões, que foram recondicionados pela Superintendência de Serviços Médicos (SUSEME) (veja imagem abaixo). O restaurante passaria a ser administrado pela Companhia Brasileira de Alimentos (COBAL) por determinação do presidente da República. A refeição (almoço ou jantar) custava NCr$ 0,20. Anteriormente, o SAPS pretendeu aumentar o preço para NCr$ 0,84.




Foi efetivamente inaugurado no dia 21 de agosto de 1967. A primeira refeição, no almoço, consistiu de arroz com feijão, carne assada e macarrão, mais salada e pão. Refresco de uva para acompanhar e, de sobremesa, uma laranja. O governador esteve lá, mas não comeu. A comida, de início, vinha do restaurante da COBAL da Praça da Bandeira, depois passou a ser preparada lá mesmo. O chefe da cozinha, “Ceará”, dizia estar nessa função havia quase 17 anos. Os empregados do antigo Calabouço foram mantidos.

O problema é que o restaurante foi inaugurado às pressas, inacabado. Faltavam pisos e ladrilhos nas paredes. Muita poeira e calor (por causa das telhas de amianto).


CONFRONTOS
A tal reunião do FMI começaria no dia 25 de setembro de 1967 com o novo Trevo dos Estudantes – nome algo irônico – inaugurado no dia 15 de setembro de 1967 (hoje chamado Trevo Estudante Edson Luís de Lima Souto). Era a XXII Reunião das Juntas de Governadores do FMI/BIRD. Os estudantes planejaram algum protesto para o dia 20. Para esvaziar seus planos, no dia 19 a PM e agentes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) prenderam Elionor Mendes Brito, presidente da Frente Unida dos Estudantes do Calabouço. Isso foi durante o dia: na hora do jantar, muitos protestos no Calabouço. O presidente da União Metropolitana dos Estudantes (UME), Daniel Aarão Reis, criticou a reunião do FMI, o governo de Costa e Silva e o imperialismo norte-americano. Lançou, ainda, um ultimato às autoridades exigindo a libertação de Elionor. Nada foi obtido. Outras prisões foram feitas nos dias seguintes.

Esse clima hostil entre os estudantes, o governo estadual, a PM e o DOPS prosseguiria até o fim do ano de 1967.

Negrão de Lima não queria fazer os acabamentos necessários alegando que já havia cumprido sua promessa de construir o novo restaurante. No início de 1968, os estudantes decidiram recolher dinheiro para concluir as obras vendendo bônus pela cidade. No dia 19 de janeiro de 1968, foram para a frente do Edifício Central (Largo da Carioca), mas a PM e agentes do DOPS os escurraçaram a tiros e pontapés. Prenderam vários estudantes quebrando o braço de Dirceu Regis. No dia seguinte, os estudantes insistiram na frente do Cinema Roxy e no trevo. Denunciaram a polícia, que os teria obrigado a assinar folhas em branco e recolhido os NCr$ 500 que tinham conseguido arrecadar. Os presos tinham sido soltos sob fiança.

No dia 26 de janeiro, novos confrontos, mas os estudantes puseram para correr os agentes do DOPS. A venda de bônus foi suspensa. A animosidade entre PM/DOPS e estudantes permaneceu.

Dois meses se passaram depois dessa surra dos estudantes na polícia. No fatídico 28 de março de 1968, os estudantes planejavam uma passeata para o dia seguinte para protestar contras as condições precárias do restaurante. Subitamente, choques da PM invadiram o local, espancando rapazes e moças. Houve tentativa de reação dos estudantes, que buscavam repetir a façanha do dia 26 de janeiro, mas a PM, prevenida, posicionou-se em ponto estratégico e abriu fogo. A violência incomum só pode ser compreendida em função do histórico anterior. O que aconteceu nesse dia 28 é conhecido. As paredes ficaram crivadas de balas. O secundarista Edson Luís foi atingido e morreu às 18h30min.

Houve muitos outros feridos levados para o Sousa Aguiar. Benedito Frazão Dutra, estudante, maranhense, recebeu golpes de cassetete. Correu sob chuva de balas, tentou se esconder debaixo de um carro, mas levou chutes no rosto. foi atendido no Sousa Aguiar. Quase todos analistas afirmam que Benedito não resistiu aos ferimentos e morreu, mas isso não é verdade. Há foto dele saindo do hospital (veja imagem). Sobreviveu e deu depoimento à comissão de inquérito instalada sobre o assunto no dia 15 de maio de 1968. Telmo Matos Henriques, 39 anos, comerciário, não tinha nada a ver com a história: estava trabalhando na empresa 3M, perto dali, na Av. Gen Justo, 365, sobreloja, quando foi atingido por uma bala. Também sobreviveu.


Jornal do Brasil, 29 de março de 1968. 1o Caderno, p. 5.

ONDE FICAVAM?
O primeiro Calabouço, portanto, ficava perto do Aeroporto Santos Dumont. Há raras imagens dele. Em uma delas, publicada pelo Jornal do Brasil no dia 1o de janeiro de 1960, os estudantes aparecem em frente a um galpão de cobertura arredondada, observados pela PM, protestando contra o aumento do preço da refeição de Cr$ 2 para Cr$ 25 (veja imagem abaixo). O jornal identifica o prédio como sendo o Calabouço. Em uma foto do catálogo de vendas da Incorporadora Brasília Imobiliária, tirada nos anos 1950, do topo do Edifício Brasília (esquina da Av. Presidente Wilson com Av. Rio Branco), pode-se ver tal galpão um pouco modificado (também reproduzida abaixo). Fiz uma foto do mesmo ângulo, de modo que podemos ver onde era o primeiro Calabouço (veja também na sequência).


Jornal do Brasil, 1 de janeiro de 1960. 1o Caderno, p. 1.
Foto do catálogo de vendas do Edifício Brasília (Incorporadora Brasília Imobiliária)
Foto atual tirada do mesmo ponto da que consta do catálogo da Incorporadora Brasília Imobiliária

Para localizar o segundo Calabouço, os episódios do dia 28 de março de 1968 são importantes.  O Jornal do Brasil publicou no dia 30 um esquema mostrando como se deu a invasão do restaurante pelo choque da PM (veja abaixo). Após a surpresa inicial e a tentativa de reação dos estudantes, a PM posicionou-se, atirando, na galeria entre os prédios 350 e 370 da Av. Mal. Câmara. Edson Luís vinha do Calabouço, à direita, e foi atingido. Telmo Matos Henriques foi atingido do outro lado, na Av. Gen Justo, 365 – linha reta em direção à galeria. O terreno onde ficava o segundo Calabouço, hoje com algumas árvores, é bem fácil de visualizar no Google Maps entre a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro e o Senac Downtwn Restaurante Escola: é o estacionamento da Defensoria Pública.


Esquema intitulado "Planta da morte". Jornal do Brasil, 30 de março de 1968. 1o Caderno, p. 5.


Meus agradecimentos a Claudio Gindlesberger, gerente do condomínio do Edifício Brasília, por permitir meu acesso ao topo do prédio para fazer a foto que integra esta postagem.